COTAS RACIAIS

Oficial é exonerada do Itamaraty após ser reprovada em heteroidentificação

Flávia Medeiros foi retirada do cargo menos de dois meses após tomar posse, por decisão do TRF1, que suspendeu efeitos da nomeação

Mannu Leones
postado em 24/05/2026 13:22
Flávia Medeiros foi retirada do cargo em 22 de maio, menos de dois meses após tomar posse, por decisão do TRF1 que suspendeu efeitos da nomeação -  (crédito: Reprodução/Instagram)
Flávia Medeiros foi retirada do cargo em 22 de maio, menos de dois meses após tomar posse, por decisão do TRF1 que suspendeu efeitos da nomeação - (crédito: Reprodução/Instagram)

A oficial de chancelaria Flávia Medeiros foi exonerada do Ministério das Relações Exteriores na última sexta-feira (22/5), após decisão em segunda instância do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) suspender os efeitos de sua posse. Em relato publicado nas redes sociais nesta semana, ela descreveu o momento como um dos mais difíceis de sua vida. "Estou tentando assimilar ainda essa informação de que não sou mais servidora, de que não estou mais integrada ao quadro", disse.

A exoneração ocorre menos de dois meses depois de Flávia ter tomado posse no cargo, em abril de 2026, desfecho de uma batalha judicial iniciada em 2024, quando a banca de heteroidentificação do Cebraspe rejeitou sua autodeclaração como parda no concurso de 2023. À época, a banca concluiu que ela apresentava "pele clara, traços finos e cabelos lisos", características consideradas incompatíveis com as vagas reservadas a candidatos negros e pardos.

"Eu não podia conceber que uma banca de heteroidentificação, supostamente qualificada, tinha olhado para mim e enxergado uma mulher branca", afirmou Flávia em seu relato. "Meu cabelo é cacheado, minha pele não é clara. Eu tenho as características típicas de uma pessoa parda. A vida inteira me entendi como uma pessoa parda."

Aprovada em um dos concursos mais disputados do serviço público federal, que exige fluência em idiomas e conhecimentos diplomáticos específicos, Flávia recorreu administrativamente após a reprovação na heteroidentificação. Com os recursos negados, ingressou na Justiça Federal e obteve, em 2024, decisão favorável do Tribunal Regional Federal do Distrito Federal. O juiz entendeu que a banca havia cometido equívocos e reconheceu Flávia como candidata negra apta à classificação.

Em 2025, convocada como cadastro reserva, ela se mudou de Vitória (ES) para Brasília, investiu tempo e recursos financeiros, participou do curso de formação e foi aprovada na prova final. Ainda assim, enfrentou novo obstáculo: foi informada de que não poderia ser nomeada porque a decisão judicial vigente não mencionava explicitamente sua participação nas etapas seguintes. Uma nova decisão, em 2026, garantiu a posse, até que a União recorreu.

"O desembargador que analisou esse recurso entendeu que eu não teria direito a tomar posse e que a posse nunca deveria ter existido", relatou Flávia. Com isso, todos os efeitos da nomeação foram suspensos e a exoneração foi consumada em 22 de maio.

No relato, Flávia descreveu a ruptura abrupta com a rotina que havia construído no Itamaraty: "Eu estava alocada em uma divisão que eu gostava muito, com meus colegas de trabalho, completamente integrada. Estar nessa situação e não poder exercer o cargo é muito frustrante."

Até a exoneração, ela havia sido eleita secretária executiva adjunta do comitê étnico-racial do próprio Ministério, cargo que, segundo ela, sua trajetória e pertencimento à política de cotas que a banca negou. Os impactos pessoais acumulados são significativos já que além da mudança de estado, Flávia deixou o emprego anterior e assumiu contratos de longo prazo em Brasília. "É uma sensação de injustiça. De imaginar que por causa de uma falha num processo... a ordem das coisas parece muito errada", disse Flávia, em entrevista anterior ao Correio.

Para Flávia, os critérios adotados pelo Cebraspe extrapolam o que a política pública de cotas estabelece. "Eles estão criando um caráter subjetivo e não necessariamente baseado no que a política pública fala. Eu acredito que eles extrapolam muito esses critérios", afirmou.

O Cebraspe informou, em nota anterior, que as questões relacionadas ao caso são tratadas exclusivamente nos autos do processo judicial. O Itamaraty não respondeu aos questionamentos da reportagem até o fechamento da matéria. A situação segue em aberto judicialmente, com possibilidade de novos recursos.

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