CONJUNTURA

Inflação acelera acima do esperado pelo mercado

IPCA sobe 0,82%, em setembro, pressionado por energia, alimentos e transporte, que ficaram mais caros no mês passado

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador da inflação oficial, subiu 0,82% em setembro em relação ao mês anterior, conforme dados divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou acima das projeções do mercado, cuja mediana das estimativas coletadas pelo Banco Central no boletim Focus, estava em 0,60%.

O resultado representa uma aceleração de 1,14 ponto percentual (p.p.) em relação a agosto, quando o índice registrou queda de 0,32% graças, em grande parte, ao forte aumento do custo da energia elétrica após o fim da incorporação do Bônus de Itaipu nas faturas de agosto e pela vigência da bandeira tarifária amarela, que adiciona R$ 1,885 a mais na conta de luz para cada 100kWh consumidos.

A surpresa no resultado do IPCA de setembro indica um alerta adicional para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que será realizada nos dias 3 e 4 de novembro, de acordo com analistas.

PACIFICO - ECONOMIA GRAFICO IPCA

No acumulado do ano, a inflação oficial registrou alta de 3,95% no ano, e, nos 12 meses encerrados em setembro, teve avanço de 4,58% — dado acima do teto da meta de inflação monitorada pelo Banco Central, de 4,50%. Conforme a pesquisa do IBGE, todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram variação positiva em setembro, com Alimentos e bebidas , Transportes e Habitação, com os maiores impactos.

Na avaliação de César Bergo, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), o resultado foi influenciado principalmente pelos aumentos na energia elétrica, nos transportes e nos alimentos. "O IPCA de setembro surpreendeu negativamente", afirmou o economista. Ele lembrou que a retirada do bônus teve efeito sobre a conta de luz após ter contribuído para a redução dos preços no mês anterior. "Neste mês, tivemos um peso forte na parte de energia, sobretudo porque saiu o bônus de Itaipu, que vinha melhorando a conta e inclusive gerou deflação no mês anterior", explicou.

Apesar de prever alta de 0,82% no IPCA de setembro, Fábio Romão, economista senior da 4a Intelligence, reconheceu que o resultado ficou levemente acima do esperado, apesar da subvenção adicional sobre o diesel anunciada pelo governo. "O subsídio anterior ao da gasolina, ainda não chegou ao consumidor, o que sinaliza que nem todo possível alívio anunciado pelas autoridades aparecerá no IPCA", comentou.

Para o IPCA deste mês, Romão prevê uma desaceleração no indicador para uma alta de 0,30%, especialmente devido à volta da bandeira verde — quando não há adicional na tarifa na conta de luz. E, para o ano, ele manteve a projeção para a inflação anual em 5,20%, a despeito da recente valorização do real no câmbio, dos efeitos da ocorrência do fenômeno climático El Niño, que já começaram neste ano, e do recrudescimento das incertezas ligadas ao conflito entre Estados Unidos e Irã. Ele, inclusive, projeta alta de 5,6% nos preços administrados, acima do patamar de 5,3% registrado em 2025, por conta do choque na oferta de petróleo devido ao conflito no Oriente Médio, "que sinalizam a possibilidade de reajuste nos combustíveis".

Economista e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) José Francisco de Lima Gonçalves, lembrou que a desaceleração do IPCA era esperada pelo mercado, mas os dados de serviços, como energia e passagem aérea e a piora dos preços em alimentação reforçam a recomendação de cautela para o próximo Copom, embora a taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, "ainda acima do razoável".

Maiores impactos

O grupo Habitação registrou a maior contribuição para o índice mensal, com alta de 2,31% e impacto de 0,35 ponto percentual. A principal pressão veio da energia elétrica residencial, que subiu 7,98%. O grupo Transportes teve alta de 0,89%, com impacto de 0,18 p.p. no índice geral. O resultado foi influenciado pelo aumento de 9,66% nas passagens aéreas e pela elevação de 1,41% nos combustíveis. Entre eles, o etanol subiu 3,16%, o diesel avançou 1,69%, a gasolina teve alta de 1,21%, e o gás veicular aumentou 0,10%.

No grupo Alimentação e bebidas, a alta de 0,83% representou impacto de 0,18 p.p. no IPCA, interrompendo uma sequência de três meses de queda. A alimentação no domicílio avançou 0,96%, com destaque para o tomate, que voltou a ser um dos principais vilões devido à disparada no preço de 37,76%, no mês, acumulando 58,70% no ano. A batata-inglesa, a cebola e o arroz também ficaram bem mais caros, com altas no mês de 24,07%, 10,14% e 4,56%, respectivamente.

César Bergo, da UnB, destacou a mudança no comportamento dos preços dos alimentos. "Surpreenderam também os alimentos, que vinham em queda e apresentaram uma alta bastante firme", disse. De acordo com ele, apesar da aceleração em setembro, a inflação poderá encerrar 2026 próxima de 5%. Segundo ele, a redução da pressão sobre a energia elétrica nos próximos meses, caso as condições hídricas permitam a manutenção da bandeira tarifária verde, retomada neste mês, poderá contribuir para aliviar os custos na conta de luz. O acadêmico ponderou, porém, que o cenário atual ainda pressiona os custos ao longo da cadeia produtiva, especialmente em serviços, o que deverá manter a inflação acima do teto da meta no acumulado do ano.

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Desempenho regional

Entre as capitais analisadas pelo IBGE, Vitória registrou a maior variação do IPCA em setembro, com alta de 1,08%, influenciada pelo aumento de 10,85% na energia elétrica residencial e de 43,19% no tomate. Brasília registrou alta de 0,89% no mês e ficou em 5º lugar entre as 16 Regiões Metropolitanas pesquisadas. Rio Branco teve a menor variação, de 0,53%, favorecida pelas quedas de 14,13% nas passagens aéreas e de 7,40% no ovo de galinha.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), indicador que mede a inflação para as famílias com renda de até cinco salários mínimos e utilizado pelo governo na correção do salário mínimo, também subiu 0,82% em setembro, após registrar queda de 0,32% em agosto. O indicador acumulou alta de 4,01% no ano e de 4,29% nos últimos 12 meses.

 


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