W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

Do projeto original à execução: a W3 como você nunca viu

Projeto inicial das duas principais vias comerciais de Brasília previa áreas destinadas ao abastecimento da cidade, com espaço para plantações e depósitos

Quem conhece Brasília, sabe que as vias W3 Sul e Norte representam a vitrine do comércio no Plano Piloto. No projeto original de Lúcio Costa, as vias, que viveram uma “era de ouro” nos primeiros anos da capital, já estavam lá, mas com uma cara bem diferente da atual.

Navegue pelo especial W3: a avenida de Brasília para conhecer cada detalhe dessa história.

Considerada uma “rua de serviço”, a W3 Sul, construída antes da metade Norte, foi pensada para transportes de cargas e armazéns. A professora Maria Fernanda Derntl, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU/UnB), explica que a ideia inicial era fazer da W3 uma espécie de limite da cidade.

“Seria uma via destinada ao tráfego de caminhões. Onde hoje estão as 500, haveria garagens, oficinas, depósitos do comércio”, explica. A parte mais curiosa da avenida, trecho do Plano Piloto que mais mudou durante a construção, fica onde estão as 700 Sul.  “No lado em que depois se construiu as 700, Lucio Costa falava em construir floriculturas, hortas e pomares.”

A ideia, no entanto, não chegou a se concretizar. A necessidade de novas moradias para funcionários públicos que chegavam à cidade exigia mudanças no planejamento. Imagens obtidas pelo Correio no Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF) mostram a construção das moradias populares.

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU/DF), Ricardo Meira, afirma que a decisão veio antes mesmo da inauguração. “Em 1957, a Novacap procurou institutos de pensão para oferecer os terrenos das quadras 700 da Asa Sul para a construção de casas populares”, diz. “Elas seriam oferecidas para funcionários públicos do segundo escalão.”

Inicialmente, 500 moradias foram construídas na área pela Fundação da Casa Popular e, a partir disso, a configuração da via começou a mudar. Em 1959, um censo realizado na nova capital já contava com a presença de moradores na W3 Sul. 

Arquivo Público do Distrito Federal -
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Brasília revisitada

“O Plano Piloto (no desenho original) seria muito mais longilíneo do que ele é hoje”, explica a professora da FAU. “Ele seria mais linear, magrinho. É um croqui de ideias que foi sendo adaptado e desenvolvido já no início das construções.”

As habitações na W3 Sul foram construídas obedecendo a ideia de separar as áreas de pedestres e de veículos. Assim, as garagens ficam voltadas para a via principal e o acesso dos pedestres se volta para ruas internas, na parte de trás.

Enquanto isso, o outro lado da via, nas quadras 500, assume caráter de uso misto, para comércios e residências. As marquises e calçadas largas, que dão a cara da W3 Sul, já surgem nesses primeiros anos. 

Na Asa Norte, os prédios da W3 só começaram a surgir a partir de 1963, mas também com características diferentes. “Nas quadras 500 da Asa Norte, temos, sobretudo, o uso institucional, com edifícios que não são contínuos”, observa Maria Fernanda. “As comerciais das 700 são recuadas no terreno, com sobrelojas ocupadas para fins diversos.” 

Com a necessidade de moradias e outras zonas de serviço, a W3 deixou de ser a via limítrofe do Plano e foi ganhando mais vizinhos. A dinâmica mutável não assustou Lucio Costa. Para o urbanista, seu planejamento era mais um “esboço” do que viria a ser a ocupação daquele espaço. 

“Ele disse o seguinte, em outras palavras: Eu estou fazendo aqui um esboço, um plano geral, não me chame para detalhar, eu não quero fazer o projeto, é só uma ideia aqui para que vocês depois desenvolvam, porque a cidade é dinâmica, ela tem de ter uma possibilidade de se transformar dentro de um princípio básico”, conta o presidente do CAU. 

Décadas depois, em 1985, o arquiteto foi convidado a avaliar o que aquele projeto havia se tornado, o que originou o documento Brasília Revisitada, disponível no acervo do profissional na Casa da Arquitectura, em Portugal. 

“Nesse documento, ele sugere o surgimento de quadras residenciais que viriam a ser o Noroeste e o Sudoeste, que ele chamava de Asa Nova Sul e Asa Nova Norte”, conta Ricardo. “Demorou bastante, até por uma questão de estratégia de crescimento da cidade, mas isso já era previsto nesse documento do Lucio Costa.” 

Desencontros

Outros aspectos da via também não saíram como o planejado, ou melhor: tiveram de ser alterados antes mesmo da execução. A topografia da região é um dos fatores que faz a W3 abrigar uma série de curiosidades.

Essa história começa ainda no desenho do Plano Piloto. À época, Lucio Costa planejou a cidade mais a Oeste. Para ter uma noção de como seria Brasília no formato original, Meira explica que a Rodoviária do Plano Piloto ficaria onde hoje está a Torre de TV. 

Mas o Lago Paranoá interferiu na criação do arquiteto. Para evitar uma faixa de terra entre o lago e as construções, a cidade foi “deslocada”, o que interferiu na hora de colocar em prática o planejado. 

Um dos resultados dessas “anomalias” é a 708 Sul. “Durante a medição e demarcação topográfica da área, uma equipe demarcava as quadras 500 e outra se ocupava das 700”, conta.  “Isso causou um desencontro e, por isso, a 708 Sul é menor. Se prestar atenção, da 702 à 707 é o mesmo desenho de quadra, e, na 708, foi feito outro formato”, completa. Além de menor, a 708 representa a única quadra sem estacionamentos em toda a W3 Sul, resultado dessa distorção. 

As primeiras quadras do lado habitacional da W3 Sul também foram construídas em formatos diferentes. A 714, destinada a funcionários do Banco do Brasil, conta com lotes maiores e blocos no mesmo formato das superquadras. 

Na Asa Norte, algumas dessas distorções buscaram ser corrigidas. Nessa parte do mapa, todas as quadras são do mesmo tamanho e os estacionamentos, que na Sul ocupam o meio da via, passam para a lateral do comércio. A dinâmica comercial também muda e, com ela, a forma de ocupar os espaços, o que torna as vias Norte e Sul, apesar de “irmãs”, dois cenários com vida e personalidade próprias. 

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