ENERGIA

Ambientalistas veem descoberta da Petrobras no Amapá com cautela

Sinal de petróleo na Margem Equatorial é um risco sendo vendido como conquista por integrantes do governo, na avaliação do Greenpeace. Entidade alerta sobre os vazamentos que já ocorreram na região durante as perfurações

Petrobras identificou a presença de petróleo no litoral na região da foz do Rio Amazonas, mas descoberta divide opiniões -  (crédito: Divulgação)
Petrobras identificou a presença de petróleo no litoral na região da foz do Rio Amazonas, mas descoberta divide opiniões - (crédito: Divulgação)

A descoberta de petróleo na Margem Equatorial, anunciada pela Petrobras na noite de sexta-feira, foi vista com cautela pelo Greenpeace, entidade não governamental global de ativistas pela proteção do meio ambiente. "A detecção de hidrocarbonetos não é uma reserva, assim como um anúncio otimista não é um laudo de viabilidade técnica e econômica", avaliou Mariana Andrade, coordenadora da Frente de Oceanos do Greenpeace Brasil.

Além de ser contra a exploração na região amazônica, a organização defende que a descoberta "é risco sendo vendido como conquista", tendo em vista os eventuais impactos na biodiversidade e nas comunidades da região. A área da Margem Equatorial é descrita por Andrade como "sensível e remota", um território de comunidades tradicionais e de povos indígenas, cercada de manguezais e recifes, além de cortada por correntes que podem "ampliar o risco de um vazamento se espalhar pela costa brasileira e por países vizinhos".

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A ambientalista entende que o Brasil segue com projetos de exploração sem ter processado as lições do vazamento de óleo que atingiu mais de 3.000 quilômetros do litoral brasileiro em 2019. Além disso, no início deste ano, em janeiro, a Petrobras identificou um vazamento de cerca de 18 mil litros de fluidos de perfuração na Margem Equatorial.

"Antes de qualquer celebração, o que se sabe é que há indícios de petróleo, bem como há um histórico recente de falha operacional no próprio poço, há um afastamento de compromissos climáticos, e há um desastre de sete anos atrás cuja conta o país ainda não fechou", criticou Mariana Andrade.

A Margem Equatorial é uma faixa dos litorais Norte e Nordeste do Brasil que vai do estado do Amapá até o Rio Grande do Norte. Ela é vista como a nova fronteira para a busca de petróleo e gás, sendo considerada uma alternativa importante para compensar a queda do estoque de petróleo do país conforme a produção do pré-sal diminui nos próximos anos.

A Petrobras anunciou, na sexta-feira, que encontrou indícios de petróleo na região da foz do Rio Amazonas, no litoral do estado do Amapá. A descoberta foi comemorada por integrantes do governo e políticos da região.

Para Cibele Vieira, coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), o declínio da produção do pré-sal evidencia a importância de o Brasil encontrar outras fontes de petróleo para garantir sua soberania energética, tendo em vista um crescimento da demanda. "A gente apoia a transição energética, mas essa dependência (do petróleo) não vai ser superada de uma hora para outra, porque a demanda de energia cresce muito", explicou.

As estimativas oficiais do governo e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontam que o potencial total da Margem Equatorial brasileira pode chegar a 41 bilhões de barris de óleo equivalente, com projeções gerais variando acima de 30 bilhões de barris no total da província.

A perspectiva da FUP é que, em cerca de cinco a sete anos, as novas plataformas estejam produzindo plenamente na região, o que também vai gerar efeitos no mercado de trabalho. A Federação aponta que, somente no Amapá, serão 50 mil novos empregos diretos e indiretos. Ao considerar toda a cadeia produtiva nacional, pode-se chegar a 2 milhões de novos empregos.

Em nota, a Federação da Indústria do Estado do Pará (Fiepa) afirmou ter recebido "com alívio e confiança" a descoberta de petróleo na Margem Equatorial e avalia que a notícia pode se traduzir em desenvolvimento para a Amazônia. É defendido que o avanço da exploração também estimule investimentos em outras áreas como infraestrutura e tecnologia, gerando empregos e renda.

"É uma vitória contra aqueles que insistem em boicotar o desenvolvimento do país e tratar a Amazônia como um território onde tudo deve ser proibido. (...) O Norte tem direito ao desenvolvimento — com responsabilidade, segurança e respeito ao meio ambiente", avaliou o presidente da federação, Alex Carvalho.

No governo, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), escreveu nas redes sociais que a descoberta pode ressignificar o futuro do Brasil e reposicionar o país na geopolítica global. Para ele, a exploração da região da Margem Equatorial pode atrair bilhões em investimentos, gerando empregos, renda e desenvolvimento para a região Norte e Nordeste. "Em absoluta harmonia com a transição energética nacional", afirmou.

A notícia de descoberta de petróleo na Margem Equatorial também foi bem-vista pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP). Na avaliação da entidade, o fato confirma que o Brasil possui perspectivas muito positivas para a produção de petróleo e gás natural em outras regiões, reforçando a segurança energética nacional no médio e longo prazo.

Especialistas, contudo, consideram que ainda é cedo para avaliar o tamanho da descoberta, porque ainda não há estudos de viabiliade técnica e econômica, conforme informou, ontem, o Correio.

"Notícia do século"

O governador do Amapá, Clécio Luís (União), também comemorou o anúncio da estatal. Segundo ele, a descoberta de evidências de óleo ou gás natural no primeiro bloco prospectado pela Petrobras na Margem Equatorial é "a notícia do século" em relação à possibilidade de desenvolvimento de novos empreendimentos na Região Norte do Brasil.

"Talvez essa seja a notícia do século em relação a novos projetos, ao desenvolvimento, a novos empregos, tudo o que nós estamos construindo, sonhando e trabalhando com esse momento", disse, em vídeo postado em suas redes sociais. "Essa descoberta representa muito para o Brasil, para a geopolítica, para a estratégia brasileira de desenvolvimento", complementou.

O governador disse que a atividade pode impulsionar a arrecadação estadual, gerar empregos e atrair investimentos para infraestrutura, logística e serviços no Estado.

A perfuração do poço foi autorizada em outubro de 2025, após um processo de licenciamento ambiental que levou cerca de 12 anos. O projeto esteve no centro de debates entre defensores da exploração, que apontam potencial econômico, e grupos ambientalistas, que alertam para os riscos ambientais na Região Amazônica.

O governador e outras lideranças políticas da Região Norte, como o presidente do Senado, senador Davi Alcolumbre (União-AP), também comemoraram o anúncio e defenderam a continuidade das pesquisas exploratórias. 

Produção deve demorar sete anos

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, projetou que o Amapá estará produzindo petróleo em águas ultraprofundas em até sete anos. Em entrevista, ontem, à GloboNews, a executiva disse que a descoberta de petróleo na Margem Equatorial é "absolutamente relevante" para repor as reservas e impedir que o Brasil tenha de importar petróleo nos próximos anos. Além disso, declarou que o achado de novos campos potenciais de produção representa a manutenção do Brasil como um polo geopoliticamente importante no "mundo do petróleo na próxima década como um todo".

No entanto, assim como especialistas, Magda Chambriard também demonstrou cautela com a notícia. Ao jornal O Globo, a presidente apontou que a descoberta não é o mesmo que uma "descoberta comercial" e que ainda não é possível quantificar o volume de petróleo na região da foz do Rio Amazonas.

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Por isso, a Petrobras deve continuar a desenhar a exploração da área, para saber quanto de petróleo existe nela. "Agora, nós vamos continuar furando o poço até o fundo. Depois, ainda tem que delimitar a descoberta. Temos outros três poços para esse bloco. Essa descoberta esquenta muito o bloco e todos os outros em volta", explicou.

Além do poço Morpho — localizado a cerca de 175km da costa do estado do Amapá e onde foram encontrados os indícios de petróleo — a Petrobras pretende expandir as análises para outros três poços. Segundo a executiva, a licença foi solicitada ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que ainda analisa o pedido.

Chambriard está otimista de que a nova licença de exploração será conquistada: "Não vejo razão para (o Ibama) negar", acrescentou.

Além disso, com a descoberta, a expectativa para outros poços próximos torna-se mais positiva, de acordo com a presidente da Petrobras. "Eu acho que esquenta toda a área. E nos anima na direção de uma nova província. Uma província que, se se desenhar conforme a expectativa, contribui bastante para a reposição de reservas que a gente precisa para o pós-pico do pré-sal", disse.

Com a conquista da licença, Magda Chambriard explicou que o próximo passo é continuar com as perfurações. Vale lembrar que, no caso do poço em que foram encontrados indícios de petróleo, a perfuração ainda não foi concluída. A constatação, neste caso, ocorreu por dois métodos diferentes, segundo a presidente. "Um deles é a perfilagem. O outro é indício de lama", citou como exemplo. (Com Agência Estado)

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postado em 16/08/2026 03:58
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