PARALÍMPICOS

Fábrica de medalhas, CT Paralímpico Brasileiro completa uma década

Complexo inaugurado em 23 de maio de 2016 impulsionou o país ao inédito top 5 em Paris-2024, consolidou cultura de excelência e registrou 67 recordes mundiais

O que os olhos não veem ajuda a explicar o que o coração do brasileiro sente quando o assunto é esporte paralímpico. O orgulho despertado pelo inédito top 5 nos Jogos de Paris-2024, com 89 medalhas, e pela consolidação de alguns dos melhores atletas do mundo em diferentes modalidades, começou a ser construído tijolo por tijolo muito antes das disputas mais nobres do calendário. Prestes a completar uma década, em 23 de maio, o Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro deixou de ser apenas um legado da Rio-2016 para se transformar na grande fábrica de medalhas do país.

Antes da inauguração do CT, a realidade de muitos paratletas brasileiros passava por estruturas improvisadas, treinos fragmentados e falta de acessibilidade. Campeão paralímpico e mundial no lançamento de disco, Claudiney Batista dos Santos, o Ney, precisou, durante anos, adaptar a rotina em instalações espalhadas e negociar espaços de treinamento.

"A principal limitação antes da criação do Centro Paralímpico era a falta de um espaço integrado e preparado para atletas com deficiência. Os treinamentos aconteciam em locais separados, muitas vezes sem acessibilidade, equipe multidisciplinar fixa e equipamentos específicos para o alto rendimento", relembra.

O impacto da transformação foi notório para Claudiney no primeiro contato com o complexo na capital paulista. "A primeira vez que entrei no CT foi antes dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, e foi emocionante perceber tudo que estava sendo colocado à disposição dos atletas. Naquele momento, ficou claro que o esporte paralímpico brasileiro começava a caminhar para outro patamar", observou.

William Lucas/CPB - Pista de atletismo, quadras de tênis, campo de futebol e muito mais: CT Paralímpico Brasileiro em São Paulo consolida o Brasil como potência

O Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro ocupa área de 95 mil metros quadrados construídos na Zona Sul de São Paulo e reúne estrutura para 20 modalidades. Levantado ao custo de R$ 264 milhões, o complexo conta com pista indoor de atletismo, centro aquático, ginásios adaptados, hotel para atletas e departamentos integrados de fisioterapia, biomecânica, nutrição, psicologia e medicina esportiva. Além de servir como base permanente das seleções brasileiras, o CT recebe milhares de atletas mensalmente e se transformou em palco frequente de competições nacionais e internacionais do calendário paralímpico.

A fábrica começou a entregar resultado rapidamente. Nos Jogos Rio-2016, o Brasil subiu ao pódio 72 vezes e estabeleceu melhor campanha. Cinco anos depois, em Tóquio, repetiu o total, mas com mais ouros (22 x 14). O recorde seria quebrado em Paris-2024. O país alcançou o inédito top 5 com 89 pódios, incluindo 25 ouros. Provas de que o CT impulsionou o crescimento esportivo. 

Mais do que centralizar estrutura e treinamento, o complexo ajudou a criar a cultura de excelência no esporte paralímpico brasileiro. Crianças e jovens promessas passaram a dividir diariamente os mesmos espaços com campeões mundiais e medalhistas paralímpicos, convivência vista internamente como uma das bases do crescimento esportivo recente.

"A criança começa aqui convivendo com campeões, entendendo a mentalidade deles e percebendo o que precisa fazer para chegar lá. Isso cria pertencimento e mantém viva a cultura vencedora desde o início da carreira", afirma o vice-presidente do CPB, Yohansson Nascimento, dono de seis medalhas paralímpicas do atletismo. 

A nadadora Esthefany Rodrigues, de 27 anos, é uma das atletas moldadas nesse ambiente. Medalhista paralímpica e integrante da nova geração do esporte nacional, a paulistana destaca como a convivência diária com referências mundiais acelerou o amadurecimento dentro e fora das piscinas.

"Treinar no CT sempre foi um sonho, principalmente pela possibilidade de conviver diariamente com atletas de altíssimo nível. Quando comecei a perceber minha evolução nos treinamentos, entendi que os resultados poderiam chegar, mas que isso exigiria preparação e condicionamento em outro patamar. É justamente isso que a equipe multidisciplinar do CT oferece todos os dias", destaca.

Esthefany também exalta o impacto da estrutura brasileira em comparação com outros centros esportivos ao redor do mundo. "Conheci centros de treinamento em muitos países e poucos se aproximam do que existe no Brasil. O nosso CT reúne estrutura de excelência em todas as áreas. É uma estrutura pensada para tudo que um atleta de alto rendimento precisa", atesta. 

Mantido pelo CPB desde 2017, após vencer concorrência pública do governo estadual, o Centro Paralímpico opera com custo anual estimado em R$ 30 milhões. Em 2024, o Comitê Paralímpico Brasileiro e o governo de São Paulo renovaram o acordo de cooperação para gestão do espaço por mais 35 anos, movimento que garantiu longevidade ao principal centro de excelência paralímpica do país.

Sessenta e sete recordes mundiais foram batidos nas piscinas, nas pistas e nos campos do CT. Em 31 de março de 2022, o paraibano Petrúcio Ferreira se consolidou como o paralímpico mais rápido do mundo ao completar os 100m da classe T47 (comprometimento dos membros superiores) em 10s29. No dia seguinte, estabeleceu mais uma marca, nos 200m, em 20s83.

Uma década depois da inauguração, o CT Paralímpico escapou do destino comum de boa parte dos legados esportivos brasileiros: o abandono. Transformou-se em referência internacional, consolidou cultura vencedora e ajudou a colocar o país entre as principais potências paralímpicas.

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