COPA DO MUNDO 2026
O hexa passa pelo sumô: Como esporte mais popular do Japão pode ajudar o Brasil
Em visita a um dos mais tradicionais estábulos em Tóquio, o técnico Carlo Ancelotti achou caminhos que podem ser decisivos por vaga
COPA DO MUNDO 2026
Em visita a um dos mais tradicionais estábulos em Tóquio, o técnico Carlo Ancelotti achou caminhos que podem ser decisivos por vaga

Nova Jersey — Dezesseis de outubro de 2025. Depois de perder de virada para o Japão por 3 x 2, na inédita derrota verde-amarela para o adversário, Carlo Ancelotti fez uma visita ao Tamanoi Stable, em Tóquio, um dos templos do sumô no país oriental. Jamais se deve considerar a ida de um líder como o italiano a um destino como esse, em seu dia de folga, como um mero "rolé aleatório", pois, embora tenha dito pouco sobre o tour, ele manifestou profunda admiração pelo esporte nacional do Japão, escrevendo: “Como entusiasta da modalidade, eu me senti honrado por ser convidado por este estábulo de sumô, o coração das antigas tradições culturais do Japão”.
Faltando 237 dias para o início da Copa, ele provavelmente não imaginaria um duelo com o Japão na fase de 16 avos, que ocorrerá amanhã, às 14h, na NRG Arena, em Houston, no Texas, até porque, à época, a Fifa sequer havia sorteado os grupos da Copa do Mundo de 2026. A visita, porém, oferece pistas valiosas sobre a maneira como o treinador italiano enxerga o esporte, a liderança e a formação de equipes vencedoras, uma vez que Ancelotti sempre demonstrou curiosidade intelectual, buscando referências fora do futebol ao se aproximar de técnicos de outras modalidades e estudar diferentes métodos de gestão.
A incursão ao universo do sumô se encaixa perfeitamente nessa característica, visto que, mais do que conhecer uma tradição centenária do Japão, o treinador mergulhou em valores que ajudam a explicar a sua própria filosofia de trabalho. Na véspera do confronto decisivo entre Brasil e Japão, alguns desses conceitos parecem especialmente atuais, a começar pelo equilíbrio: no imaginário popular, o sumô é associado à força física, mas, na prática, trata-se de uma modalidade na qual o controle corporal, o posicionamento e a estabilidade são tão importantes quanto a potência, dado que muitas lutas são decididas quando um dos competidores perde a base e é empurrado para fora do círculo.
O Japão tenta provocar exatamente esse tipo de desconforto nos adversários por meio de uma movimentação intensa, pressão coordenada e velocidade na circulação da bola, buscando tirar o rival de sua zona de conforto. Diante disso, o desafio do Brasil será manter a própria estrutura mesmo frente à intensidade japonesa, um risco que Ancelotti conhece bem, já que, desde que assumiu a Seleção, uma de suas prioridades tem sido construir um time emocionalmente estável e capaz de reagir aos momentos adversos sem perder a organização.
Outra lição crucial do sumô está na disciplina, visto que a rotina dos lutadores é marcada por repetição, respeito à hierarquia e valorização do coletivo. Nesses moldes, o brilho individual até existe, mas não supera a importância da execução de um plano comum, o que explica por que a seleção japonesa se tornou uma das equipes mais organizadas do futebol mundial; embora talvez não tenha a quantidade de talentos individuais encontrada no elenco canarinho, ela compensa essa diferença com sincronização, comprometimento tático e um elevado senso coletivo.
Ancelotti admira essas características, tendo passado boa parte da preparação para a Copa tentando justamente encontrar o equilíbrio entre a criatividade natural do futebol brasileiro e a necessidade de uma estrutura coletiva sólida. Há ainda uma terceira conexão: no sumô, a luta pode durar poucos segundos, mas a preparação é longa, exigindo observação, estudo, concentração e respeito ao momento certo de agir antes do choque inicial, uma ideia que dialoga diretamente com o perfil do técnico.
Em uma profissão frequentemente marcada pela ansiedade e pela hiperatividade à beira do campo, o italiano construiu a reputação de ser um gestor sereno que raramente transmite nervosismo, preferindo observar, interpretar o jogo e intervir nos momentos adequados — uma paciência que pode ser decisiva amanhã contra o Japão. Como o adversário tentará acelerar a partida, o Brasil precisará resistir à tentação de transformar o duelo em uma troca permanente de golpes, compreendendo que, em determinados momentos, controlar o ritmo pode ser tão importante quanto atacar.
A visita de Ancelotti ao sumô não oferece uma fórmula mágica para derrotar o Japão, tampouco foi uma aula específica sobre o adversário, mas ajuda a compreender a mente de um treinador que crê no aprendizado nos lugares mais improváveis. Por coincidência, algumas das lições observadas por ele em um estábulo japonês — como equilíbrio, disciplina, autocontrole e paciência — podem ser exatamente as virtudes necessárias para o Brasil sustentar o projeto do hexa no duelo de amanhã.
A visita ao estábulo de sumô não foi um episódio isolado na trajetória de Carlo Ancelotti, que integra uma linhagem de líderes esportivos interessados no conhecimento muito além das fronteiras da própria modalidade. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Pep Guardiola, treinador espanhol que recorreu diversas vezes ao universo do xadrez para aperfeiçoar conceitos de ocupação de espaços, tomada de decisão e antecipação de movimentos, tendo inclusive convidado o enxadrista russo Garry Kasparov para compartilhar reflexões sobre estratégia e liderança.
No basquete, o lendário técnico Phil Jackson tornou-se conhecido por incorporar elementos da filosofia oriental, da meditação e da espiritualidade à gestão de elencos estrelados, assim como Doc Rivers buscou referências em áreas como psicologia e administração para fortalecer a cultura de suas equipes. Da mesma forma, no futebol português, Abel Ferreira transformou a leitura de livros sobre liderança, gestão e comportamento humano em uma marca registrada de seu trabalho.
Ancelotti segue um caminho muito semelhante pois, ao visitar um estábulo de sumô, não procurava uma solução tática para um adversário específico, mas sim ampliar seu repertório e entender como outra cultura desenvolve valores essenciais como a disciplina, o autocontrole, o respeito à hierarquia e a busca incessante pela excelência.
O atacante Kento Shiogai, da seleção japonesa, demonstrou confiança antes enfrentar o Brasil na segunda fase da Copa do Mundo. Em entrevista à agência de notícias japonesa Kyodo News, o jovem de 21 anos afirmou que o Brasil não é mais o mesmo de antigamente. “Acho que é um adversário que podemos vencer. Acredito que temos que entrar para dominar o jogo”, afirmou Shiogai, que joga no Wolfsburg, da Alemanha.
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