Educação

PMs obrigam alunos a fazerem flexões como punição no CED 01 do Itapoã

Vídeo mostra estudantes enfileirados no pátio da escola executando exercícios sob supervisão policial. Direção da escola reconheceu "equívoco na condução do episódio". Corporação determinou afastamento dos agentes

Paulo Gontijo
postado em 25/02/2026 21:53 / atualizado em 25/02/2026 22:20
PMs obrigam alunos a fazerem flexões como punição no CED 01 do Itapoã -  (crédito: Material cedido ao Correio)
PMs obrigam alunos a fazerem flexões como punição no CED 01 do Itapoã - (crédito: Material cedido ao Correio)

Policiais militares obrigaram alunos do Centro Educacional 01 do Itapoã (CED 01) a fazer flexões como forma de punição no pátio da escola nesta quarta-feira (25/2). O vídeo recebido pelo Correio tem 25 segundos de duração e, durante todo esse tempo, os estudantes permanecem executando a atividade.

Em fileiras longas e alinhadas, dezenas de estudantes descem e sobem o corpo repetidamente. Mochilas ainda presas às costas pesam sobre os ombros dos alunos, e alguns demonstram esforço para cumprir a tarefa imposta. Os rostos denunciam cansaço e desconforto. À frente, um policial militar executa o movimento com precisão, demonstrando a forma correta do exercício. Atrás dele, meninos e meninas tentam acompanhar. 

Veja o vídeo: 

O registro foi censurado para preservar a identidade dos estudantes, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Não há confirmação oficial do número de alunos envolvidos, mas as imagens indicam cerca de 45 crianças e adolescentes participando da atividade.

Denúncia

O Correio teve acesso a uma denúncia anônima encaminhada à Comissão de Educação e Cultura da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Segundo o relato, os estudantes teriam sido obrigados a fazer flexões e a permanecer ajoelhados como punição por utilizarem blusas de frio consideradas inadequadas pela escola.

“Esse tipo de punição é constrangedora, desproporcional e não tem caráter pedagógico. A disciplina escolar não pode ultrapassar os limites do respeito e da dignidade dos estudantes”, afirma o documento.

A denúncia também cita o artigo 18 do ECA, que garante proteção contra tratamento vexatório ou constrangedor, além do princípio da dignidade da pessoa humana previsto na Constituição Federal.

Para o Correio, a Polícia Militar (PMDF) informou que tomou conhecimento da situação e que a direção da escola reconheceu “equívoco na condução do episódio”. 

Segundo a corporação, foi determinada a substituição e o afastamento dos policiais que atuavam na unidade.

“A corporação ressalta que não compactua com qualquer prática que possa ser interpretada como constrangedora ou inadequada ao ambiente escolar. O caso será devidamente apurado para o completo esclarecimento dos fatos e eventual adoção das medidas administrativas cabíveis.”

A PMDF também declarou que permanece acompanhando a situação e reforçou compromisso com os princípios do ECA e da Constituição, que asseguram a proteção integral de crianças e adolescentes.

Procurada, a direção do CED 01 do Itapoã afirmou que o caso foi esclarecido e que todas as providências necessárias foram tomadas internamente.

“Toda essa situação já foi esclarecida e todas as medidas tomadas. Já conversamos com os pais — temos uma ligação muito grande com eles — e estamos tranquilos em relação a isso. Preferimos manter esse contato direto com as famílias.”

Em nota, o Sindicato dos Professores (SINPRO-DF) afirmou que o episódio expõe contradições na política educacional e criticou a punição aplicada aos estudantes. “Hoje, enquanto o governo nega uniformes, a escola cívico-militar pune estudantes com flexões no pátio — não pelo aprendizado, mas pela cor da roupa que vestem. A humilhação tem cor: a da falta de respeito e da ausência do Estado”, declarou o sindicato, que classificou a situação como constrangedora e incompatível com o ambiente escolar.

O Correio também teve acesso a documentos relacionados ao episódio. Até o momento, não há confirmação oficial sobre quantos estudantes foram submetidos à punição nem se houve outras medidas disciplinares aplicadas no mesmo dia.

O caso segue sob apuração.

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