
Escrevo ainda sob o impacto das vitórias do jovem tenista brasileiro em Roland Garros. João Fonseca venceu ninguém menos que Novak Djokovic, o maior vencedor de grand slams do tênis. Com o feito, o atleta de 19 anos colocou seu nome na história do esporte, independentemente do que ocorra daqui para a frente. Mas, depois disso, as expectativas aumentaram e o futuro é promissor.
João enfrentou um Djokovic perto dos 40 anos de idade, o que certamente contribuiu para a vitória, mas não há como negar sua hegemonia, fruto de consistência inigualável. Quando a classe do suíço Roger Federer e a resiliência do espanhol Rafael Nadal pareciam não encontrar barreiras, ele surgiu e mudou tudo. Em quadra rápida, no saibro ou na grama, mostrou que a disciplina — e uma boa dose de talento — entregam resultados.
Tudo isso para ajudar a mostrar a dimensão da vitória de João Fonseca na última sexta-feira. Há muito tempo uma partida de qualquer esporte não me deixava paralisada. Ali o brasileiro encarou o jogo mais longo de sua vida: quatro horas e cinquenta e três minutos.
Os primeiros três sets passaram despercebidos. Foi só a partir do quarto que o alerta acendeu. Tinha algo de diferente acontecendo. No quinto set, cada game era um sofrimento, uma torcida engasgada há anos. Mais precisamente 16 anos — a última vez havia sido em 2010, com Thomaz Bellucci, que seria eliminado no jogo seguinte por ninguém menos que Rafael Nadal.
Confesso que as partidas entre Nadal e Federer chegaram a despertar um sentimento de rivalidade mais acentuado e aquela vontade de formar torcida. Mas nada se comparava à paixão que emergia da quadra e se transformava diante da tela da tevê quando Gustavo Kuerten jogava. Naquele tempo, não tinha atacante, time de futebol ou ala que superasse minha torcida pelo manezinho da ilha.
Tive o privilégio, inclusive, de assisti-lo jogar uma Copa Davis em sua terra natal, Florianópolis, em 2001. Lá ele encarou um dos maiores rivais da carreira, o australiano Lleyton Hewitt. Mesmo diante da torcida em polvorosa — e digo isso com propriedade — Guga perdeu o jogo.
Ouso dizer que nunca haverá outro como ele, pelo menos não para esta humilde torcedora. Guga é um dos raros casos em que o talento encontra uma pessoa verdadeiramente iluminada, de coração imenso e alma que transborda alegria. Vê-lo, ontem, na arena de Roland Garros, assistindo a um outro brasileiro jogar no mesmo nível em que ele jogou um dia, traz de volta esses tempos de felicidade genuína e inexplicável. Que João siga os passos do mestre!

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