FIM DO SONHO

Endrick e Igor Thiago: os caminhos opostos dos brasilienses na Copa

Jovem de 19 anos virou o jogador mais pedido pela torcida, mas desperdiçou oportunidade decisiva e tem influência nos gols da Noruega. Artilheiro do Brentford começou a caça ao hexa como titular, mas foi escanteado nas quatro partidas seguntes

Foto de perfil do autor(a) Marcos Paulo Lima — Enviado especial
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06/07/2026 14:53
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Igor Thiago e Endrick recolocaram o DF em Copas depois de 16 anos -  (crédito: Nelson Terme/CBF)
Igor Thiago e Endrick recolocaram o DF em Copas depois de 16 anos - (crédito: Nelson Terme/CBF)

Nova Jersey — Brasília voltou a ter representantes na Copa do Mundo depois de 16 anos. A capital federal não colocava jogadores no principal torneio do planeta desde Lúcio e Kaká, na África do Sul, em 2010. A convocação em 28 de maio foi o auge. Dali para frente, foi só para trás. Endrick recebeu a oportunidade mais aguardada da carreira justamente na eliminação para a Noruega. Igor Thiago, o primeiro titular de Carlo Ancelotti no Mundial, sequer saiu do banco na despedida da pior campanha em 36 anos, com a queda nas oitavas de final.

Menino dos olhos de Carlo Ancelotti desde os tempos de Real Madrid, Endrick ganhou oportunidade nos últimos testes antes da convocação, na Data Fifa de março, contra França e Croácia. Respondeu em campo e reforçou a imagem de talismã construída ainda na passagem de Dorival Júnior. Não demorou a virar xodó da torcida.

Terceiro jogador da Seleção Brasileira com mais seguidores nas redes sociais, atrás apenas de Neymar e Vinicius Junior, o brasiliense de 19 anos passou a ser o nome mais pedido pelo público, tanto nos estádios dos Estados Unidos quanto no Brasil. Os gritos pela entrada dele ecoaram até em partidas nas quais Vinicius Junior era o grande destaque, como na vitória sobre a Escócia, quando marcou dois dos três gols da Seleção.

Endrick participou de quatro das cinco partidas do Brasil na Copa do Mundo. A única ausência foi na estreia contra o Marrocos, decisão que abriu uma discussão sobre a relação entre o atacante e Carlo Ancelotti. Ambos sempre negaram qualquer desgaste. Diante da Noruega, o brasiliense recebeu a maior oportunidade da carreira na Seleção. Atuou por 32 minutos, a segunda maior minutagem dele no torneio.

No primeiro lance, desperdiçou a chance mais clara do Brasil ao dar um toque a mais na bola antes da finalização. O erro pesou porque o placar ainda estava zerado, mas esteve longe de resumir a atuação. Escalado aberto pela direita, Endrick recebeu uma função pouco habitual: recompor o corredor defensivo e dar proteção a Danilo, tarefa que vinha sendo executada por Rayan ao longo da competição.

A mudança teve impacto direto no funcionamento da equipe. Com Endrick pela direita, Neymar centralizado como falso 9 e Vinicius Junior do lado oposto, o Brasil passou a defender com três jogadores de pouca vocação para a recomposição. Casemiro e Bruno Guimarães, desgastados fisicamente, perderam apoio na proteção da defesa.

A Noruega percebeu o espaço, concentrou as ações ofensivas pelo setor direito brasileiro e encontrou em Andreas Schjelderup o principal desafogo. O ponta do Benfica fez o cruzamento perfeito para Haaland no primeiro gol e deu o passe para o segundo. Jogadas que expuseram um corredor até então protegido por Rayan ao longo da Copa.

Principal rosto da renovação, Endrick carrega também o peso de uma geração que ainda não conseguiu transformar talento em resultados. O brasiliense esteve na campanha que deixou o Brasil fora dos Jogos Olímpicos de Paris-2024. A Seleção Sub-20 da mesma safra caiu na primeira fase do Mundial da categoria. A eliminação nas oitavas da Copa de 2026 acrescenta mais um capítulo a um ciclo que segue devendo grandes campanhas ao futebol brasileiro.

Se Endrick terminou a Copa carregando o peso da oportunidade recebida, Igor Thiago viveu a frustração oposta. O atacante sequer teve a chance de influenciar o desfecho da campanha brasileira. Primeiro centroavante escolhido por Carlo Ancelotti no início do trabalho, o jogador nascido no Gama e criado na Cidade Ocidental (GO) iniciou a campanha como referência do ataque, mas perdeu espaço ao longo da preparação e assistiu do banco à eliminação para a Noruega. 

A perda de prestígio surpreende pelo contexto. Igor Thiago chegou à Seleção respaldado pela temporada no Brentford, com 27 gols em 45 partidas, e pelo status de melhor cobrador de pênaltis do elenco brasileiro em 2025/2026, com 11 conversões em 12 cobranças. Recebeu o voto de confiança de Carlo Ancelotti na estreia contra o Marrocos e desperdiçou a chance de consolidar a posição em uma atuação coletiva abaixo da expectativa. Não recuperou o espaço. Matheus Cunha assumiu a vaga e Endrick passou à frente na rotação. 

A Copa terminou cedo, mas não fechou o ciclo. Endrick, aos 19 anos, continuará sendo tratado como uma das apostas da renovação da Seleção. Igor Thiago, aos 25, deixa os Estados Unidos com uma missão diferente: convencer Ancelotti e torcedores de que a temporada de 27 gols pelo Brentford foi o início de uma trajetória em alto nível, e não uma exceção capaz de lhe render apenas uma Copa do Mundo, como foi com Grafite pelo Wolfsburg em 2008/2009.