
Nova York — Rua 42 com a 7ª Avenida. Trigésimo nono andar de um hotel localizado em um arranha-céu próximo da Times Square na cidade que nunca dorme. Diante de uma vista encantadora de Manhattan, um senhor amazonense de 78 anos radicado em Brasília desde 1963, quando desembarcou aos 15, articula o adeus a uma relíquia. Pioneiro da capital, Lincoln Lucena esteve no último jogo de Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, no Giants Stadium, atual MetLife, palco do empate do Brasil com Marrocos por 1 x 1, da eliminação contra a Noruega por 2 x 1 nas oitavas e da final da Copa do Mundo no próximo 19 de julho.
Antes da entrevista ao Correio, Lincoln se emociona: "Sentem-se aí, vou fazer uma apresentação", anuncia, em um momento Broadway no início da noite nublada. Ele caminha até um estojo tratado com o zelo de um colecionador, retira o ingresso da partida de 1º de outubro de 1977 na qual Pelé defendeu o New York Cosmos no primeiro tempo e o Santos na etapa final, diante de 75.646 súditos, e dá início ao tocante teatro: "Está aqui o ingresso que ele autografou para mim: 'Ao amigo Lucena, do amigo Pelé", anuncia. Em cima da bancada também estão medalhas comemorativos do tricampeonato mundial do eterno camisa 10 em 1958, 1962.
Lincoln entrou no modo desapego. Não foi a Nova York interessado nos jogos do Brasil. Viu quatro título do Brasil na era analógica, um no início da revolução digital e estava descrente com o hexa em tempos de inteligência artificial. A jogada ensaiada dele com sapatos de andarilho pelo coração da Big Apple teve como endereço a Madison Avenue. Lá fica a badalada Sotheby's, uma das casas de leilão mais badaladas do mundo. Quase meio século depois do jogo, ele decidiu abrir negociação para a venda do tíquete histórico.
"Tem uma equipe que faz a precificação dos itens que são do interesse deles. Eu fotografei o que tinha lá de Pelé e não vi esse ingresso. Só tem um da final da Copa de 1958. Eles disseram que o bilhete interessa, mas eles não teriam condição de fazer o leilão. Indicaram duas empresas e combinaram que terão participação", compartilha Lincoln. O negócio tem cláusula de confidenciabilidade em proteção aos dois lados. Nada além disso pode ser dito.
Convicto da decisão, Lincoln justifica o desapego. "Estou com o ingresso há quase 50 anos. Estou no fim da vida, com 78 anos. Estou bem, graças a Deus, mas não seria importante fazer esse registro histórico? Deixá-lo como legado, uma lembrança. Quem quiser que compre e pague por isso o valor que seja. Não vejo mais sentido ficar com ele. Passei 49 anos, poderia passar mais um, 50, mas acho que isso não pertence mais a mim, mas à história do futebol brasileiro. Isso deveria estar na CBF, em um quadro lá, guardado", diz.
História
Em 1977, Lincoln Lucena assessorava o ministro da Fazenda do governo Ernesto Geisel, o vascaíno Mario Henrique Simonsen. "Nós viemos a Washinton para a reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI). Houve, inclusive, um discurso do presidente Jimmy Carter. Eu fiquei sabendo que o Pelé viria até aqui jogar essa partida", recorda o aposentado.
Era uma quinta-feira. Lincoln dirigiu-se ao ministro e questionou se ele sabia que o Pelé se despediria do futebol no sábado daquele fim de semana no Giants Stadium. Simonsen considerou uma boa ideia assistir ao jogo e a comitiva se deslocou de avião até Nova York. "Na véspera da partida, assistimos a um show do músico Sergio Mendes no Carnegie Hall em homenagem ao Pelé. No mesmo dia, ele estava fazendo um show no estádio e fui com ele assistir ao jogo. Eu estava credenciado especialmente para ir ao campo", recorda.
Lincoln testemunhou dentro das quatro linhas o beijo de Pelé no pugilista Muhammad Ali, o marcante discurso "love", a idolatria, e conseguiu acessar o vestiário do Giants Stadium. "Para minha felicidade, ele ainda estava lá se enxugando. Eu disse: 'Pelé, eu vim aqui lhe dar um abraço em nome do ministro Mário Henrique Simonsen, que não pôde vir, mas está no estádio assistindo ao jogo", conta.
Diante do Rei, Lincoln fez um pedido: "Queria que você autografasse esse ingresso". Pelé questionou: "Qual é o seu nome?". Depois de ouvir a resposta, o craque pegou a caneta e escreveu: "Ao amigo Lincoln Lucena, do amigo Pelé". Mostrei ao ministro e o Mário Henrique Simonsen vibrou naquele 1º de outubro de 1977: "Que coisa espetacular! Guarda isso".
Guardado está há 49 anos, mas bateu o desapego. Mestre de xadrez, árbitro internacional da modalidade e ex-candidato a presidente da modalidade contra o filipino Florencio Campomanes, com o apoio de Garry Kasparov, ele decidiu dar um xeque-mate na relíquia.
O desapego ao ingresso é diretamente proporcional à Seleção Brasileira. "Eu ouvi pelo rádio a vitória do Pelé em 1958, inclusive com a camisa azul dele, que está sendo leiloada. Em 1962, eu ouvi pelo rádio e vi o videoteipe dois dias depois. Em 1970, era tevê. Eu curto a Seleção vencedora. A de 1994, eu estava aqui nos EUA. Em 2002, eu não estive. Para mim, o futebol, hoje, está muito feio. Mudou completamente. É a minha visão. Eu tenho 78 anos. Acompanho o futebol desde os 10. Antigamente era bonito. Outra época", desabafa.

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