
O percentual de famílias brasileiras endividadas teve um leve recuo em setembro na comparação com agosto, passando de 82% para 81,7%, e, com isso, registrou a primeira queda do indicador no ano, conforme dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada mensalmente e divulgada, nesta quinta-feira (8/10), pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Mas tempo médio de atraso atinge o maior patamar desde novembro de 2024.
Conforme os dados do levantamento, a taxa de inadimplência — que mede a proporção de famílias com alguma parcela em atraso — também apresentou queda, com uma redução de 0,3 ponto percentual em relação a agosto, marcando 29,6% – menor patamar desde o mês de março.
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Enquanto isso, o percentual de famílias que relataram não possuir condições de quitar as dívidas em atraso permaneceu estável em 12,5%, interrompendo uma sequência de dois meses consecutivos de alta. Na avaliação da CNC a estabilidade nesse dado é positivo, “porque indica alívio financeiro das famílias”.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, destacou que essa queda gradual do endividamento das famílias reflete também o recuo da taxa básica de juros (Selic), que começou a cair desde março deste ano e, atualmente, se encontra em 13,75% ao ano.
"O que percebemos, ao longo de 2026, um processo de recuo da taxa de juros que parece começar a se refletir. Mas, na ponta, os juros ainda estão muito altos. Então, o resultado desse mês, do ponto de vista do endividamento, é um resultado modesto,. Um recuo de 0,3 ponto percentual em cima de um recorde de 82%, que foi registrado no mês de agosto", explicou Bentes, em entrevista ao Correio. Segudno ele, o resultado talvez mais importante foi a questão da inadimplência mesmo, porque houve uma diminuição no número de famílias que relataram ter dívidas em atraso.
"Mas repito o desempenho dos indicadores da Peic não costuma ser linear mesmo. Pode oscilar de um mês pro outro. Portanto, eu não vejo um cenário de crédito muito tão crítico e tão adverso quanto aquele que ocorreu no início do segundo semestre desse ano", acrescentou.
Na avaliação do economista, a tendência é que o endividamento e a inadimplência devem continuar com recuos de forma bastante lenta, como tem sido lenta as alterações da taxa básica de juros da economia. "Em por isso, é preciso aguardar alguns meses para vermos se, de fato, isso é algo pontual ou se é uma tendência", explicou.
De acordo com Bentes, ainda é preciso aguardar para ver os resultados das novas edições do programa Desenrola, de renegociação de dívidas do governo. "Ao que tudo indica, parece que o programa ajudou pontualmente, porque se houve redução do endividamento no curto prazo, mas nada garante que ele não possa voltar a crescer né no orçamento familiar", alertou.
Tempo médio de atraso aumenta
No entanto, um fator desfavorável para o mês de setembro foi o aumento do tempo médio de atraso, que apresentou avanço pelo segundo mês seguido, para 65,3 dias, o maior patamar desde novembro de 2024 (de 65,5 dias).
Segundo os dados da pesquisa, essa evolução aconteceu, principalmente, entre o período acima de 90 dias de atraso, que representou 48,9% do total. Contudo, percentual de famílias com mais de um ano comprometidas com dívidas foi favorável este mês, com aumento para 33,8%. O maior prazo para pagamento faz com que a amortização mensal seja menor, pressionando menos o orçamento dos consumidores e, consequentemente, impactando sua possibilidade de pagamento.
A pesquisa da CNC também informou que o percentual de famílias que se consideram muito endividadas teve leve redução no mês, alcançando 17,3%. Por outro lado, as que não possuem esse tipo de dívida tiveram um avanço para 18,1%, indicando uma composição mais favorável do endividamento.
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A parcela de consumidores que afirmam não possuir nenhum tipo de dívida (como cartão de crédito, cheque especial, empréstimos ou financiamentos) subiu para 18,1% no mês. Em paralelo, o grupo que se avalia como “muito endividado” teve ligeira redução, fechando em 17,3%.
“A CNC pondera que essa percepção de endividamento tem caráter subjetivo, refletindo fatores culturais e avaliação da própria família sobre seu orçamento, o que não significa, necessariamente, uma situação de superendividamento”, informou a nota da entidade.
Na avaliação do presidente do Sistema CNC, José Roberto Tadros, a retração dos índices após meses de sucessivas altas representa um sinal positivo para a economia, mas sua consolidação depende de condições macroeconômicas mais favoráveis. “A redução do endividamento e da inadimplência dá um pequeno respiro para as famílias”, afirmou, em nota da entidade.
“No entanto, a continuidade dessa trajetória exige medidas que favoreçam o acesso ao crédito em condições mais adequadas, com juros mais compatíveis com a realidade das famílias e das empresas”, acrescentou o executivo.
De acordo com a entidade, a Medida Provisória (MP), que impediu a operação das bets virtuais no Brasil, que entrou em vigor no fim de setembro, ainda não teve seu efeito econômico refletido na Peic de setembro, mas poderá ser aferido em outubro, caso se mantenha.
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