
Com a morte da lenda Oscar Schmidt, aos 68 anos, na tarde desta sexta-feira (17/4), o silêncio que desceu sobre as quadras do Clube Vizinhança, na 108 Asa Sul, não é de ausência, mas, sim, de reverência. Antes de se tornar o "Mão Santa" e desafiar a lógica do mundo do basquete, Schmidt foi o menino que descobriu a geometria da cesta sob o céu de Brasília. Ao partir, ele deixa para as futuras gerações de atletas locais muito mais do que recordações de pontos impossíveis. Ele deixa o mapa da persistência, provando que o concreto de um clube de bairro pode servir de plataforma de lançamento para a eternidade.
“Hoje, o nosso Vizi está em silêncio. Com o coração profundamente entristecido, nos despedimos de Oscar Schmidt, um nome que transcende o esporte, um ídolo que marcou gerações e que tem suas raízes também em nossas quadras. Foi aqui que vieram os primeiros arremessos. Os primeiros sonhos. Os primeiros sinais de uma grandeza que o mundo inteiro viria a conhecer. É uma despedida que entristece. Mas também emociona lembrar que o Vizinhança fez parte do início de uma história tão grandiosa, construída com talento, disciplina, paixão e amor pelo basquete. Hoje, o clube se cala em respeito. Chora em gratidão. E se orgulha, para sempre, por ter sido parte dessa trajetória. Seu legado permanece vivo, em cada jovem que sonha, em cada bola que quica, em cada coração que acredita no esporte como caminho. Obrigado por tanto, Oscar. Você é eterno para nós”, agradeceu a assessoria do clube em nota.
Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Oscar veio morar em Brasília aos 13 anos de idade, em 1971. No início de sua trajetória na cidade, o atleta começou a jogar no colégio Salesiano e, depois, a partir de um convite do professor Zezão, Schmidt passou a treinar no Clube Vizinhança. Lá, o grande mestre do ex-atleta da seleção brasileira foi Laurindo Miura, falecido em 2021. O atual técnico do time de basquete do Vizinhança, Márcio Humberto, de 50 anos, conta que o treinador foi o responsável por melhorar o arremesso do ídolo brasileiro.
“A história que eu tenho dele é com o professor Miura, que foi outro técnico muito importante na vida do Oscar. Ele fez todas as correções do Oscar, como arremessar, pois o Oscar arremessava com a mão mais baixa. O professor Miura falou para ele: 'Comece certo que você vai acertar muitas'. Até tirarem o recorde dele, recentemente, Oscar foi o maior cestinha do mundo. O professor Miura também já nos deixou e a gente acredita que eles estão se encontrando agora, pois foi uma parceria muito grande na formação do Oscar”, comentou Marcos.
Ao cruzar as catracas do Clube Vizinhança, o olhar é inevitavelmente capturado pela camisa 14 exposta no memorial de conquistas. Com o número aposentado para a eternidade, o manto de Oscar Schmidt deixou de ser um simples uniforme e se tornou o DNA do basquete candango, além de um marco sagrado na história de Brasília.
“A história dele já está escrita, está feita e a gente vai continuar falando para os meninos, contando a história dele, a importância dele para o Clube Vizinhança, para Brasília e para o mundo. Fico até meio emocionado porque ele é um nome muito grande aqui dentro, alguém que realmente fez muito pelo basquete brasileiro e mundial. Hoje, a camisa 14 é aposentada aqui dentro”, disse o técnico Marcos.
Em seus anos na capital, não demorou para o atleta se destacar. Um de seus parceiros no Vizinhança foi Ronaldo Pacheco, de 68 anos. Ele conta que Oscar, desde novo, mostrava ser um atleta determinado e focado a atingir grandes feitos.
“Eu faltava alguns dias de treino, mas o Oscar não faltava nunca. No domingo, o clube abria às 8h30, e antes de abrir os vigias já ouviam o barulho de bola na quadra. Era o Oscar, que tinha pulado a cerca para bater bola antes de o clube abrir. Então, ele sempre foi um cara muito determinado, focado e se entregou inteiramente ao esporte que ele amava, o basquete. Por isso, chegou aonde chegou e merece todo o reconhecimento e todas as homenagens”, afirmou Ronaldo.
Nas quadras do clube, Oscar jogou desde o infantil. Contudo, ao jogar os Jogos Escolares Brasileiros (JEB's) o atleta se destacou e foi chamado para jogar no Palmeiras, em São Paulo. “A gente jogou junto no infantil do Vizinhança e no infanto-juvenil. Depois, ele jogou os Jogos Escolares Brasileiros e aí foi chamado para ir para São Paulo, para o Palmeiras. Mas no Vizinhança tem histórias espetaculares dele. A gente ia para o colégio de manhã e o Miura, que era técnico, estudava na UnB, de onde saía para dar treino. Mas o Oscar sempre queria treinar além do horário, que era no fim da tarde”, lembrou Ronaldo Pacheco.
Apesar de sua saída da cidade, aos 16 anos, em 1974, o atleta nunca deixou de mostrar sua gratidão à capital. No momento em que Oscar recebeu seu nome no Hall da Fama na NBA, ele disse que um japonês o ensinou a jogar basquete, se referindo a Miura, seu treinador no Vizinhança. Ricardo Oliveira, ex-técnico da seleção brasileira sub-15 e ex-atleta do Vizinhança, disse que cresceu ouvindo histórias de Óscar.
“No Hall da Fama da NBA Oscar inclusive citou o Laurindo Miura, que foi o cara que fez ele arremessar daquele jeito. Eu cresci ouvindo histórias do Oscar. Depois, fui amigo pessoal do tio dele, que era técnico de basquete, seu Alonso Bezerra, e conheci muito a família. Eu assisti ao jogo da final do Pan Americano de 1987 na casa da dona Janira (mãe de Oscar). Foi um dos momentos mais importantes da minha relação com o Oscar, mesmo a distância”, contou Ricardo.
Após a partida de Oscar, restam as memórias eternas de um ídolo. Márcio Umberto, atual técnico do Vizinhança, afirma que manterá vivo o legado de Schmidt entre seus atletas, para que encontrem inspiração no maior exemplo do basquete brasileiro. “A gente vai seguir passando os ideais dele para os meninos. Quando ele fala que você deve treinar, treinar, treinar — cansar — treinar, treinar, treinar — cansar de novo — treinar, treinar, treinar. E é isso: como ele disse, não existe 'mão santa', existe 'mão de treinamento'. A gente tem muito orgulho disso e é isso que a gente traz para inspirar as crianças aqui dentro do Vizinhança”, disse Márcio.
*Estagiário sob a supervisão de Eduardo Pinho
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