Mercado da bola

ZTE: como o time mais jovem da Europa virou vitrine sul-americana

Donos argentinos, técnico português recrutado no Flamengo e pés de obra da América do Sul: o "case" do clube com a menor média de idade do Velho Mundo que revoluciona os negócios do futebol na Hungria

Fechado com o projeto, o ZTE ocupa o quarto lugar no Campeonato Húngaro e está nas semifinais da Copa da Hungria -  (crédito:  Krisztian Horvath)
Fechado com o projeto, o ZTE ocupa o quarto lugar no Campeonato Húngaro e está nas semifinais da Copa da Hungria - (crédito: Krisztian Horvath)

Vice da Copa nas edições de 1938 e 1954. Tricampeã nos Jogos Olímpicos em Helsinque-1952, Tóquio-1964 e na Cidade do México-1968. A Hungria de craques como Ferenc Puskás, Sándor Kocsis e Nándor Hidegkuti ficou no passado. Os Magiares participaram das últimas três edições da Euro, mas perderam o encanto. A trupe do craque Dominik Szoboszlai está fora do Mundial em 2026. Incapaz de competir com a elite do Velho Continente em competições de clubes e seleções, o país liderado pelo controverso governo de extrema direita do primeiro-ministro Viktor Orbán virou solo fértil para investidores. O Zalaegerszegi Torna Egylet Football Club é um dos "cases" de sucesso.

Quarto colocado na Fizz Liga, como é chamado o Campeonato Húngaro, atrás do Györ, Ferencváros e Debrecen, e semifinalista da Copa da Hungria contra o tradicional Honvéd em abril, o ZTE FC é mais um símbolo dos tempos de globalização.

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O clube fundado em 1920 ostenta o elenco mais jovem da Europa. Acumula média de 22,3 anos, é bancado por empreendedores argentinos, tem um técnico português com passagem relâmpago pelas divisões de base do Flamengo e escolheu o mercado da América do Sul como principal fornecedor dos pés de obra para o projeto.

O presidente do ZTE é o argentino Damián Pedrosa. Ele está no futebol há 12 anos. Passou cinco no Talleres. Foi um dos organizadores da Copa América 2024. Braço direito dele, o diretor esportivo e economista Andrés Jornet passou pelo Talleres e pelo Orlando City.

"O nosso interesse resulta de uma combinação de fatores muito claros. Por um lado, a experiência e o conhecimento que o meu parceiro, Andrés Jornet (diretor esportivo) tinha dentro da indústria do futebol profissional, especialmente na América do Sul. Por outro lado, a Hungria oferece um ambiente muito interessante para desenvolver um projeto de longo prazo: estabilidade institucional, uma liga competitiva, boas infraestruturas e uma localização estratégica dentro da Europa", diz Pedrosa em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense.

 2026. Esportes. O Zalaegerszegi Torna Egylet, conhecido como ZTE FC ou Zalaegerszeg, é um clube profissional de futebol da Hungria, fundado em 1920 na cidade de Zalaegerszeg.
O argentino Damián Pedrosa, dono do ZTE: história no Talleres (foto: Krisztian Horvath)

O executivo acrescenta: "O ZTE, em particular, é um clube com uma história importante, uma base de torcedores muito fiel e uma cidade que apoia fortemente o clube. Vimos uma oportunidade real de construir um projeto moderno e sustentável, com ambição esportiva e institucional. A visão é construir um clube sólido, moderno e sustentável. Queremos que o ZTE seja reconhecido pela sua organização, pela capacidade de desenvolver jovens talentos e por competir de forma consistente no campeonato húngaro. Nos próximos cinco anos, o objetivo é consolidar um dos projetos mais interessantes da Europa Central".

Fórmula da juventude

A média de idade de 22,3 anos do ZTE não é aleatória. "Apostamos em jogadores jovens com talento e potencial de crescimento, combinando-os com alguns perfis mais experientes que tragam equilíbrio. Acreditamos que um clube como o ZTE pode gerar muito valor esportivo e econômico ao desenvolver jovens jogadores em um ambiente profissional competitivo."

O conhecimento dos donos do mercado torna o ZTE cliente preferencial do lado de cá do Oceano Atlântico. "A América do Sul sempre foi uma região com uma quantidade extraordinária de talento futebolístico, por isso, naturalmente, é um mercado que acompanhamos de perto, especialmente países como a Argentina e o Brasil. Ao mesmo tempo, o nosso plantel reflete a natureza global do projeto. Hoje, temos jogadores de vários países, como Nigéria, Moldávia, México, Costa Rica, Eslovénia, França, entre outros."

Diego Borges ilustra o perfil dos jogadores monitorados pelo ZTE. Nascido em Agudos, o zagueiro revelado nas divisões de base do Santos passou pelo Amazonas, chegou de graça ao time húngaro e foi negociado com o Kansas City da Major League Soccer por 2 milhões de euros. No fim dos anos 1980 e início da década de 1990, França, Holanda e Portugal eram portas de acesso à Europa. O país do Leste Europeu se candidata a novo posto de imigração.

  • Média de idade
  • Os 10 elencos mais jovens da Europa
  • 22,3 ZTE (Hungria)
  • 22,5 Nordsjaelland (Dinamarca)
  • 22,6 Istra (Croácia)
  • 22,7 Strasbourg (França)
  • 22,7 Brommapojkarna (Suécia)
  • 22,9 Red Bull Salzburg (Áustria)
  • 22,9 Sandefjord (Noruega)
  • 23,0 Mechelen (Bélgica)
  • 23,2 Karvina (República Tcheca)
  • 23,4 Chelsea (Inglaterra)

O projeto buscou um técnico na base do Flamengo. Nuno Campos havia sido contratado no ano passado por Luiz Eduardo Baptista, o Bap. Assumiu o time sub-20, passou três meses e pediu demissão para aceitar a oferta do ZTE. "A escola de treinadores portuguesa é uma das mais respeitadas no futebol moderno, devido ao seu nível tático e metodológico. Procuramos uma identidade de jogo clara, capacidade de desenvolver jogadores e ambição competitiva. No caso do Nuno, o que o convenceu foi o próprio projeto", alega Pedrosa.

Em tempos de hegemonia dos clubes brasileiros na Libertadores com sete conquistas consecutivas desde 2019, os times argentinos estão com o pires na mão em busca de mecenas capazes de turbiná-los financeiramente, mas investidores como Pedrosa preferiram outro caminho. "O futebol argentino tem um talento enorme e uma tradição incrível, mas também enfrenta algumas limitações estruturais que tornam o investimento de longo prazo mais complexo. A Europa oferece enquadramento institucional, regulatório e comercial mais estável. Para um projeto focado no desenvolvimento de jogadores e no crescimento de um clube, a Europa oferece um ecossistema muito interessante", alega.

Entrevista | Nuno Campos | Técnico do ZTE, ex-Flamengo Sub-20, ao Correio

  Nono Campos deixou trocou o desafio no time sub-20 do Flamengo pelo projeto audacioso do ZTE
Nuno Campos trocou o desafio no Flamengo Sub-20 pelo projeto audacioso do ZTE (foto: Krisztian Horvath)

Por que trocou o projeto do Flamengo pelo do ZTE?

São situações distintas. Saí do Flamengo por uma decisão meramente familiar, porque precisava resolver algumas questões e aproximar-me de Portugal. Só depois surgiu a oportunidade do ZTE.

Como os dirigentes do ZTE o convenceram?

De forma muito clara e honesta, o projeto apresentado pelo presidente Damián e pelo diretor desportivo Andrés assentava na formação e na valorização de jogadores jovens, maioritariamente provenientes da América do Sul. A ideia era desenvolvê-los, fazê-los evoluir e posteriormente transferi-los, permitindo ao clube garantir a sustentabilidade. Paralelamente, o objetivo traçado era — e continua a ser — manter o clube na primeira divisão. Deram-me autonomia para escolher alguns jogadores de acordo com as suas características e em sintonia com a nossa ideia de jogo, que passa por ter iniciativa, posse de bola e um futebol apoiado, atrativo, que permita aos jogadores sobressaírem. O projeto tem corrido muito bem. Já houve jogadores que saíram depois de mostrarem a sua melhor versão em campo, fruto da nossa forma de jogar e também dos muitos triunfos que temos conquistado. Isso permitiu-nos estar numa excelente posição na Liga e alcançar as semifinais na Copa da Hungria.

O ZTE tem o elenco mais jovem da Europa. Aumenta a dificuldade?

Representa um enorme desafio. Felizmente, temos conseguido lidar com isso de forma muito positiva, promovendo esses jovens jogadores e projetando-os para o futebol europeu.

Como conciliar desenvolvimento e resultado?

Eles têm se valorizado, mas os resultados ajudam muito e o futebol praticado — que tem sido reconhecido por muitos — pesa nessa valorização. A imprensa considera que somos a equipe que melhor joga na Hungria e nós acreditamos que, jogando bem, estaremos sempre mais próximos de ganhar, independentemente de termos o orçamento mais baixo da Liga.

Como é a busca por esse equilíbrio?

Não é fácil conciliar resultados com a valorização de jogadores tão jovens. Isso exige tempo, algo que muitas vezes não existe no futebol. Estivemos sempre em sintonia desde o início e o tempo que nos foi dado permitiu construir uma equipe que sabe exatamente o que fazer. Isso ajuda a valorizar os jogadores. Alguns saíram e outros deverão sair no final da temporada. Na fase inicial, o tempo foi crucial. Os resultados ainda não apareciam, mas todos acreditávamos que estávamos no caminho certo.

A experiência na base ajuda...

Tenho cerca de 20 anos de carreira como treinador, entre funções de assistente e treinador principal, com mais de 70 jogos nas competições europeias como Liga dos Campeões e Liga Europa. Toda essa experiência, bem como os troféus conquistados, ajudou a consolidar uma ideia de jogo baseada na posse de bola, no controle do jogo com bola e em passar o menor tempo possível defendendo perto da nossa área. Temos conseguido nos firmar como uma das equipes com maior presença ofensiva. Somos muito fortes no ataque, com elevados índices de ações próximas da área adversária. A equipe que mais cria ocasiões de gol. Isso contribui para que os jogadores sejam notícia positiva.

O Brasil foi parte da sua escola?

A minha passagem pelo Brasil teve como objetivo ganhar experiência num clube da dimensão do Flamengo, que é uma instituição gigantesca, com cerca de 40 milhões torcedores. Além disso, a formação do Flamengo conta com jovens de enorme qualidade, o que me levou a aceitar o projeto de imediato. Penso que a experiência correu muito bem, tanto pela forma como fui recebido pelo grupo de jogadores como pela relação com todas as pessoas que trabalharam comigo na estrutura da formação. Também ganhei muita experiência ao trabalhar em articulação com a equipe principal na maioria dos dias.

O ZTE é o maior cliente da América do Sul?

A América do Sul continuará sendo o espaço prioritário de recrutamento do ZTE, sobretudo para jogadores muito jovens. Essa tem sido uma aposta clara do clube e uma aposta bem-sucedida. Não existem razões para alterar essa estratégia.

Quais são as metas esportivas?

O objetivo principal do clube é garantir a permanência na primeira divisão. Estamos muito perto de o conseguir, embora ainda não estejamos matematicamente assegurados. Outro objetivo passa por jogar bem e praticar um futebol atrativo, capaz de valorizar os jogadores. E, naturalmente, vender jogadores para tornar o clube sustentável. Acredito que todos esses objetivos serão alcançados e, em alguns casos, até superados.

Dá para competir com camisas pesadas como a do Ferencváros?

O Ferencváros tem um orçamento muito superior ao nosso. O ZTE tem o orçamento mais baixo da Liga. Ainda assim, em campo, temos conseguido competir de igual para igual. A diferença financeira é muito grande, mas não se tem refletido em campo.

Qual é a projeção para o ZTE?

O objetivo de transformar o clube numa vitrine para jogadores jovens está sendo alcançado. Para termos ambições mais elevadas seria necessário manter os jogadores durante mais tempo e reforçar o plantel com jogadores mais experientes, um contraponto à irreverência da juventude. No entanto, neste momento, o projeto do clube não passa por esse caminho.

Como avalia a passagem pelo Flamengo?

O Flamengo tem uma dimensão absolutamente extraordinária, com condições de trabalho fantásticas e ao mais alto nível, comparáveis às melhores da Europa. A qualidade técnica do jogador brasileiro permite aos treinadores desenvolver um futebol apoiado, como eu gosto, e capaz de proporcionar espetáculo. Penso que consegui implementar um pouco dessa ideia nos sub-20 do Flamengo. Foi um momento muito especial da minha vida.

Como foi a relação com o Filipe Luís?

Temos uma relação excepcional. Sempre tive a porta do gabinete do Filipe aberta e falávamos diariamente no âmbito da coordenação que ele promovia. Quando era necessário algum jogador subir à equipa principal, conversávamos sobre tudo o que fosse importante para o funcionamento do processo. Houve grande abertura e colaboração. Quanto à carreira dele, os títulos falam por si. Acredito que irá trabalhar em grande clube europeu e terá certamente uma carreira muito bonita e vitoriosa.

O ZTE está nas semifinais da Copa da Hungria. Meta batida?

Chegar às semifinais é um grande feito. No ano passado, a equipe lutou até ao fim para garantir a permanência na primeira divisão. Nesta temporada, somamos mais pontos do que em toda a temporada passada. Estamos nas semifinais da Copa da Hungria, por isso está sendo uma temporada fantástica e sentimos que podemos continuar fazendo história. O trabalho desses jogadores me deixa muito orgulhoso. São jovens, irreverentes, mas com enorme vontade de aprender e de construir uma carreira no futebol.

  •  O argentino Damián Pedrosa, dono do ZTE: história no Talleres
    O argentino Damián Pedrosa, dono do ZTE: história no Talleres Foto: Krisztian Horvath
  •  O Zalaegerszegi Torna Egylet, conhecido como ZTE, está nas semifinais da Copa da Hungria e em quarto na liga nacional do país anfitrião da final da Champions League nesta temporada
    Fechado com o projeto, o ZTE ocupa o quarto lugar no Campeonato Húngaro e está nas semifinais da Copa da Hungria Foto: Krisztian Horvath
  •  2026. Esportes. O Zalaegerszegi Torna Egylet, conhecido como ZTE FC ou Zalaegerszeg, é um clube profissional de futebol da Hungria, fundado em 1920 na cidade de Zalaegerszeg. Tecnico Nuno Campos.
    2026. Esportes. O Zalaegerszegi Torna Egylet, conhecido como ZTE FC ou Zalaegerszeg, é um clube profissional de futebol da Hungria, fundado em 1920 na cidade de Zalaegerszeg. Tecnico Nuno Campos. Foto: Krisztian Horvath
  •  Nono Campos deixou trocou o desafio no time sub-20 do Flamengo pelo projeto audacioso do ZTE
    Nuno Campos trocou o desafio no Flamengo Sub-20 pelo projeto audacioso do ZTE Foto: Krisztian Horvath
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MP
postado em 29/03/2026 06:30
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