COPA DO MUNDO 2026

Entre padrinho Messi e afilhado Yamal, a última sessão da Copa 2026

Pela liberdade de gritar "campeão", final inédita entre Espanha e Argentina fecha temporada de 104 espetáculos na Copa com duelo profético entre o padrinho Messi e o afilhado Yamal

Foto de perfil do autor(a) Victor Parrini — Enviado especial
Victor Parrini — Enviado especial
Foto de perfil do autor(a) Marcos Paulo Lima — Enviado especial
Marcos Paulo Lima — Enviado especial
19/07/2026 06:00
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capa esporte final espanha x argentina -  (crédito: editoria de arte)
capa esporte final espanha x argentina - (crédito: editoria de arte)

Nova Jersey — Quando a noite cai sobre Manhattan, a Broadway acende os letreiros. As fachadas iluminadas anunciam os espetáculos em cartaz, turistas caminham pela Times Square em busca de uma história para guardar, atores repetem as últimas falas antes da entrada em cena e músicos afinam os instrumentos atrás das cortinas. Em um dos endereços mais famosos do mundo, cada apresentação tem começo, clímax e encerramento. As grandes produções são lembradas pela última sessão.

A poucos quilômetros dos teatros que transformaram Nova York na capital mundial do entretenimento, outro palco ensaia uma tarde de gala. O MetLife Stadium recebe hoje, às 16h (de Brasília), a última apresentação da Copa do Mundo de 2026. Não haverá bis. Depois de 39 dias, 104 partidas e uma viagem inédita por Estados Unidos, México e Canadá, a maior produção montada pela Fifa chega ao ato final.

O roteiro desta edição entrou para a história antes mesmo da última cena. Pela primeira vez, a Copa reuniu 48 seleções, 1.248 jogadores, distribuiu personagens por três países e transformou o Mundial em um espetáculo de escala planetária. São 307 gols em 103 jogos, contando com a decisão do terceiro lugar. Viradas, heróis inesperados, despedidas emocionantes e enredos inesquecíveis como o de Cabo Verde. Os africanos seguraram a Espanha na estreia e foram à prorrogação contra a Argentina. O futebol ganhou uma dimensão de entretenimento global poucas vezes vista, com estádios lotados, média superior a 65 mil torcedores por jogo, audiências gigantescas diante das tevês e de dispositivos móveis e uma atmosfera de evento que ultrapassou as quatro linhas.

A decisão foi planejada como um domingo nobre. Pela primeira vez, uma final de Copa adota dimensão de Super Bowl, transformando o intervalo em um grande show. A música invadirá o gramado antes do segundo tempo, com Madonna, Shakira, BTS, Justin Bieber, direção artística de Chris Martin e presença de outros artistas convidados para uma apresentação pensada para milhões de espectadores. O futebol dividirá o palco com o entretenimento, como acontece nos maiores eventos esportivos dos Estados Unidos.

A plateia também será parte do espetáculo. Personalidades internacionais, celebridades e autoridades estarão no MetLife Stadium no dia em que esporte, cultura e política dividirão os holofotes. A presença do presidente dos EUA, Donald Trump, reforça a dimensão global alcançada pela final de uma Copa do Mundo disputada na América do Norte.

Mas nenhuma grande produção vive de cenário. A final encontrou os protagonistas perfeitos: Lionel Messi e Lamine Yamal. Em qualquer grande espetáculo, existe um momento no qual o passado encontra o futuro. O veterano hegemônico no palco durante anos divide a cena com o jovem talento candidato a assumir os holofotes. Primeiro atleta a iniciar jogando em três decisões (2014, 2018 e 2022), Messi entra em campo pela última vez em Copas podendo se tornar o primeiro capitão a erguê-la duas vezes. Yamal disputa a primeira final. Um representa a despedida de uma era. O outro simboliza o começo — e tentará igualar Mbappé, calouro campeão aos 19 há oito anos na Rússia.

O elo entre os dois parece retirada de um roteiro escrito pelo destino. Como mostrou o Correio na sexta-feira, Messi, em 2007, ainda um jovem jogador do Barcelona, participou de um ensaio beneficente realizado pelo fotógrafo Joan Monfort. Entre as imagens estava o argentino dando banho em um bebê chamado Lamine Yamal. Quase duas décadas depois, a imagem deixou de ser lembrança curiosa e se transformou no cartaz perfeito da final.

Poucas vezes, o futebol produziu um símbolo tão poderoso de passagem de bastão. O menino que um dia esteve nos braços de Messi agora divide com ele o maior palco do esporte. O campeão da Copa em 2022 ensaia o bi no último tango. O menino-prodígio da Espanha tenta iniciar uma trajetória imponente nas próximas décadas.

Antes da última apresentação do capitão Messi em Mundiais, até o adversário reconheceu a dimensão do personagem. Rodri, campeão europeu com a Espanha e um dos principais jogadores da geração atual, resumiu o sentimento de muitos companheiros de profissão. "Messi é o melhor jogador de todos os tempos para mim. Ele conseguiu levar a seleção a vencer a Copa do Mundo e chegar a outra final. Mas a Argentina é muito mais do que Leo. Somos as duas equipes que jogam melhor coletivamente", opinou o capitão de La Roja.

Peso histórico

A final também carrega um peso histórico. A Argentina tenta conquistar o quarto título mundial e repetir a façanha alcançada apenas por Itália (1934 e 1938) e Brasil (1958 e 1962): vencer duas Copas consecutivas. A seleção comandada por Lionel Scaloni, candidato a igualar o recorde do italiano Vittorio Pozzo com dois títulos, busca transformar a conquista de 2022 em uma era de domínio e colocar o país ao lado das maiores dinastias.

Atual campeã da Eurocopa, a Espanha tem o desafio de superar a vencedora da Copa América na primeira final de Mundial entre detentores vigentes dos troféus continentais. A Fúria cobiça o segundo título mundial. Dezesseis anos depois da geração de Iniesta, Xavi e Casillas levantar a taça na África do Sul, uma nova trupe luta para devolver o país ao topo. Liderada por Lamine Yamal, a equipe deseja provar que a identidade construída pelo futebol espanhol continua viva em novos protagonistas. "É um dos melhores jogadores do mundo e eu lhe desejo muita sorte, porque vai ser bom para o Barcelona também. Domingo tentaremos fazer uma boa partida para que ele não tenha chances", brincou.

Como acontece nos grandes espetáculos da Broadway, uma série de atrações termina enquanto outra começa. Os nomes no letreiro mudam. Os protagonistas deixam o palco. Novos artistas assumem os holofotes. A Copa de 2026 é o instante de transição para a edição centenária de 2030.

Na Broadway, a terceira chamada anuncia o início do espetáculo. Depois dela, as portas se fecham, as luzes diminuem e todos os olhos se voltam para o palco. Hoje, o futebol ouvirá a última chamada para a Copa de 2026. As cortinas estão abertas. Os elencos prontos. Falta descobrir quem receberá a última ovação da noite: o maior artista de uma era na despedida ou o jovem talento destinado a escrever os próximos atos da história.