Seleção Brasileira

A fé e a ciência que movem Estêvão pela cura para jogar 1ª Copa da vida

Da bênção do pai-pastor no aniversário de 19 anos à corrente de oração da família: mobilização religiosa pelo goleador da era Ancelotti se intensifica. Médicos veem chance com tratamento convencional

Estêvao é o artilheiro da Seleção Brasileira com cinco gols desde que Carlo Ancelotti assumiu o cargo em junho do ano passado -  (crédito: RAFAEL RIBEIRO/CBF)
Estêvao é o artilheiro da Seleção Brasileira com cinco gols desde que Carlo Ancelotti assumiu o cargo em junho do ano passado - (crédito: RAFAEL RIBEIRO/CBF)

Estêvão Willian Almeida de Oliveira Gonçalves fez 19 anos ontem. Há uma tradição na família. A oração do pai, Ivo Gonçalves, pastor da Igreja Visão do Evangelho, em Franca (SP), antes do parabéns foi do pai. A bênção paterna é mais fervorosa dessa vez. O craque revelado pelo Palmeiras, vendido ao Chelsea por 45 milhões de euros no ano passado e autor de oito gols e três assistências na primeira temporada no clube londrino, pediu um presente maior antes de soprar as velinhas: o milagre de disputar a primeira Copa do Mundo de seleções na carreira.

Exames apontaram que o brasileiro tem um problema muscular avaliado em "grau 4". O tempo é curto. A convocação final do técnico Carlo Ancelotti está marcada para 18 de maio. O Brasil estreia no Grupo C da Copa do Mundo em 13 de junho contra Marrocos no MetLife Stadium, em New Jersey. Milagres não são novidade para a família religiosa. Baterista de canções evangélicas nas horas vagas, ele precisará entoar cada letra com a fé que move montanhas — um dos sermões prediletos de Ivo Gonçalves desde os tempos de cultos domésticos.

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O elo com as origens é forte e capaz de fortalecer Estêvão no momento mais difícil da carreira. "Nunca esqueço de onde eu vim, da cidade de Franca, onde estão os meus familiares orando por mim. É isso que tiro de lição de ter um pai pastor que sempre está comigo, ajudando a me blindar dos males do mundo", disse Estêvão em entrevista ao Correio Braziliense no fim da temporada de 2024, em São Paulo, depois de se tornar o mais jovem a receber a Bola de Ouro como melhor jogador daquela edição do Brasileirão.

""Nunca esqueço de onde eu vim, da cidade de Franca, onde estão os meus familiares orando por mim. É isso que tiro de lição de ter um pai pastor que sempre está comigo, ajudando a me blindar dos males do mundo"" Estêvão, atacante, ao Correio, em 2024

Estêvão é homem de muita fé também na ciência. Médico principal da Seleção em quatro edições de Copa do Mundo, José Luiz Runco vê tempo para deixá-lo em condição de disputar o torneio no Canadá, nos Estados Unidos e no México, mas é ponderado. "Nós não sabemos na verdade o que aconteceu em relação à lesão muscular. Se houver chance de tratamento conservador melhora. Acho que esse será o grande ponto a ser discutido", analisou em entrevista ao Correio Braziliense, com a experiência de quem esteve com o Brasil nas edições de 2002, na conquista do penta com Luiz Felipe Scolari, a 2014.

Puxando pela memória, Runco diz que jamais viveu um caso de lesão muscular da gravidade de Estêvão. "Tivemos casos de lesões musculares de menor complexidade, além de lesões no joelho como foi o caso do Rivaldo", afirma, referindo-se ao período anterior à Copa de 2002 na Coreia do Sul e no Japão. Tratamento conservador significa na prática sem cirurgia.

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Os números de Estêvão sob o comando de Carlo Ancelotti fortalecem a possibilidade de o italiano esticar a corda ao limite para contar com o xodó. O atacante é o artilheiro na gestão do treinador com cinco gols. Lidera também nas participações em gols, nas finalizações e nos cruzamentos certos. Assumiu a responsabilidade e converteu pênalti sendo o mais jovem entre os titulares contra a Tunísia.

" Nós não sabemos na verdade o que aconteceu em relação à lesão muscular. Se houver chance de tratamento conservador melhora. Acho que esse será o grande ponto a ser discutido" José Luiz Runco, médico da Seleção em quatro Copas do Mundo

A esperança da Seleção na recuperação relâmpago contrasta com o discurso de aceitação do técnico do Chelsea. "O Estêvão, infelizmente, não jogará mais na temporada. Ele ficará afastado por algum tempo. É realmente uma pena, especialmente para um jogador tão jovem e talentoso. Estamos aqui para apoiá-lo", afirmou o técnico interino Calum McFarlane.

O treinador evita criar expectativa sobre o aproveitamento do craque na Copa. "Não tenho certeza. Só sei que ele não estará disponível para nós (Chelsea). Tenho certeza de que ele está esperançoso de que pode ir à Copa do Mundo, mas eu não sei dizer", resignou-se.

O Chelsea trata a situação com cautela. Nos primeiros contatos com o jogador, o clube aceitou a opção por não submeter Estêvão a uma cirurgia a 47 dias da Copa. A preferência do atacante é pelo tratamento a toque de caixa no departamento médico do Palmeiras, em São Paulo. O clube resiste em liberá-lo de volta ao Brasil.

Quatro perguntas para...

Vinicius Souza, fisioterapeuta esportivo especialista pela Sociedade Nacional da Fisioterapia Esportiva e da Atividade física (Sonafe Brasil)

Por que estamos testemunhando essa quantidade de lesões a menos de 50 dias da Copa?
Não é fruto do acaso, mas sim do impacto severo da carga crônica acumulada. Estamos falando de atletas que vêm de uma sequência exaustiva. O impacto do calendário da Copa do Mundo de Clubes e a densidade das ligas continentais reduziram o período de transição e recuperação ao mínimo. O corpo humano tem um limite de tolerância biológica e, quando o volume de jogos impede a restauração dos tecidos, o atleta entra em um estado de fadiga residual. Somado a isso, o histórico prévio de lesões é um fator determinante: um tecido já cicatrizado é uma zona de menor complacência e maior risco sob estresse.

Algumas lesões são muito parecidas, como as do músculo bíceps femoral. É coincidência ou essa região é a mais sobrecarregada na maratona de jogos?
A lesão do bíceps femoral se consolidou como a mais comum na elite mundial. Esse músculo é o protagonista nas ações de explosão e, crucialmente, nas desacelerações bruscas. Como o futebol moderno exige sprints repetidos em curtíssimos intervalos, essa região vive sob sobrecarga constante e acaba pagando a conta do cansaço neuromuscular.

Contusões como as de Estêvão e Lamine Yamal são os grandes desafios da medicina nessa contagem regressiva para o Mundial?
O desafio é o processo de maturação. Existe um descompasso biológico: os tecidos ósseos e tendíneos deles ainda estão se consolidando, enquanto a demanda competitiva já é de veterano. É um equilíbrio delicado entre a performance imediata e a preservação da carreira. Diferentemente do caso de Franco Baresi em 1994, que voltou após pouco mais de 20 dias de uma cirurgia de menisco (meniscectomia), as lesões musculares atuais exigem um tempo fisiológico de cicatrização no qual a biologia não permite pular etapas.

Ainda há tempo para recuperar esses atletas para a Copa do Mundo?
Para a maioria das lesões, sim. E aqui temos dois grandes polos: o Catar, que oferece um ecossistema de alta performance com centros como o Aspetar, integrando terapias regenerativas e monitoramento por Inteligência Artificial para dar precisão matemática ao retorno do atleta; e, com grande relevância, o Brasil. Muitos atletas de alto nível hoje optam por retornar ao Brasil para o tratamento, porque somos referência mundial em fisioterapia esportiva. A nossa escola de reabilitação une a tecnologia à expertise clínica de forma única.

 


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MP
postado em 25/04/2026 00:01 / atualizado em 26/04/2026 01:54
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