COPA DO MUNDO

Famiglia Ancelotti: o técnico que venceu tudo e ainda persegue a Copa

A 11 dias da estreia da Seleção Brasileira no Mundial, abrimos a série especial explicando por que o "eu sou italiano" dito ao Correio ajuda a entender os planos do treinador para a busca pelo hexa

A história registra feitos enormes de italianos no Brasil. Giuseppe e Anita Garibaldi militaram na Revolução Farroupilha. Os Matarazzo construíram império industrial em São Paulo. Filhos de imigrantes, Candido Portinari nas artes plásticas e Adoniran Barbosa na música ajudaram a desenvolver a cultura. Carlo Ancelotti pode entrar para o almanaque se levar o país ao hexacampeonato na Copa do Mundo de 2026, no Canadá, no México e nos Estados Unidos, no papel de chefe de família — ou melhor, famiglia.

De hoje até o próximo dia 13, data da estreia da Seleção contra Marrocos na 23ª edição da Copa, às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, em New Jersey, o Correio Braziliense apresenta o artista plástico e as 26 esculturas do responsável pela paleta da aquarela do Brasil em busca da sexta estrela na América do Norte.

Afinal, um dos sobrenomes do primeiro treinador importado do Brasil em Mundial é Michelangelo. Coincidentemente, Carletto curte obra de arte com a bola nos pés e as mãos na prancheta. Na pele de técnico, ostenta o recorde de títulos da Champions League: dois com o Milan e três no Real Madrid. Uma pintura mais linda que a outra.

O pentacampeão europeu também esfrega na cara da sociedade brasileira conquistas nas cinco principais ligas do Velho Mundo: Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano. Sorte do Bayern de Munique, do Real Madrid, do Paris Saint-Germain, do Chelsea e do Milan.

Ancelotti sabe lidar com o caos da CBF neste ciclo iniciado pela gestão de quem sempre quis contratá-lo — o ex-presidente Ednaldo Rodrigues — e o artífice da renovação até 2030, Samir Xaud, porque teve como patrões poderosos chefões do naipe de Silvio Berlusconi, Roman Abramovich, Samir Al-Khelaifi e Florentino Pérez, para citar alguns. Compôs com todos eles. Não seria diferente no Brasil.

Ancelotti saiu da zona de conforto. Está conhecendo a vida como ela é no Brasil e na América do Sul. Encarou a altitude de mais de 4 mil metros em El Alto, na Bolívia. Ambientes bem mais hostis do que os visitados por ele na Itália e fora dela. Há um diferencial: a capacidade de adaptação do treinador às diferentes culturas. Não é para qualquer um empilhar troféus em cinco escolas distintas na Europa.

Em 1994, nem o melhor dos profetas cravaria Carlo Ancelotti, auxiliar do mestre Arrigo Sacchi na campanha do vice da Itália contra o Brasil, dono da prancheta justamente da Seleção que arruinou a Squadra Azzurra, coincidentemente, em uma final nos EUA. Por sinal, aquele trabalho começou em New Jersey, o QG do Brasil, a partir de hoje, até a estreia.

Carlo Ancelotti é a prova de que a paciência do torcedor com técnicos brasileiros e com Neymar na Seleção estava esgotada. A atração é a estreia do italiano de 66 anos como técnico em uma Copa. Jamais uma seleção ganhou o torneio sob a batuta de um treinador importado. A Holanda quase conseguiu em 1978. O austríaco Ernst Happel amargou o vice em meio à ditadura militar na campeã Argentina. Portanto, Carletto pode se tornar o primeiro — e único.

Graças ao Carletto, a Seleção voltou a ser assunto entre quem ama — e odiava — a surrada Amarelinha até pouco tempo. A única camisa com cinco estrelas da Copa do Mundo não conseguirá unanimidade, mas certamente atrairá a maior parte da população à tela de algum dispositivo para dar uma espiadinha no que ele será capaz de fazer, mas avisou no dia da convocação. "Não sou mago, sou um trabalhador que faz isso há muito tempo."

A quem deseja comida, diversão e arte na Copa, Carlo Ancelotti tem uma resposta na ponta da língua, dada ao Correio no dia da classificação para a Copa do Mundo contra o Paraguai, na Neo Química Arena, em São Paulo. "Eu sou italiano." Embora a seleção alterne o 4-4-2, 4-2-4, 4-3-3 e o 3-2-5, ele jamais abrirá mão das raízes de uma escola fundamentada na força do sistema defensivo, capaz de carregar o piano para artistas como Vinicius Junior, Raphinha e Neymar decidirem jogos.

Assim, Carlos Alberto Parreira encerrou 24 anos de abstinência em 1994 nos EUA. Assim, Ancelotti tentará também em 2026 para curar uma outra ferida: a de ter ficado fora da Copa de 1982, na qual seria campeão como jogador, e da discrição nas edições de 1986 e 1990.

O boleiro

Carlo Ancelotti conheceu a Copa do Mundo muito antes de sonhar em comandar uma seleção. Meio-campista elegante, dono de passe refinado e inteligência tática acima da média, iniciou a carreira profissional na Parma antes de ganhar projeção nacional com a camisa da Roma. O clube da capital lhe deu os primeiros títulos. A sala de troféus foi inaugurada na temporada 1979/1980 com a primeira de quatro Copas da Itália conquistadas, todas vestindo a armadura romana. O caneco do Campeonato Italiano viria em 1983.

Os 1,79m de puro talento do meia chamaram a atenção de Arrigo Sacchi, o revolucionário treinador que transformaria o Milan em uma das equipes mais influentes e vitoriosas da história do futebol. A mudança para o norte do país, em 1987, colocou Ancelotti ao lado de lendas como Franco Baresi, Paolo Maldini, Ruud Gullit, Marco van Basten e Frank Rijkaard. Juntos, ajudaram a redefinir conceitos de marcação, ocupação de espaços e intensidade em uma era que mudou os rumos do jogo.

Os títulos da Copa dos Campeões da Europa em 1989 e 1990 não foram obra do acaso. Tampouco os dois scudettos conquistados pelo Milan em 1988 e 1992. A coleção inclui ainda duas Supercopas da Europa e o Mundial Interclubes de 1989. As taças estreitaram a relação com Sacchi, o principal influenciador do Ancelotti que o mundo conheceria décadas depois à beira do gramado.

Se os clubes lhe renderam glórias, a seleção italiana deixou cicatrizes. Uma lesão no joelho impediu Ancelotti de participar da campanha do título mundial de 1982, na Espanha. Quatro anos depois, viveu algo semelhante ao que Neymar tenta evitar atualmente. Convocado por Enzo Bearzot para a defesa do título no México, passou o torneio limitado pelos problemas físicos e não entrou em campo na campanha encerrada nas oitavas de final diante da França de Michel Platini.

O terceiro desejo de Copa foi realizado em casa, na edição de 1990. Ancelotti disputou apenas três partidas e assistiu do banco de reservas à eliminação da Itália nos pênaltis para a Argentina de Diego Maradona na semifinal. O ponto mais alto da trajetória como jogador em Mundiais foi o terceiro lugar da Azzurra naquele torneio.

Talvez por isso exista um componente pessoal na missão de 2026. Dono de praticamente todos os títulos possíveis como treinador, Ancelotti desembarca nos Estados Unidos, no México e no Canadá para perseguir justamente a taça que escapou dele como jogador.

Mais Lidas