COPA DO MUNDO 2026

Final da Copa 2026: Espanha pode pintar o sete

Invencibilidade de 37 jogos passa por nove confrontos contra seis campeões mundiais. Se superar Argentina, La Roja bordará segunda estrela após ciclo perfeito diante de potências

Nova Jersey — Para retornar à final da Copa do Mundo depois de 16 anos, a Espanha decidiu atravessar a sala de troféus. O ciclo do técnico Luis de la Fuente passou por seis dos sete campeões mundiais e transformou La Roja em candidata natural ao título antes de a bola rolar no MetLife Stadium. Itália, Brasil, Alemanha, França, Inglaterra e Uruguai cruzaram o caminho dos espanhóis desde março de 2023. Falta apenas a última fronteira e quiseram os deuses do futebol que fosse a atual campeã, Argentina. Se vencer a decisão de hoje, a Espanha poderá reivindicar o posto de legítima dona do planeta bola depois de superar praticamente toda a linhagem de vencedores do torneio da Fifa.

Embora compartilhem a mesma língua na segunda final hispânica dos 96 anos de Copa do Mundo, Espanha e Argentina são antíteses no caminho até a decisão. Os sul-americanos também enfrentaram rivais de peso, mas cruzaram apenas com três campeões mundiais no ciclo: Brasil e Uruguai, pelas Eliminatórias, e a Inglaterra, na semifinal. Foram cinco confrontos, contra nove da Roja. O contraste vai além da estatística e ajuda a explicar por que os espanhóis chegam à final respaldados por um currículo que poucos campeões acumularam antes de levantar a Copa.

A caminhada espanhola ganhou contornos de rito de passagem. A Itália abriu a porta na Nations League. O Brasil colocou a maturidade à prova em amistoso no Santiago Bernabéu. Itália, Alemanha, França e Inglaterra legitimaram a conquista da Euro-2024. O Uruguai surgiu no caminho desta Copa, e a França voltou a cruzar o destino na semifinal. La Roja permanece invicta diante de campeões mundiais desde o início do ciclo, com 17 gols marcados e 11 sofridos. Falta apenas pintar o sete diante da Argentina para completar a travessia.

O principal arquiteto dessa escalada atende pelo nome de Luis de la Fuente. Promovido à seleção principal depois de conquistar a Euro Sub-19, a Euro Sub-21 e a medalha de prata olímpica em Tóquio, o treinador transformou a Espanha em uma máquina de competir. Desde a derrota para a Colômbia, em março de 2023, a Roja não sabe o que é perder. São 37 partidas de invencibilidade, alimentadas justamente pelos confrontos contra a elite do futebol mundial.

É justamente aí que reside a principal diferença entre os finalistas. A Espanha precisou colecionar credenciais diante da aristocracia do futebol mundial para consolidar a reconstrução conduzida por Luis de la Fuente. A Argentina percorreu o ciclo em outra condição: entrou como campeã do mundo. O calendário refletiu esse status. Fora das Eliminatórias, em que enfrentou Brasil e Uruguai por obrigação, os amistosos privilegiaram adversários de menor expressão, como Angola, Porto Rico, Venezuela, Islândia, Honduras, Zâmbia, Mauritânia, Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Panamá, Curaçao, Austrália e Indonésia. Enquanto isso, seleções como o Brasil mediram forças com França, Croácia, Inglaterra e a própria Espanha.

Curiosamente, havia um compromisso capaz de equilibrar essa balança. A Finalíssima contra a Espanha, prevista para este ciclo, colocaria frente a frente os campeões da Copa América e da Eurocopa. O duelo acabou adiado em meio aos impactos da guerra no Oriente Médio. Nos bastidores, ganhou força a versão de que nenhuma das duas seleções desejava disputar uma partida desse porte às vésperas do Mundial. O destino transferiu o encontro para o palco mais nobre possível: a final da Copa do Mundo.

 

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Ciclismo inspira técnico da Argentina

Nova York — Lionel Scaloni encontrou no ciclismo uma aliada para o futebol. O treinador da Argentina pedala para escapar da pressão, organizar os pensamentos e preservar o espírito competitivo herdado dos tempos de lateral-direito — agora aplicado à função de comandante. Nas montanhas de Mallorca, entre subidas intermináveis e longas distâncias, o técnico campeão da Copa do Mundo desafia os próprios limites com a mesma disciplina usada para conduzir a seleção da Argentina.

O ciclismo se transformou em uma espécie de refúgio para Scaloni. Longe dos holofotes, das entrevistas e das cobranças que acompanham o atual campeão mundial, ele encontra sobre duas rodas um espaço para refletir, planejar e manter a mente em equilíbrio. A modalidade exige paciência, resistência e controle do esforço. Virtudes que também fazem parte do trabalho de um treinador durante uma Copa do Mundo.

“Quando eu era jogador profissional e olhava o Tour de France em julho, pensava: esses caras ficam sete, oito horas em cima de uma bicicleta, que coisa chata. Hoje digo que estava muito errado, porque é um esporte maravilhoso”, contou Scaloni. A descoberta tardia ajudou a transformar a relação dele com a modalidade.

Para alguém que passou anos dentro de campo, competindo como lateral-direito, o ciclismo mantém viva uma sensação que o futebol deixou para trás: a disputa contra os próprios limites. Scaloni encontra no esporte uma forma de continuar competindo, mesmo depois de pendurar as chuteiras. “Quando você está cansado, sabe muito bem quais são os limites que tem e, quando está bem, também percebe até onde pode chegar”, explicou.

A comparação com o futebol é inevitável. Uma grande prova de ciclismo não é vencida apenas pela força física. Exige estratégia, leitura do momento, capacidade de sofrer e inteligência para saber quando atacar. Exatamente como uma Copa do Mundo, em que uma seleção precisa atravessar diferentes obstáculos até chegar ao último jogo.

A um passo de igualar o italiano Vittorio Pozzo, único treinador bicampeão mundial da história do torneio quase centenário da Fifa, Scaloni tenta levar a Argentina ao quarto título. O caminho até a final foi construído com a mesma filosofia que aplica nas pedaladas: disciplina, constância e controle emocional.

No ciclismo, uma subida longa pode definir uma prova. No futebol, um detalhe pode decidir uma Copa. Scaloni sabe. Talvez por isso prefira encarar os desafios como encara uma montanha: respeitando o percurso, administrando a energia e mantendo a convicção de que a chegada depende da capacidade de resistir.

Antes de comandar uma seleção em busca da glória, o treinador argentino continua sendo um homem sobre duas rodas, em uma estrada silenciosa, onde encontra respostas que depois leva para o banco de reservas.

As milhas acumuladas nos Estados Unidos registram passeios contra Argélia, Áustria e Jordânia na primeira fase e subidas mais exigentes no percurso do mata-mata diante de Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra. A linha de chegada contra a Espanha é o desafio final de Scaloni para manter a Copa do Mundo na garupa da Argentina e fechar mais um ciclo vitorioso.

Messi dribla desgaste em campo

Nova Jersey — Caminhando mais do que correndo, aos 39 anos, Lionel Messi é o atleta mais decisivo da Copa. Há uma semana, o jornal The Athletic compilou dados físicos e comprovou o que qualquer observador mais atento havia percebido: o camisa 10 da Argentina passa a maior parte do tempo parado ou caminhando em campo. O Correio atualizou os números com base no banco oficial de estatísticas da Fifa e disseca como o atleta ainda consegue fazer a diferença em um esporte cada vez mais intenso.

Messi passou 63,7% do tempo nesta Copa do Mundo parado ou caminhando lentamente, numa faixa de velocidade entre 0km/h e 7km/h. A velocidade média do craque argentino em toda a competição é de 4,56km/h. É como se você estivesse andando despreocupado, batendo papo com amigos em um dia de descanso na praia ou no parque.

Nos tempos áureos de Barcelona, Messi se destacou, entre outras coisas, pelas arrancadas em velocidade com uma capacidade impressionante de controle de bola e drible. Não foram raros os lances em que o argentino superou as defesas adversárias não apenas pela habilidade, mas também pela explosão.

O tempo passou, e o garoto se tornou veterano. Com isso, adaptou o jogo às condições físicas para seguir fazendo a diferença. Agora, Messi escolhe os momentos ideais para correr — quase sempre quando a Argentina tem a bola. Os outros marcam para que o 10, descansado, brilhe na hora de atacar.

Se passa mais de 63% da Copa parado ou caminhando, Messi atinge a faixa de 7km/h a 15km/h (trote ou corrida leve) em 22,4% do tempo; chega a 15km/h a 20km/h em 8,9%; alcança 20km/h a 25km/h em 4,2%; e atinge picos superiores a 25km/h em 0,7% da competição.

O atacante joga muito mais pelo centro do que pelas pontas, justamente para que possa flutuar entre as linhas de defesa e meio-campo adversárias, setor em que sempre foi muito decisivo. Durante a Copa, porém, recorreu a uma antiga versão e se deslocou pela direita.

Por ali, fez a diferença com gols e assistências — especialmente em cruzamentos — em partidas em que a Argentina se via contra as cordas no mata-mata. Houve momentos em que Messi efetivamente correu, partiu para cima de adversários e conseguiu os espaços que pareciam invisíveis diante das fortes marcações.

Talvez o desespero de estar atrás no placar o tenha levado a isso. Os maiores picos de velocidade do craque na Copa foram na reta final do mata-mata: 30km/h na virada por 3 x 2 sobre o Egito, nas oitavas de final, e 29,7km/h na remontada contra a Inglaterra, na semifinal. Justamente nas duas vezes em que a Argentina esteve atrás do placar em toda a competição.

O camisa 10 contou que fez uma preparação especial justamente para estar apto fisicamente nesta que deve ser a última Copa do Mundo. Ele jogou os sete jogos até aqui — foi titular em seis e saiu do banco contra a Jordânia, quando o técnico Lionel Scaloni escalou vários reservas na rodada final da fase de grupos, quando o time já havia garantido classificação em primeiro lugar.

Ao todo, Messi acumula 713 minutos em campo, ou seja, quase oito jogos de 90 minutos completos. Suportou duas prorrogações, contra Cabo Verde e Suíça, e deu 176 sprints (corridas acima dos 20km/h).

Percorreu mais de 52km — um número que, isoladamente, chamaria muito a atenção. Porém, em média, é muito menos que a maioria dos jogadores da Copa do Mundo. É comum que atletas superem os 10km por partida. Messi só chegou a essa marca uma vez, quando alcançou quase 10,4km contra os suíços, justamente em duelo que teve prorrogação.

"História pura é ele. História, lenda… não existe definição maior do que essa. O maior jogador que o futebol já viu. Chegar a mais uma final como ele chegou, aos 39 anos, é incrível. Por isso eu digo que precisamos desfrutar deste momento", reverenciou o técnico da seleção argentina, Lionel Scaloni.

Marco Aurélio, o imperador que virou conselheiro de De la Fuente na Copa

Enquanto a maioria dos técnicos da Copa do Mundo mergulha em estatísticas, inteligência artificial, vídeos e relatórios produzidos por departamentos de análise de desempenho, Luis de la Fuente, de 65 anos, procura respostas em um homem que morreu há quase 1.900 anos.

O livro de cabeceira do treinador espanhol no Mundial é Meditações, obra escrita pelo imperador romano Marco Aurélio entre os anos 170 e 180 d.C. Não por acaso. Em um torneio decidido nos detalhes e pela capacidade de suportar a pressão, De la Fuente encontrou na filosofia estoica um manual para liderar um grupo jovem com média de idade de 26,9 anos, a mais baixa entre os semifinalistas.

O detalhe mais fascinante é que Meditações nunca foi pensado para chegar às livrarias. Marco Aurélio escrevia para si mesmo. Eram anotações íntimas registradas durante campanhas militares, enquanto comandava as legiões romanas nas fronteiras do império.

Em vez de celebrar vitórias ou registrar feitos políticos, o imperador fazia exatamente o contrário: lembrava diariamente que precisava controlar o ego, dominar as emoções e concentrar energia apenas naquilo que realmente dependia dele.

Quase dois milênios depois, essas páginas atravessaram os séculos para desembarcar no vestiário da seleção espanhola. A conexão é direta...

Para o estoicismo, existem acontecimentos sobre os quais não temos qualquer controle — o erro do árbitro, uma lesão, um desvio da bola, um gol sofrido aos 49 minutos do segundo tempo ou uma disputa por pênaltis. O que permanece sob domínio é a maneira de reagir diante desses acontecimentos. Essa talvez seja a principal lição de Marco Aurélio para o futebol.

Durante a Copa, De la Fuente citou duas passagens de Meditações que ajudam a compreender a identidade da Espanha. A primeira resume a gestão de grupo: “A calma é poder”. A segunda explica por que a La Roja se tornou um adversário tão difícil de enfrentar: “O que é mau para a colmeia é mau para a abelha”. Em outras palavras, nenhum talento individual pode valer mais do que o coletivo.

As ideias do imperador romano aparecem, de forma quase invisível, na maneira como a Espanha joga. A equipe não se desespera quando está em desvantagem, raramente perde a organização, aceita sofrer sem abandonar o plano e transmite uma serenidade pouco comum para um elenco cuja média de idade está entre as menores da Copa: 26,9 anos.

Outras reflexões de Marco Aurélio parecem ter sido escritas para uma preleção antes de uma final. “O obstáculo torna-se o caminho” poderia explicar cada dificuldade superada durante uma Copa do Mundo. “Você tem poder sobre sua mente, não sobre os acontecimentos” resume o desafio emocional de qualquer jogador a caminho da cobrança de um pênalti diante de milhões de espectadores.

Talvez seja por isso que Meditações tenha deixado de ser apenas um clássico da filosofia para se transformar em leitura frequente entre líderes, empresários, militares e atletas de alto rendimento. O livro não oferece fórmulas mágicas. Ensina que a maior batalha de qualquer ser humano acontece dentro da própria mente.

Há uma ironia bonita nessa história. Marco Aurélio escrevia cercado por soldados, administrando guerras decisivas para o futuro do Império Romano. Luis de la Fuente prepara a Espanha cercado por analistas, computadores, fisiologistas e telas de vídeo para disputar a maior partida do futebol mundial.

Os tempos mudaram. As armas também. Mas a missão permanece praticamente a mesma: conservar a lucidez quando tudo ao redor conspira para que a razão dê lugar ao medo.

Inglaterra triunfa, mas Mbappé lidera artilharia

Uma chuva de gols. No jogo entre os perdedores das semifinais da Copa do Mundo de 2026, a Inglaterra garantiu o terceiro lugar, ontem, ao derrotar por 6 x 4 a França, que chegou a reagir e quase protagonizou uma virada épica após um primeiro tempo desastroso.

A vitória da Inglaterra veio com um gol logo no início de Declan Rice, outro de Ezri Konsa (18'), um hat-trick de Bukayo Saka e um golaço nos últimos segundos de Jude Bellingham, artilheiro inglês com sete gols.

A França, que perdia por 4 x 0 no intervalo, sonhou com uma virada após dois gols de Kylian Mbappé (48' e 66'), que se tornou o maior artilheiro da história das Copas do Mundo com 22 bolas na rede, além dos gols de Bradley Barcola (54') e Ousmane Dembélé (90 6').

Antes do duelo, o técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, e o homólogo francês, Didier Deschamps, afirmaram que ninguém queria disputar o terceiro lugar, embora prometessem fazer o possível para vencer. E foi exatamente o que aconteceu, embora, no início, apenas uma equipe tivesse se mostrado disposta a lutar.

Com a marca de 22 gols em Copas do Mundo, Kylian Mbappé superou o argentino Lionel Messi como o maior artilheiro da história do torneio. O francês também lidera a artilharia desta edição do Mundial, com 10 gols, à frente dos oito do camisa 10 argentino, que tem 21 no total e ainda pode ultrapassar o rival na corrida pela Chuteira de Ouro na final de hoje.