Quando Arthur Antunes Coimbra pendurou a chuteira, Morais Moreira (1947-2020) transformou a dor da nação rubro-negra — e da verde-amarela — em poesia na canção Saudade do Galinho: “E agora como é que eu fico, nas tardes de domingo, sem Zico, no Maracanã?”. Uma das respostas à pergunta do cantor e compositor baiano e a uma legião de súditos é o documentário assinado pelo diretor João Wainer.
Lugar de fã nostálgico do camisa 10 é na arquibancada do cinema a partir de 30 de abril para dar um play no documentário Zico, o Samurai de Quintino (Downtown Filmes). O Correio Braziliense acompanhou na última quinta-feira o pré-lançamento do filme em Brasília, onde o craque foi ministro do Esporte e dono do CFZ, campeão invicto do Distrito Federal em 2002.
Em tempos de combate à misoginia, o filme é mais um gol de placa na carreira do camisa 10 da Gávea justamente por chutar o machismo para escanteio. Casado há 50 anos com a mesma mulher — Sandra Carvalho de Sá — Zico dá protagonismo a ela em tabelinha com João Wainer do início ao fim no roteiro da obra. Mostra o lado romântico do ícone do Flamengo e da Seleção Brasileira em três edições da Copa do Mundo: 1978, 1982 e 1986.
O lugar da diva de Zico, por exemplo, é na abertura da película ao falar da amizade que virou namoro, noivado e casamento, em 1975, na Paróquia de São José, na Lagoa, Rio de Janeiro. Ela fala de um Galinho respeitoso e assume a predileção por um outro jogador do Flamengo à época. Nada ciumento, ele coloca a bola no chão e sai jogando com elegância. “Fã é fã”.
O protagonismo de Sandra vai além. Em meio a uma coleção de gols e de relíquias preservadas com zelo espantoso pelo craque analógico para entregar uma versão digital de excelência na cinebiografia, Sandra é progatonista ao descrever o lado humano de Zico na cerimônia de casamento. Zico revela até que o crush da esposa foi quem preparou o roteiro de casamento. Como aqui não é lugar de spoiler, vá ao cinema descobrir quem é ele.
Em vez de dedilhar a tela do smartphone na era da tecnologia de ponta, Sandra acaricia com carinho o caderno de anotações a caneta de tinta azul do companheiro. Um diário guardado com esmero registrando bons e maus momentos com a carreira. “Ele sempre pediu cuidado com tudo”, compartilha a guardiã das antiguidades do deus rubro-negro.
Um dos registros diz respeito aos tempos de chumbo no Brasil. Sandra admite a frustração de Zico pela ausência na lista final da Seleção para os Jogos Olímpicos de Munique-1974. Durante a ditadura militar, um dos irmãos dele, Fernando Antunes Coimbra, o Nando, sofreu perseguição, prisão e tortura política entre as décadas de 1960 e 1970.
Emocionada, mas ponderada, Sandra reforça em uma das transições do documentário que Zico viveu mais momentos felizes do que tristes e revela o espanto com as escolhas surpreendentes do craque. Uma delas, a escolha pela transferência para o Japão no fim da carreira para o Sumitomo Metal Industries, que depois passaria a se chamar Kashima Antlers. “Eu que conheço o Zico não consegui entender”, admite a esposa. Ele não somente brilhou como virou ídolo do clube, revolucionou o futebol japonês e foi técnico do país na Copa do Mundo de 2006 na Alemanha. Inclusive enfrentou o Brasil na fase de grupos.
Sandra ajuda Zico a lidar com carrascos e traumas no documentário. Autor dos três gols da eliminação do Brasil na Copa de 1982, Paolo Rossi não é omitido. Muito menos Márcio Nunes, o zagueiro do Bangu autor da entrada criminosa no joelho do Galinho em 1985. Resiliente, ele correu contra o tempo para ir à Copa de 1986, no México. “Foi tão bruto, tão tudo, um ano de sofrimento”, emociona-se Sandra.
O filme serve de divã ao mostrar Zico lidando com o fantasma da penalidade defendida por Joël Bats no tempo regulamentar das quartas de final contra a França. Ele converteu na decisão por pênaltis, mas novamente Sandra, que estava no México, entra em cena para dar a medida do impacto da eliminação no que ela e o companheiro têm de mais precioso: a família. E revela uma importante decisão de mãe que teve de tomar em nome dos filhos. Sincera, também aborda a tristeza pessoal ao deixar a Itália para voltar ao Brasil depois da passagem do astro pela Udinese.
Antes e depois dos créditos, a tabelinha envolvente entre os craques Arthur Antunes Coimbra e João Weiner, Zico, o Samurai de Quintino mostra um ídolo que você jamais viu dentro dos gramados, no vestiário ou nos dispositivos da era analógica. O grand finale é um tributo não somente à divindade da bola humanizada em carne e osso, mas à sétima arte.
Daí a resposta desta matéria à pergunta de Morais Moreira: “E agora como é que eu fico, nas tardes de domingo, sem Zico, no Maracanã?”. Sente-se na arquibancada, ou melhor, na poltrona do cinema, a partir de 30 de abril, leva a pipoca e mata a saudade do Galinho.
Cinco perguntas para...
Zico, o Galinho de Quintino, ao Correio
Você é um craque da era analógica, que soube guardar relíquias para entregar uma cinebiografia na era digital. Qual conselho você daria a caras como Cristiano Ronaldo e Messi, prestes a atingir a marca de mil gols, e ao próprio Neymar no sentido de preservar o que têm de mais precioso para produzir um produto como Zico, o Samurai de Quintino?
Zico — Hoje, tanto o Cristiano Ronaldo como o Messi são exemplos. Eu, hoje, se estou começando no futebol, eu ia me mirar nesse tipo de profissionais do futebol. Tenho o desejo ainda de conhecer o Cristiano Ronaldo, apertar a mão dele e dizer: "obrigado pelo que você faz pelo futebol e o jogador de futebol. Só isso. Não preciso dizer mais nada, tá bom. Quando eu pensei em gravar, foi justamente para mostrar o que era o profissionalismo dentro do campo para os japoneses. Era fazer uma fita somente para eles. Uma delas mostra as furadas que eu dou, os erros, gols que eu perco. Não era esses DVD's que mandam para o clubes. Tinha canelada também. Para contar uma história.
O Zico família, o gênio da vida, é o diferencial do documentário?
Zico — Cristiano Ronaldo e o Messi têm tudo aí (na era digital). Questões familiares são bacana. É uma história que enrique. O amor que eu tenho pela Sandra, a criação dos meus filhos, a chegada dos netos, aí, sim, toca o coração.
Você assistiu ao pré-lançamento com a gente. Qual são as cenas que mais o emocionam?
Zico — Quanto toca as coisas familiares, o problema da minha contusão no joelho. E no final também, que a gente vê toda a história construída, toda a família que foi montada nas Bodas de Ouro (de casamento).
Passou pela sua cabeça em algum momento ser dono de um time que foi campeão de futebol profissional invicto no Distrito Federal em 2002?
Zico — Eu, quando monto um time, sempre penso em ser campeão, porque sou otimista por natureza e trabalho para isso. Trabalho sempre para fazer o melhor. Agora, é lógico, que quanto você o time, vê o campeonato, começou aí tu já sabe que pode chegar lá.
Por que os súditos não podem deixar de ir ao cinema a partir de 30 de abril?
Zico — Ele mais uma vez vai ver aquilo que eu fiz em benefício da profissão que escolhi.
Ficha técnica
Zico, o Samurai de Quintino*
Direção: João Wainer
Produção: André Wainer, Bruno Tinoco, Gabriel Wainer, Luiz Porto, Pedro Curi
Produtores Associados: Bruno Wainer, Raul Schmidt, Nathalie Felippe
Produção executiva: André Wainer, Camila Villas Boas, Luiz Porto
Diretor de Arte: Claudio Amaral Peixoto
Roteiro: Thiago Iacocca
Montagem: André Felipe Silva e João Wainer
Nos cinemas a partir de: 30/4/2026
*Vudoo Filmes, Guará Entretenimento, Globo Filmes, SporTV, Pontos de Fuga, Investimage, Downtown Filmes, RioFilme, Flamengo, Sicoob, Tim, Austral/Re
*Colaboraram na produção, filmagens e edição de vídeo: Cássia André, Gabriel Botelho e Victor Parrini
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