
Um dia após o governo anunciar um novo pacote adicional de R$ 7 bilhões mensais de subsídios para os combustíveis, a Petrobras recuou, na madrugada de ontem, e suspendeu o aumento de R$ 0,19 por litro da gasolina que havia anunciado.
De acordo com a companhia, o cancelamento do reajuste ocorreu após o governo federal, por meio de decreto, ampliar de R$ 0,44 para R$ 0,63 o valor da subvenção para cada litro de gasolina pelo prazo de 30 dias. O desconto anterior no litro da gasolina, de R$ 0,44, foi instituído por meio da Medida Provisória (MP) nº 1.358/2026, que perdeu a validade ontem.
"Diferentemente do informado anteriormente, a alteração no preço da gasolina da Petrobras nos pontos de venda corresponderá apenas à suspensão do desconto. Para as distribuidoras, o efeito será de redução de R$ 0,19 no preço percebido com tributos", disse o comunicado da estatal anunciado a suspensão do reajuste. Com isso, o preço médio do litro da gasolina A (pura), na refinaria, passa para R$ 3,05, em vez dos R$ 3,24 informados antes.
O decreto faz parte de um novo pacote de subsídios que o governo anunciou, na quarta-feira, para fazer frente à disparada dos preços do petróleo no mercado internacional. Contudo, analistas reconhecem que o tamanho do impacto para o consumidor na bomba ainda é incerto, porque dependerá do tamanho dos repasses na cadeia.
Além do novo desconto na gasolina, o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva instituindo o desconto de R$ 0,63 para cada litro da gasolina, com redução dos impostos federais — Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Confis) —, o governo incluiu um abatimento de R$ 0,19 para o etanol, e, com isso, a carga de PIS-Cofins sobre o álcool utilizado como combustível.
Além do decreto, Lula assinou uma medida provisória que impôs um desconto adicional de R$ 1, inicialmente, para cada litro de diesel. A nova subvenção valerá concomitantemente ao subsídio aos produtores e importadores de diesel, de R$, 1,12, vigente por meio da MP 1363/2026, que tem validade até o dia 27 deste mês, segundo informações dos ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. De acordo com eles, o forte aumento do custo internacional de produção do diesel também contribuiu para que o governo ampliasse o subsídio para a commodity.
Os ministros informaram ainda que, até o fim deste mês, será feita uma análise quando a MP mais antiga vencer para incorporar ou não o desconto de R$ 1,12 que está em vigor atualmente. Com relação à concessão dessa nova subvenção ao óleo diesel, a Petrobras informou que "aguarda a publicação dos atos legais necessários para sua avaliação e implementação".
Questionada pelo Correio, a assessoria da Petrobras evitou comentar sobre a possibilidade de futuros reajustes nos combustíveis, devido à volatilidade crescente dos preços do petróleo no mercado internacional.
Ontem, o barril do óleo tipo Brent, referência mundial, voltou a subir e encerrou o dia cotado a US$ 107,63, com alta superior a 6%. Esse movimento ajudou em nova alta nas ações da Petrobras, ontem, que estavam entre as maiores altas do dia, contribuindo para que a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) encerrasse o dia novamente no azul, aos 188.267 pontos, com alta de 1,42%.
"As decisões sobre preços ocorrem no curso normal dos negócios da Petrobras, em conformidade com a sua governança interna e com a avaliação permanente das condições de mercado. Por questões concorrenciais, a companhia não comenta projeções e não antecipa decisões sobre eventuais reajustes, sejam aumentos ou reduções de preços", informou a estatal, em nota enviada ao Correio.
Impacto na bomba
Na avaliação de analistas ouvidos pelo Correio, contudo, o repasse desse desconto dependerá da cadeia de distribuidores e postos de gasolina. "A decisão da Petrobras reduz ou elimina a pressão altista que o reajuste na gasolina causaria, enquanto o tamanho exato do impacto baixista dependerá do repasse nas bombas", afirmou o economista Fábio Roma, da 4Intelligence. Ele manteve a estimativa de impacto de 0,15 ponto percentual na redução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro por conta desses subsídios.
Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, também acredita que o preço da gasolina na bomba pode cair, porque a Petrobras, a princípio, tentou aproveitar o subsídio e aumentar o preço no mercado doméstico porque o preço está defasado em relação ao cenário internacional.
O economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, reconheceu que, apesar da confusão dos comunicados da Petrobras, é possível ter uma redução no preço da gasolina no posto de combustível para o consumidor. "Matematicamente, existe uma redução de custo para as distribuidoras. E para esse desconto chegar integralmente ao motorista na bomba, vai depender de como os donos de postos e as distribuidoras vão repassar essa margem e lidar com outros custos, como o preço do etanol anidro que é misturado na gasolina. Mas a pressão por um aumento imediato foi anulada", afirmou.
Em relatório, o Itaú BBA avaliou, porém, que o recuo da Petrobras no aumento do preço da gasolina, aliada à "ausência de uma justificativa de negócios claramente comunicada", pode ser vista como desfavorável à previsibilidade da governança "e reforçar as preocupações dos investidores quanto à consistência e à independência dos processos de tomada de decisão sobre preços". "O episódio também levanta dúvidas sobre se a empresa prosseguirá com o ajuste de R$ 1 por litro no preço do diesel que, em nossa visão, poderia ser necessário para que a Petrobras retome o pleno alinhamento com sua política de preços", acrescentou o documento.
De acordo com o ministro Bruno Moretti, o impacto fiscal das medidas soma cerca de R$ 7 bilhões, e, com os demais subsídios que vinham sendo adotados desde março para reduzir o impacto da alta do petróleo por conta do conflito no Oriente Médio, iniciado em 28 de fevereiro, o governo já desembolsou R$ 25 bilhões. E, até o fim do mês, somando com todas essas, o valor do impacto desses subsídios chegará "perto de R$ 40 bilhões até o fim de setembro".

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Marcelo de Assis
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