
A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) adotou uma nova política de elegibilidade para a categoria feminina que afeta diretamente a trajetória de Tifanny Abreu, atleta trans que defende o Osasco São Cristóvão Saúde desde 2021. A entidade anunciou a mudança na sexta-feira (14/8), ao aderir aos critérios estabelecidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que restringem a participação na categoria feminina a atletas do sexo biológico feminino.
Tifanny se tornou uma das principais referências entre atletas trans no esporte brasileiro ao disputar competições de vôlei feminino. Agora, com a nova regulamentação da CBV, a jogadora terá de se submeter aos critérios previstos pela entidade para continuar elegível.
A regra estabelece a realização de testagem genética para verificar a presença do gene SRY, associado ao desenvolvimento das características sexuais masculinas, e prevê tratamento específico para determinados casos de diferenças no desenvolvimento sexual (DSD).
Nessas situações, a presença do gene SRY não torna automaticamente a atleta inelegível. A política do COI estabelece que casos individuais podem ser avaliados de acordo com critérios médicos específicos, considerando a condição de desenvolvimento sexual apresentada pela atleta e os demais requisitos previstos pela entidade.
"A CBV passa a seguir - a partir de hoje - os critérios e fundamentos da Política de Proteção da Categoria Feminina do COI - publicada em março deste ano - que limita a elegibilidade nessa categoria exclusivamente às atletas do sexo biológico feminino. Essa verificação é feita por testagem e triagem do gene SRY - tendo como ressalvas apenas condições excepcionais previstas na política da entidade", diz a nota da entidade.
Tifanny critica decisão da CBV
A jogadora reagiu publicamente à mudança e afirmou que a decisão representa uma perda significativa em sua trajetória esportiva. Tifanny também declarou que pretende contestar a medida e continuar defendendo sua permanência no esporte.
Em seu posicionamento, a atleta afirmou que a nova política não interfere somente em sua carreira. Segundo ela, a decisão também atinge o clube que representa, os torcedores, patrocinadores e outras pessoas trans que passaram a enxergar no esporte uma possibilidade de representatividade.
Tifanny disse ainda que pretende recorrer a "todas as medidas possíveis" para defender sua permanência nas quadras e evitar que sua trajetória seja interrompida. Ela classificou a mudança como um "enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e pela inclusão" e afirmou que a CBV está "tirando tudo o que tem".
Osasco manifesta apoio à jogadora
O Osasco São Cristóvão Saúde também se pronunciou sobre a nova política na noite de sexta-feira (14/8). O clube afirmou que não foi consultado antes da elaboração da norma e destacou o impacto da decisão sobre Tifanny, que integra a equipe desde 2021.
"O Osasco São Cristóvão Saúde informa que foi surpreendido hoje com a informação da nova Política de Elegibilidade para a Categoria Feminina, publicada nesta sexta-feira (14), pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). Tal política foi elaborada sem qualquer participação ou opinião prévia do clube. A decisão impacta diretamente a atleta Tifanny Abreu, que veste a camisa do clube desde 2021 e construiu uma trajetória marcante dentro e fora de quadra", disse a equipe.
O clube informou que seu departamento jurídico analisa o conteúdo da regulamentação para definir como irá proceder. A equipe também declarou apoio à jogadora e reafirmou o compromisso com o respeito e a valorização das pessoas ligadas à instituição.
"Diante disso, o clube, junto com seu departamento jurídico, está avaliando a normativa publicada para definição dos próximos passos. O clube reafirma seu integral apoio a Tifanny neste momento e reforça seu compromisso permanente com o respeito e a valorização de todas as pessoas que fazem parte da sua história", encerrou o Osasco.
Atletas saem em defesa de Tiffany
A repercussão da nova política também provocou manifestações de outras jogadoras. Capitã da seleção brasileira feminina de vôlei, Gabi Guimarães publicou neste domingo (16/8) uma mensagem de apoio a Tifanny.
A ponteira afirmou que o debate sobre as regras de elegibilidade não deveria deixar de lado a dimensão humana da situação. Ao se manifestar sobre o caso, Gabi declarou "respeito, carinho e apoio" à jogadora do Osasco e criticou a maneira como a situação vem sendo discutida publicamente.
Ao se manifestar sobre o caso, Gabi declarou "respeito, carinho e apoio" à jogadora do Osasco e criticou a maneira como a situação vem sendo discutida publicamente.
"O mais fácil e cômodo normalmente não é o caminho mais correto. Então hoje quero falar publicamente sobre a minha revolta e meu incômodo com a forma como o caso da Tiffany vem sendo tratado no nosso país", afirmou.
A bicampeã olímpica Sheilla Castro também se posicionou em defesa de Tifanny. A ex-capitã da Seleção Brasileira destacou a importância de considerar a pessoa por trás da atleta e questionou a forma como a discussão vem sendo conduzida.
Sheilla também ressaltou a coragem necessária para se posicionar publicamente diante de um tema que provoca forte repercussão
A jogadora Key Alves aproveitou sua volta às quadras para demonstrar solidariedade a Tifanny. Em uma publicação também feita neste domingo, a atleta declarou apoio à colega e afirmou que pretende permanecer ao lado dela durante a disputa em torno da nova regulamentação da CBV.
"Amiga sempre estarei aqui para te apoiar em tudo, sua luta é nossa, eu te amo. Obrigada por sempre ser essa mulher incrível!", escreveu Key nas redes sociais.

Esportes
Esportes
Esportes