Fim das apostas

Enquanto Brasileirão vive era das bets, Feminino chega à final quase imune

Corinthians e São Paulo jogam decisão em cenário diferente da Série A masculina, com poucas marcas de apostas nos hubs oficiais de exposição ao redor do gramado e maior presença de patrocinadores de outros segmentos. Ruptura ocorreu justamente na edição deste ano

Decisão do ano passado exibiu diversas casas de apostas nos LEDs de publicidade. Em caminho contrário, semifinais de 2026 não tiveram nenhuma marca do tipo -  (crédito: Staff Images Woman/CBF)
Decisão do ano passado exibiu diversas casas de apostas nos LEDs de publicidade. Em caminho contrário, semifinais de 2026 não tiveram nenhuma marca do tipo - (crédito: Staff Images Woman/CBF)

A final do Campeonato Brasileiro Feminino entre Corinthians e São Paulo, neste sábado (26/9), às 16h30, será um dos primeiros grandes palcos do futebol nacional após o governo federal anunciar, nesta sexta-feira (25/9), medidas de restrição total às apostas esportivas e à publicidade do setor no país. Mas, diferentemente do cenário encontrado na Série A masculina, a decisão das mulheres chega ao momento de mudança praticamente sem depender da exposição das bets nos espaços comerciais oficiais da competição.

A diferença pode ser percebida no entorno do gramado. Nas semifinais entre Corinthians x Bahia e São Paulo x Flamengo, as placas de publicidade de LED "antecederam" o movimento e não exibiram marcas de casas de apostas. A única exceção relacionada aos clubes foram as placas fixa do patrocinador do mandante. Apenas o tricolor baiano não tem casa de aposta como master. Durante os 90 minutos, as marcas de Itambé, Hyundai, Sadia, Coca-Cola, Uber, Heatmap, FSports, Amazon, Sicoob e Monange, além da identidade visual da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ganharam destaque.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Também não houve utilização dos tradicionais “tapetes” posicionados próximos aos gols, outro ativo recorrente em transmissões de partidas do futebol masculino e normalmente dominado pelas mais variadas casas de apostas. O cenário reforça uma característica própria da competição feminina deste ano: a comercialização dos ativos do torneio buscou ampliar a presença de marcas de diferentes segmentos, sem a dependência visual das casas de apostas observada em outras propriedades do futebol brasileiro.

A final de 2025 ajuda a dimensionar a diferença. Na decisão entre Corinthians e Cruzeiro, marcas como Start Bet, Esportes da Sorte, Aposta Ganha e Luck.bet estiveram presentes na comunicação comercial do campeonato. A Start Bet, inclusive, entrou como patrocinadora do Brasileirão Feminino na fase decisiva daquela edição — a parceria começou nas quartas de final do torneio —, com presença prevista nas placas de publicidade das partidas.

A diferença para o futebol masculino

O contraste com a Série A do Campeonato Brasileiro é mais evidente nos uniformes e na quantidade de propriedades comerciais ocupadas pelo segmento. Em 2025, os 20 clubes da primeira divisão masculina tinham algum vínculo comercial com empresas de apostas, e 18 utilizavam uma bet como patrocinadora máster. Neste ano, o número de equipes prejudicadas com a medida de veto do governo federal em relação ao espaço principal das camisas de jogo está em 14.

Corinthians e São Paulo são exemplos diretos dessa realidade. No futebol masculino e feminino, o Timão tem a Esportes da Sorte como patrocinadora máster, enquanto o São Paulo mantém a Superbet na posição principal do uniforme. Os clubes de futebol terão até 5 de outubro, um prazo de 10 dias, para remover marcas de casas de apostas dos uniformes e das propriedades comerciais.

Esse deve ser justamente o primeiro impacto visual possível para a final: caso as equipes tenham de retirar as marcas das casas de apostas dos uniformes, o torcedor poderá perceber a mudança imediatamente nos dois times em campo. A situação do Corinthians tem ainda um elemento contratual relevante: o clube renovou em 2026 o vínculo da Esportes da Sorte com o futebol feminino até dezembro de 2029.

Fora das camisas, porém, a diferença já aparece antes mesmo de qualquer mudança provocada pela nova medida. Enquanto a Série A masculina utiliza uma grande quantidade de ativos comerciais ligados às bets, o Brasileirão Feminino chega à final com um ecossistema de patrocinadores concentrado em marcas tradicionais.

Quem comercializa a publicidade 

A estrutura comercial ajuda a explicar esse cenário. A FSports detém com exclusividade os direitos comerciais e de mídia das competições nacionais femininas da CBF no ciclo 2025–2029. A empresa trabalha em parceria com a agência Heatmap na comercialização dos ativos do Brasileirão Feminino, da Copa do Brasil Feminina e da Supercopa Feminina.

A estratégia comercial ganhou força nos últimos anos. Atualmente, o ecossistema das competições femininas reúne patrocinadores como Amazon, Coca-Cola, Hyundai, Itambé, Monange, Sicoob e Uber. A Coca-Cola, por exemplo, fechou em julho de 2026 acordo válido até o fim de 2027 — também envolvendo presença em torneios masculinos —, com entregas envolvendo painéis de LED, placas estáticas, backdrops de entrevistas e ativações especiais.

A própria Heatmap já destacou o crescimento da presença comercial no futebol feminino. Em 2025, mais de 15 patrocinadores apareceram nas partidas decisivas das competições, incluindo marcas de alimentos, bancos, automóveis, varejo e também casas de apostas. O movimento, portanto, não significa ausência histórica das bets no futebol feminino. Elas já estiveram presentes e chegaram a comprar propriedades comerciais importantes. A diferença está no peso relativo dessa presença.

O que muda na prática

Para quem assistir à decisão entre Corinthians x São Paulo, a primeira mudança perceptível dependerá das regras efetivamente aplicáveis aos contratos vigentes de patrocínio máster. Nas placas comerciais da competição, entretanto, a transformação tende a ser menor em comparação a uma partida da Série A masculina. O histórico recente das semifinais mostra um entorno de campo ocupado majoritariamente por patrocinadores de outros setores.

Justamente por isso, a decisão entre Corinthians e São Paulo ganha um significado particular além da disputa pela taça de campeão dentro do gramado. Com o Brasileirão masculino paralisado pela Data Fifa até 7 de outubro, a final será o primeiro grande jogo do futebol nacional sob o novo cenário, mas acontecerá em uma competição na qual a publicidade das bets, ao menos nesta temporada, ocupou uma fatia visual bem menor em comparação aquela observada no principal campeonato masculino.

  • Google Discover Icon
DQ
postado em 25/09/2026 22:16 / atualizado em 25/09/2026 22:57
x