Dallas — Cinco mil oitocentos e quarenta e sete dias depois da conquista do primeiro título na Copa do Mundo, em 11 de julho de 2010, no Soccer City, na África do Sul, a Espanha está de volta à final. A queda na fase de grupos em 2014 ficou para trás. A eliminação contra a anfitriã Rússia em 2018 também. Se La Roja deu adeus nos pênaltis contra Marrocos em 2022, não se lembra. A geração medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 e dourada em Paris-2024 recoloca o país na moda na vitória por 2 x 0 contra a França nesta terça-feira, 14 de julho, uma data simbólica para o rival: a Queda da Bastilha.
A revolução francesa no futebol, com o futebol mais agradável da Copa até então unindo talentos como Mbappé, Olise, Dembélé, Barcola e companhia, foi vítima outra vez do início da era Lamine Yamal. Assim como nas semifinais da Euro-2024, a trupe do menino prodígio assinou a carteirinha do freguês e irá ao MetLife Stadium no domingo para enfrentar o vencedor da semifinal desta quarta-feira: Argentina ou Inglaterra. Qualquer uma será inédita. O duelo contra os sul-americanos seria tira-teima entre os atuais campeões da Europa e da América do Sul. Contra os ingleses, uma repetição da decisão da última Euro.
Aos 19 anos, Lamine Yamal chega à primeira final na primeira Copa da carreira com uma autoestima do tamanho da semifinal desta terça e da decisão de domingo. Quando soube que enfrentaria a França, o jovem atacante publicou jogadas pessoais em duelos contra os atuais vice-campeões e afirmou em uma entrevista coletiva: "Se a França tem que temer alguém, somos nós. Fomos nós que os eliminamos da última vez”, afirmou, referindo-se às semifinais da Eurocopa de 2024 na Alemanha.
Questionado novamente sobre o tema na coletiva da véspera no estádio, ele reforçou a declaração como um aviso de que seria o dono do jogo. “Me perguntaram se tinha medo da França, eu disse que não. Somos os campeões da Europa e não temos medo de nenhum jogo. É futebol, eles que levem a frase como quiserem”, disse no aniversário de 19 anos.
Lamine Yamal entrou na mente da defesa da França. O primeiro gol do jogo ilustra bem o jogo psicológico. O lateral-esquerdo Cucurella recebe a bola e cruzou mal para dentro da área. O lance parecia controlado até o jovem atacante surgir como uma flecha para cima de Digne. Errou justamente quem havia colocado panos quentes na fervura na véspera da partida e tinha a missão de domar Yamal. O pênalti cometido começou a destravar o jogo.
Oyarzabal assumiu a responsabilidade da cobrança e bateu com força, à meia altura. O chute de 120km/h da distância de 11 metros foi indefensável para o goleiro Maignan. O melhor ataque da Copa do Mundo saía atrás no placar pela primeira vez contra a defesa intransponível da Espanha. Só a Bélgica havia conseguido vazar Unai Simón até então.
Embora não seja um nove de grife como os semifinalistas Harry Kane, Lautaro Martínez ou Julian Álvarez, Oyarzabal chegou ao quinto gol na Copa de 2026. Igualou compatriotas como as lendas Emílio Butragueño (1986) e David Villa (2010). São 14 gols pela seleção somente nas contas temporada de 2025/2026. Um goleador subvalorizado.
Como se não bastasse a falha de Digne no duelo com Yamal e o gol de Oyarzabal, a França perdeu o zagueiro pelo lado esquerdo Saliba, outro responsável pelo cerco a Yamal. Lacroix assumiu a função. Fabián Ruiz quase ampliou depois de ser travado pela defesa adversária. A França pressionava nas bolas longas para Mbappé no mano a mano com a retaguarda espanhola, mas Unai Simón estava atento. Era praticamente um líbero nas antecipações.
Didier Deschamps acusou o golpe na volta para o segundo tempo. Sacou o amarelado Rabiot para a entrada de Koné. Trocou Barcola por Doué. A posse de bola da Espanha não deixava a França usar as munições. Em contrapartida, La Roja explorada com eficiência a rota para o segundo gol. Em uma trama envolvente entre Pedro Porro e Dani Olmo, o lateral saiu na cara do goleiro Maignan e finalizou com frieza para ampliar o placar em Dallas.
Faltava o gol de Lamine Yamal. O “moleque” não fazia uma grande partida, mas a presença dele do lado direito causava pânico até sem a bola. Baixou o “Mané Garrincha” nele aos 15 minutos do segundo tempo. O aniversariante de ontem transformou Digne em “João”, como dizia o brasileiro, deu uma bela finta no marcador e acertou o ângulo, mas estava impedido. Mbappé respondeu com um chute perigosíssimo à direita do gol de Unai Simón.
Preso na teia de aranha montada por Luis de La Fuente, o técnico Didier Deschamps queimou todas as cinco substituições. Trocou Olise por Cherki, Digne por Theo Hernández e apostou na tentativa de uma blitz. O banco espanhol renovou o gás com as entradas de Lllorente, Pedri, Merino e Ferran Torres para administrar o confronto. Não somente conseguiu como está na final em uma vaga conquistada diante da presença ilustre dos heróis da primeira conquista. Puyol, Xavi, Sergio Ramos e Casillas abençoaram! Os gritos de “Espanha” e de “Olé” só saíram da garganta nos acréscimos de sete minutos.
Pronto. A candidatura de Lamine Yamal estava definitivamente lançada para repetir o feito de Kylian Mbappé no domingo. Se o francês conquistou a primeira Copa do Mundo com 19 anos em 2018, na primeira participação da vida no torneio, a joia da Espanha também pode no domingo contra a Argentina de Lionel Messi ou a Inglaterra de Harry Kane. Como se diz em espanhol: a ver...
FICHA TÉCNICA
0 França (4-2-3-1)
Maignan;
Koundé, Upamecano, Saliba (Lacroix) e Digne (Theo Hernández);
Tchouaméni e Rabitot (Koné);
Dembélé, Olise (Cherki) e Barcola (Doué);
Mbappé
Técnico: Didier Deschamps
2 Espanha (4-2-3-1)
Unai Simón;
Porro (Llorente), Cubarsí, Laporte e Cucurella;
Rodri e Fabián Ruiz (Pedri);
Lamine Yamal, Dani Olmo (Merino) e Baena;
Oyarzabal (Ferran Torres)
Técnico: Luis de La Fuente
Gols: Oyarzabal, aos 22 minutos do primeiro tempo; Pedro Porro, aos 13 minutos do segundo tempo
Cartões amarelos: Adrien Rabiot, Mbappé (França), Cucurella (Espanha)
Cartão vermelho: (-)
Público: 70.176 pagantes
Renda: não divulgada
Árbitro: Ivan Barton (El Salvador)