
Entre as críticas, análises e opiniões sobre o desempenho da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026, um debate ganhou força: como o torcedor brasileiro passa do amor ao ódio em questão de minutos, e o que isso custa à saúde mental e à carreira dos atletas.
Endrick, de 19 anos, disputava sua primeira Copa do Mundo. Nos quatro primeiros jogos do Brasil, foi um dos nomes mais comentados pela torcida, que inundava as redes sociais cobrando de Carlo Ancelotti, técnico da Seleção, que o escalasse. Memes ironizavam a resistência do treinador, vídeos exaltando momentos marcantes do atacante viralizavam, e o jovem chegou a ser comparado ao Rei Pelé.
Então veio o jogo da eliminação. Contra a Noruega, Endrick entrou em campo no segundo tempo e teve duas chances claras de gol, uma delas cara a cara com o goleiro norueguês Ørjan Nyland, mas não converteu nenhuma. A falha, no jogo que tirou o Brasil do Mundial, bastou para inverter o tom das redes sociais do jogador: os milhares de comentários de orgulho e incentivo deram lugar a xingamentos e raiva.
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Por que a torcida vira tão rápido
Para a psicóloga esportiva Bárbara Campos, essa oscilação reflete algo mais profundo sobre como lidamos com frustração. "A gente tem o esporte como profissão, mas também como entretenimento e como arte. É comum escutar relatos como: 'Nossa, trabalhei o dia todo, como eu queria ver meu time ganhar', mas o time acaba perdendo e aí você perde, também, aquele ponto de distração", explica.
O avanço das redes sociais amplificou esse efeito. Figuras públicas como artistas, políticos e atletas, recebem o ódio de forma mais rápida e mais constante, o que os deixa cada vez mais vulneráveis. "Isso interfere de forma muito intensa para atletas de alto rendimento: a pressão é muito mais presente e muito mais permanente, então há uma dificuldade maior de desvinculação, porque é só pegar o celular para ver tudo que as pessoas estão falando", destaca Bárbara.
Richarlison e a luta contra a depressão
Endrick não é o primeiro a viver isso. Richarlison, camisa 9 da Seleção em 2022, também foi alvo de críticas massivas nas redes sociais após a eliminação do Brasil naquele Mundial, e chegou a falar abertamente sobre sua depressão. Em entrevista à ESPN em 2024, o jogador desabafou: "Tinha acabado de disputar uma Copa do Mundo, no meu auge, e estava chegando no meu limite mesmo, sabe... De sei lá, não vou falar se matar, mas, tipo, eu estava numa depressão e estava querendo desistir."
Segundo a especialista, parte da preparação mental de atletas de alto rendimento é justamente o gerenciamento do ambiente digital,saber se desvincular do online para preparar a mente, melhorar a performance e controlar sintomas de ansiedade.
Richarlison credita à psicóloga o processo de reencontrar o equilíbrio e voltar a gostar do futebol: "Hoje eu posso falar: procure um psicólogo. Você que está precisando de um psicólogo, procure, porque é legal você se abrir assim, você estar conversando com a pessoa. Hoje a professora veio me agradecer por estar levando isso para o mundo do futebol, para o mundo extracampo também, porque é muito importante e, querendo ou não, salva vidas."
"Uma parte da preparação mental, quando falamos de alto rendimento, é o gerenciamento do ambiente digital. Saber quando expor e quando não expor, mas ainda assim ter a noção de que nada está garantido, já que alguma coisa pode vazar. As fake news, por exemplo, também impactam muito a saúde mental dos jogadores", complementa Bárbara.
Fé em campo: apoio ou desculpa?
Os discursos religiosos dos jogadores brasileiros após a derrota também geraram polêmica nesta Copa. Como a maioria do elenco é cristã, as publicações sobre fé nas redes, no pós-jogo, foram interpretadas por parte dos internautas como uma "desculpa para o fracasso".
Para Bárbara, a religiosidade ocupa um lugar legítimo na vida de qualquer pessoa, o de servir como ponto de apoio e esperança. "Quando a gente fala de religiosidade e espiritualidade, a psicologia enxerga isso como um grande fator de esperança e motivação para lidar com as dificuldades. Quando a gente fala sobre lesão, sobre derrota, pressão constante, a religiosidade é um ponto de apoio", pontua.
Ainda assim, a psicóloga reconhece que a preocupação com a "desculpa da vontade de Deus" faz sentido quando tudo o que acontece no jogo,ou na vida do atleta, é atribuído exclusivamente à fé. "Assim como tudo que perpassa o ser humano, muitas vezes essa religiosidade é usada como desculpa, como uma válvula para transferir as responsabilidades das próprias escolhas e dos próprios erros, que vão acontecer com todo ser humano em processo de aprendizado", explica. "Quando tudo que acontece no jogo é direcionado para a religiosidade, todo o caminho que aquela pessoa percorreu não tem papel nenhum", finaliza.

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