W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

VLT na W3 acumula uma década de atraso: promessa de modernização

Primeira previsão de entrega era para 2014, mas o projeto inicial precisou ser refeito. Agora, passa por ajustes a pedido do Tribunal de Contas do Distrito Federal

Após mais de uma década do anúncio, a instalação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na W3 permanece na promessa. Os estudos começaram ainda em 2008, com um trajeto que ligaria o Aeroporto Internacional de Brasília à Esplanada, passando pela W3 Sul. A previsão era de que o projeto fosse concluído até a Copa do Mundo de 2014, mas as obras nem chegaram a começar.

O VLT é um sistema de transporte elétrico sobre trilhos, com capacidade superior à dos ônibus. Segundo o professor Paulo César Marques da Silva, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília, “é um veículo ferroviário mais leve e flexível que o metrô, mas que mantém a propulsão elétrica”.

Suspenso em 2010 por decisão judicial, o vencimento do contrato obrigou o DF a fazer uma nova licitação. Algumas obras do projeto de implementação foram entregues, como o viaduto no fim da W3 Sul, mas nada de trilhos ou de veículos novos.

Com a passagem dos governos, o VLT da W3 virou assunto comum em campanhas e esteve presente até mesmo no discurso de início do segundo mandato do governador Ibaneis Rocha (MDB-DF). Em 2026, o tema volta aos holofotes após imagens do projeto serem divulgadas pelo GDF. Alguns acreditam que “agora vai”. Para outros, o VLT virou lenda urbana, tal como o metrô para a Asa Norte.

Preservação do patrimônio

O Plano Piloto de Brasília, com obras monumentais de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, é Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 1987. No mesmo ano, o conjunto urbanístico e arquitetônico da cidade, incluindo a W3, foi tombado.

O tombamento da W3 é um dos pontos de atenção das obras do VLT, que devem respeitar a infraestrutura, além da arborização do local. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acompanha os projetos da modalidade de transporte desde 2007, para garantir a preservação das características originais da via. Ao Correio, o órgão afirmou que aguarda a apresentação da proposta atualizada pelo GDF para análise.

“O Iphan esclarece que solicitou aprimoramento da proposta visando, como de praxe, o mínimo impacto e a mínima intervenção possíveis, considerando todas as infraestruturas relacionadas, mantendo a vegetação existente na via W3 e considerando a circulação dos pedestres e demais modais de transporte”, diz a nota. 

A retirada das árvores do canteiro central é a principal preocupação da lojista Rosana Cardoso, do Museu dos Pisos e Azulejos. “Não acho legal, porque o planeta está precisando de árvores”, comenta. Essa preocupação ocorre porque os primeiros projetos previam fiação aérea, o que exigiria a derrubada das árvores do canteiro central. 

O professor da UnB explica que uma das soluções é utilizar faixas já existentes da via, em vez do canteiro central, para evitar intervenções mais agressivas na vegetação. “Se o VLT usar uma das faixas que já existem hoje, você não precisa remover vegetação. No canteiro central, esse impacto pode acontecer”, diz o professor Paulo César.

Procurada, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) explicou que o projeto atual, iniciado em 2019, não vai interferir na vegetação. “O projeto precisou ser reestruturado para atender às normas de tombamento do Plano Piloto. Antes, a opção seria por fiação aérea (catenárias), característica que foi ajustada para Alimentação Pelo Solo (APS), sistema similar ao utilizado no Rio de Janeiro (RJ)”, diz a nota. Atualmente, o projeto passa por ajustes a pedido do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).

Arquivo CB/CB/D.A Press - Engarrafamento na W3 Sul nos anos 1970 já indicava necessidade de investir no transporte público

Parte da revitalização

Os benefícios para a revitalização da W3 também são alvo de dúvida entre os moradores e comerciantes. Para alguns, o VLT é uma inovação necessária que vai atrair novos visitantes. Outros argumentam que a avenida ficaria mais vazia com a retirada dos ônibus — com o VLT, 400 deixariam de circular pela via, substituídos pelo novo modal de transporte. 

Paulo César, no entanto, aponta que esse modelo é comum em sistemas de transporte estruturados. “O VLT não vai responder sozinho por toda a demanda. Ele precisa ser integrado a outros modais, como ônibus de menor percurso”, explica o professor.

Por isso, a mudança no padrão de circulação pode transformar a dinâmica da via. “Quem está dirigindo não vê nem o nome da loja. Já no transporte coletivo, as pessoas olham a cidade pela janela — isso estimula o comércio”, afirma. 

Segundo ele, o predomínio de carros em vias urbanas “acaba alienando o espaço”, reduzindo a interação das pessoas com o comércio local.

A troca faria com que a avenida perdesse a conexão direta com outras regiões administrativas, já que quem mora fora do Plano teria de pegar duas conduções até a via. Em contrapartida, a Semob argumenta que o projeto deve gerar mais empregos e renda na região.

A secretaria defende também que o novo sistema é mais moderno e menos poluente, oferecerá maior frequência, regularidade e conforto e tem grande potencial de geração de empregos na área revitalizada. A pasta detalhou alguns aspectos no projeto atual, que tem extensão de 22km e deve funcionar, por meio de concessão, em duas fases:

  • Fase 1: implantação e prestação do Serviço Público de Transporte Urbano Coletivo do SI/ VLT/W3 ligando o TAS – Terminal Asa Sul / Setor Hípico ao TAN – Terminal Asa Norte, com extensão aproximada de 16km e 24 estações. São 33 trens no total.
  • Fase 2: implantação e prestação do Serviço Público de Transporte Urbano Coletivo do SI/ VLT/W3 ligando o Aeroporto JK ao TAS – Terminal Asa Sul / Setor Hípico, com extensão aproximada de 6km e quatro estações. São previstos mais seis trens.

Em 17 de fevereiro deste ano, a Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob) divulgou uma página apresentando diversos estudos que contemplam a modelagem técnica, econômico-financeira e jurídica, e respectivas minutas de Edital e Contrato – que subsidiarão futura licitação para contratação de parceria público-privada sobre o VLT na W3. Imagens do documento "Parceira público privada — Implantação do Veículo Leve sobre Trilhos — Linha 1 — W3 Norte, Sul e Aeroporto", datado de abril de 2020, na secção "Estudo de viabilidade", mostram imagens do que seriam o projeto do VLT na prática.

Reprodução/SEMOB -
Reprodução/SEMOB -
Reprodução/SEMOB -

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