
Na visão de muitos torcedores, o Campeonato Candango ainda carrega a fama de servir como torneio de refúgio para jogadores rodados, experientes e, muitas vezes, com passagens por grandes clubes do futebol nacional. No entanto, a cada nova temporada, a elite do Distrito Federal busca se reinventar, a ponto de se transformar, cada vez mais, em um abre-alas à nova geração. Passadas duas rodadas e com a terceira marcada para esta quarta-feira no formato de "superquarta", com cinco partidas ao longo do dia, a competição local chama atenção pelo alto índice de atletas nascidos no século atual.
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Levantamento realizado pelo Correio a partir das escalações das duas primeiras rodadas apontao panorama: 40,41% dos jogadores utilizados no Candangão026 nasceram após o ano 2000. O número representa 78 atletas dentro de um universo de 193 jogadores utilizados pelos 10 clubes concorrentes ao título, dado expressivo para um regional historicamente associado à experiência. O índice coloca o torneio do Distrito Federal acima de competições tradicionais, como o Campeonato Paulista. A elite de São Paulo apresenta 37,5% (126 de 336) de atletas pós-anos 2000.
O DF surge ligeiramente abaixo do Campeonato Carioca. O torneio tem 50,43% (117 de 232). O dado do estadual do Rio de Janeiro, porém, carrega uma observação importante. O regulamento permite escalações alternativas até a terceira rodada, marcada para este meio de semana, prática adotada por clubes de maior investimento para minimizar os efeitos do longo calendário. O Flamengo, por exemplo, iniciou a competição utilizando elenco formado integralmente por atletas do sub-20. Com a entrada gradual das formações principais dos grandes clubes, a tendência natural aponta queda considerável no percentual de jovens ao longo da competição. No Candangão, por outro lado, a juventude surge como estratégia estrutural, não como exceção circunstancial.
Entre os clubes do Distrito Federal, o Real Brasília aparece como símbolo máximo desse processo de rejuvenescimento. O Leão do Planalto escalou 16 atletas nascidos após 2000 entre 17 utilizados, atingindo índice impressionante de 94,12%. O número evidencia política clara de aposta em formação, intensidade física e projeção de ativos, mesmo diante de um campeonato competitivo e de curto prazo. No jogo anterior diante do Brasiliense, por exemplo, o atacante Erick estreou pelos profissionais aos 17 anos. Em 2023, inclusive, o Leão do Planalto foi campeão local com a estratégia de usar um elenco impulsionado por pratas da casa.
"Neste ano, o elenco foi montado de acordo com o DNA e o histórico do clube. Um grupo bem jovem, bem competitivo. O Real Brasília aposta muito nas categorias de base e, em 2026, não vai é diferente. Fizemos algumas contratações pontuais, alguns atletas que já estão rodando a nível profissional estão retornando para a equipe e contratamos mais outros atletas para incorporar o nosso plantel", destacou o técnico Raphael Miranda.
Outro destaque relevante aparece na Aruc, tradicionalmente associada à mescla de juventude e experiência. O time do samba utilizou 15 jogadores jovens nascidos após os anos 2000, alcançando 75% do elenco escalado nas duas primeiras rodadas. O Brasília segue caminho semelhante, com 13 atletas deste século entre 20 utilizados nas primeiras rodadas, equivalente a 65%, reforçando mudança de perfil em clubes historicamente mais conservadores nas escolhas. O Paranoá e o Samambaia ocupam faixa intermediária dentro do recorte. A Cobra Sucuri utilizou nove jovens em um total de 21 jogadores, chegando a 42,86%, enquanto o Cachorro Salsicha apresentou oito atletas nascidos após 2000 entre 19, com 42,11%.
No outro extremo da tabela aparecem equipes com menor participação da nova geração. O Brasiliense, dono de um dos elencos mais experientes do torneio e conhecido no país por apostar em atletas de renome, utilizou apenas seis atletas pós-2000 entre 23, índice de 26,09%. O dado, apesar de tímido, reforça a atenção do Jacaré com as categorias de base, retomadas na temporada 2023. O Capital e o Ceilândia repetem cenário semelhante, ambos com quatro jovens entre 19 jogadores, o equivalente a 21,05% em cada elenco, apostando em nomes mais rodados para sustentar campanhas de curto prazo.
O dado mais extremo surge no Gama e no Sobradinho. O Periquito escalou apenas dois atletas nascidos após 2000 entre 18 utilizados, registrando 11,11%. Vice-campeão candango sub-20 em 2025 e um dos quatro representantes do Distrito Federal na Copa São Paulo de Futebol Júnior, o Leão da Serra apresentou o menor índice do campeonato: um jogador jovem entre 17, representando apenas 5,88%. O cenário reforça aposta clara em experiência, leitura de jogo e maturidade emocional como pilares competitivos.
O panorama indica mudança silenciosa, porém consistente, no perfil do Campeonato Candango. O torneio passa a funcionar como espaço real de formação e vitrine, aproximando-se de modelos adotados em centros com tradição exportadora. A presença elevada de atletas jovens também dialoga com exigências físicas atuais, ritmo intenso, maior volume de jogos e necessidade de elencos mais leves. Com a terceira rodada programada para hoje, todos os olhares se voltam para possíveis ajustes nas escalações. A tendência aponta manutenção do cenário, especialmente em clubes com planejamento baseado em médio prazo. Caso os números se sustentem, a elite local pode, definitivamente, romper com rótulos históricos e se firmar como um dos regionais mais jovens do país em 2026.

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