As provas discursivas do Concurso Público Nacional Unificado (CNU), aplicadas neste domingo (7/12), deixaram clara a marca da Fundação Getulio Vargas (FGV): alto rigor técnico, comandos guiados e forte cobrança de interdisciplinaridade. Essa é a avaliação de professores consultados após o exame, que destacaram tanto aspectos positivos quanto desafios enfrentados pelos candidatos.
Aragonê Fernandes, professor de Direito Constitucional do Gran Cursos, classificou a prova como tecnicamente exigente e “muito guiada”. Segundo ele, a banca chegou a determinar detalhes numéricos — como solicitar “duas cargas” — e restringir o formato da resposta, ao pedir, por exemplo, uma abordagem exclusivamente qualitativa.
Em termos de conteúdo, Fernandes lembrou que a FGV é tradicionalmente forte em governança, orçamento e transparência, o que se refletiu na cobrança intensa de políticas públicas, muitas delas relacionadas à sustentabilidade e ao meio ambiente.
A densidade das provas também chamou atenção de Eduardo Cambuy, professor do Gran Concursos. Ele destacou que candidatos de blocos como 5 e 6 precisaram encaixar até seis respostas em apenas 30 linhas, situação que exigiu malabarismos textuais. Para se proteger de eventuais equívocos, muitos candidatos recorreram à estratégia de oferecer mais exemplos do que os dois pedidos pela banca.
Cambuy observou ainda que, em grande parte das questões, o último item — que pedia a proposição e justificativa de uma ação — funcionava como uma espécie de conclusão, permitindo ao candidato fechar o texto e administrar melhor o espaço. Na seara social, o professor comentou temas recorrentes nas questões, como a explosão demográfica em ocupações irregulares impulsionada por movimentos migratórios, que pressiona serviços públicos sem que a rede de apoio cresça na mesma velocidade da “avalanche de pessoas”.
Outro ponto de surpresa veio da área de Linguagens. Letícia Bastos, professora de Língua Portuguesa do Gran Concursos, notou uma divergência entre o edital e o comando final. Embora o documento previsse uma “questão discursiva” de caráter técnico para os blocos 1 a 7, a banca solicitou explicitamente uma “dissertação argumentativa” nas instruções. Bastos também identificou um padrão: sempre que o examinador queria uma elaboração maior, deixava isso claro com expressões como “explicando brevemente o seu significado”, o que consumia parte preciosa das já escassas linhas.
A transversalidade, porém, foi o elemento central segundo Júlia Branco, professora do Estratégia Concursos. Ela apontou que, além da limitação severa de espaço, as questões obrigavam os candidatos a relacionar temas específicos de suas áreas a debates amplos e atuais, como desigualdade social e inclusão digital. O resultado, afirma, foi uma prova que testou sobretudo a capacidade de síntese. Para Júlia, dada essa complexidade, a expectativa é de que o espelho de correção da FGV seja menos rígido, aceitando diferentes caminhos desde que coerentes com o tema proposto.
Do segundo dia de provas do CNU
As provas foram aplicadas simultaneamente em 228 municípios, a partir das 13h, com duração variável conforme o nível de escolaridade: três horas para candidatos de nível superior e duas horas para os de nível intermediário. Para o nível superior, foram exigidas duas questões discursivas, com 22,5 pontos cada, totalizando 45 pontos. Já os candidatos do nível intermediário produziram uma redação dissertativo-argumentativa, avaliada em 30 pontos.
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O Distrito Federal registrou taxa de abstenção de 15% neste segundo dia de provas do CNU 2 - a menor do país. O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), dos 8.235 concorrentes do DF, 1.253 deixaram de realizar o exame. No cenário nacional, a taxa de abstenção chegou a 20%. Dos 42.715 candidatos convocados para esta etapa, 8.508 não fizeram a prova. O Acre registrou o maior percentual de faltosos: 27%.
A divulgação das notas preliminares e do espelho de correção está prevista para 23 de janeiro de 2026. Os pedidos de revisão poderão ser apresentados entre 26 e 27 de janeiro. O resultado final será divulgado em 18 de fevereiro de 2026. O CNU oferta 3.652 vagas distribuídas em 32 órgãos federais.
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