Desde o início da campanha eleitoral, é difícil sair na rua sem encontrar panfletos, bandeiras e carros de som. Mesmo em casa, propagandas são presença constante nas redes, na televisão, no rádio e nos jornais. O objetivo, claro, é que o eleitor conheça quem disputa seu voto, e escolha os nomes que mais o representem nas urnas. Para isso, uma injeção bilionária de recursos dos partidos aquece, em 45 dias, setores como a indústria gráfica e o de aluguel de equipamentos, gerando milhares de empregos temporários e representando um recorde de faturamento para empresários.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já registrou, desde 16 de agosto — quando a campanha começou — um gasto efetivo de mais de R$ 2,3 bilhões pelos candidatos, em todo o país. A maior parte desse dinheiro foi para produção de materiais impressos (R$ 512 milhões), prestação de serviços por terceiros (R$ 373 milhões) e impulsionamento de conteúdos nas plataformas digitais (R$ 253 milhões). Esses valores foram aplicados até a última sexta-feira, quando os dados foram acessados pela reportagem no portal do TSE.
Até o segundo turno, esse montante deve crescer significativamente. Em 2022, nas últimas eleições majoritárias, foram gastos R$ 6,4 bilhões. A maior parte dos recursos foram públicos, com R$ 5,3 bilhões (83,2%). Outro R$ 1,08 bilhão (16,78%) veio de doações feitas por pessoas físicas e recursos próprios dos candidatos. Neste ano, o Fundo Eleitoral garante quase R$ 5 bilhões, divididos entre 30 partidos. Recursos do Fundo Partidário também podem ser usados nas campanhas.
Mesmo com a força das redes sociais, a indústria gráfica segue como principal destino dos gastos eleitorais. Em 2022, R$ 1,2 bilhão foi para a produção de materiais impressos. Ao Correio, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional), Julião Flaves Gaúna, afirmou que a expectativa é de um aporte ainda maior em 2026. "Quatro anos atrás, foi um cenário diferente. Muitas agências e candidatos procuraram a área digital e não usaram o papel impresso. Mas, neste momento, há uma mudança muito positiva para o setor. Há um aumento estimado — estamos acompanhando, mas ainda não fechamos — de 15% de material impresso", disse Julião.
O setor prevê ainda um aumento de 20% nos postos de trabalho, ainda que temporários, para cargos como impressores, motoristas e profissionais que atuam no acabamento gráfico. Julião atribuiu o aumento dos impressos ao cansaço do eleitor com a quantidade de fake news que circula nas plataformas. Porém, aponta que há um equilíbrio no uso das duas ferramentas, após uma explosão do digital em campanhas anteriores, com impacto negativo para a indústria gráfica. "No papel, a informação é muito mais crível para vender um produto. O marqueteiro, a pessoa que fez o planejamento do candidato, usou muito o papel impresso e diminuiu um pouco na rede social. Mas eu vejo um equilíbrio nesse cenário", avaliou.
Período aguardado
Empresários que atuam nos ramos de carros de som e panfletagem também aguardam ansiosamente o período eleitoral. É o caso de Rener Leite, proprietário da Trios Rener e da Blitz Promocional. Segundo ele, a campanha é quando os trios elétricos mais circulam e, por isso, geram mais retorno sobre o investimento. "É o pico para meu negócio. No setor, acaba que a gente passa quatro anos sobrevivendo no comércio, varejo, pequenos eventos, eventos religiosos, manifestações. Qualquer trio básico custa R$ 200 mil. O caminhão fica parado ali a semana toda, o mês inteiro, fazendo um evento aqui, outro acolá", diz o empresário. Em 2022, candidatos direcionaram R$ 33,5 milhões para a contratação de carros de som.
A maior demanda pelos veículos também gera mais postos de trabalho, principalmente para pintores, mecânicos, técnicos de som, eletricistas, motoristas e lavadores, segundo Rener. Apesar da alta no faturamento, ele aponta que o setor também enfrenta desafios causados pela digitalização das campanhas. "Nossa expectativa é alta para o período, mas confesso que, ano após ano, temos encontrado grandes desafios. Antigamente, (os candidatos) contratavam 10, 20 carros para rodar. Hoje, querem só um trio elétrico, para o candidato circular", afirmou. Para o serviço promocional, há também um aumento considerável na demanda por equipes para panfletagem, bandeiradas e distribuição de santinhos nas eleições.
A atuação nas ruas, inclusive, é uma das maiores fontes de empregos temporários nas campanhas. Candidatos contratam empresas especializadas ou trabalhadores freelancers para distribuir panfletos, adesivar carros, ou mesmo para instalar e vigiar bandeiras e banners nas ruas, prática que ganhou força neste pleito. É o caso de Efraim, de 55 anos, que trabalha para a campanha de um candidato do Distrito Federal. "É uma oportunidade. No momento eu trabalho de freelancer, sou autônomo. Nesse momento, agora, apareceu essa oportunidade, achei interessante e eu abracei. É a primeira vez (que trabalho nas eleições). A minha esposa já trabalhou. Está sendo uma experiência boa", comentou.
Também se destacam setores como a publicidade por adesivos (que recebeu R$ 426 milhões em 2022), locação e cessão de imóveis (R$ 62 milhões), pesquisas e testes eleitorais (R$ 52,2 milhões) e a produção de jingles, vinhetas e slogans (R$ 47,4 milhões). O impacto das eleições atuais ficará claro apenas após a conclusão da campanha, e do registro total das despesas. Os candidatos são obrigados a registrar cada centavo gasto e o nome dos fornecedores. Tudo indica, porém, que o valor será maior do que em 2022. De acordo com o TSE, já entraram R$ 6,1 bilhões em receitas para as campanhas, e recursos privados podem ser arrecadados até o dia da eleição.
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