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TECNOLOGIA

IA na educação: 'Medo é justificado, mas pânico atrapalha'

Cerca de 85% das escolas brasileiras não têm política de IA, mas 80% dos alunos já usam IA diariamente, mostra pesquisa

As escolas têm errado na forma de lidar com a inteligência artificial? Cerca de 85% das escolas brasileiras não têm política de IA, mas 80% dos alunos já usam IA diariamente, segundo dados são da Teachy, uma plataforma de IA voltada para educação na América Latina.

É normal que as escolas demorem a se adaptar às novas tecnologias, afinal, adaptar metodologias de ensino exige estudo, diálogo e observação. Mas tem alguns caminhos que, aos poucos, começam a ficar mais evidentes.

Para Pedro Siciliano, cofundador e CEO da Teachy, o principal ponto é que a escola não deve tratar IA como ferramenta proibida. Isso, segundo especialista, é o mesmo que empurrar o problema para debaixo do tapete, porque vai incentivar o uso ‘clandestino’ da inteligência artificial. Também não é ideal usar a IA para aquele tradicional “copia e cola”, que sempre foi extremamente limitante e que continua a ser. Nada mudou.

Esse uso sem critério pode atrapalhar o desenvolvimento de habilidades importantes, como criatividade e pensamento crítico, ressalta Siciliano, que é engenheiro formado pelo IME, foi professor, atuou na McKinsey e na Descomplica antes de fundar a EdTech em 2022, ao lado de Fábio Baldissera.

E para encontrar alguma efetividade nesse uso não tem mistério: é preciso preparar os professores. Só 2% das escolas no Brasil oferecem treinamento, de acordo com a pesquisa. Enquanto isso, os próprios professores e os estudantes usam a IA sem qualquer orientação. Então, na avaliação dele, o medo da IA é justificado, mas entrar em pânico é pior. Por isso, o uso com acompanhamento é a melhor alternativa.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista: 

Quais são os principais erros cometidos por escolas na adoção e na supervisão do uso de IA?

O primeiro deles é tratar a IA como ferramenta proibida. Empurrar o problema pra debaixo do tapete, só adia as medidas que precisam ser tomadas para lidar com ele, enquanto o uso “clandestino” continua e cria suas próprias regras. Da mesma forma, tratar a IA como ferramenta de cola é muito limitante. A IA ajuda ou atrapalha no desenvolvimento de habilidades importantes, como criatividade e pensamento crítico, habilidades importantes pra 2030, segundo o Fórum Econômico Mundial. Isso exige, portanto, que todo modelo de ensino e avaliação seja repensado considerando a IA. Pra isso, professores, líderes escolares, funcionários, pais e alunos precisam receber treinamento adequado de como lidar com as ferramentas. Só 2% das escolas do Brasil oferecem treinamento formal para seus professores, enquanto mais de 70% dos profs e alunos usam IA.

Por que as escolas perderam o controle da IA na educação?

Porque alunos adotam mais e mais rápido. Só 14% das escolas oferecem algum tipo de diretriz de uso de IA e dessas, só 14% oferecem treinamento formal. Isso significa que 2% das escolas oferecem treinamento formal de IA no Brasil e o uso por alunos e professores só aumenta.

E como os estudantes estão usando a IA?

O pior uso é aquele para respostas rápidas de exercícios, deveres de casa e até escrever redações. Mas tem um uso perigoso que é o da pesquisa. ChatGPT, Gemini e Grok condensam informações e escrevem textos coesos, com respostas afirmativas, mas quanto pedimos a fonte e o dado, não são capazes de dar, porque o resultado foi uma inferência a partir do contexto. Essa habilidade de selecionar, fazer curadoria e checar informações é essencial para que todos tenhamos ainda mais alunos em formação.

Há muito receio, entre pais, escolas, empresas, e até no nível universitário, sobre as consequências do uso da IA generativa. Esse medo se justifica?

O medo é justificado, mas o pânico atrapalha. Pesquisas estão mostrando que o uso livre da IA atrapalha, mas o uso acompanhado, em etapas, demonstrando o pensamento e as interações, ajuda e muito na aprendizagem e no desenvolvimento de habilidades. Isso vale para as ciências exatas e humanas. Os riscos são de dependência cognitiva, por isso os processos acompanhados e faseados são importantes para colocar a IA no lugar de co-piloto. Por isso, instituições de ensino precisam de regras, acompanhamento, treinamento. Pais também devem fazer parte desse letramento.

De que forma a IA pode ser aliada? Como adaptar práticas pedagógicas?

Humanos devem estar no controle e usar a IA como assistente. Por isso, os professores devem definir as regras e garantir que elas continuem dando protagonismo para os alunos.

  • Num processo de escrita, a IA pode ser usada para ideias, no início, e depois para confrontar o que foi escrito pelo aluno. O aluno deve conceber as perguntas que quer fazer sobre seu próprio texto para a IA.
  • Para avaliações, o foco sempre deve ser no processo e não no resultado final, certo ou errado. Professores devem perguntar “quais suas hipóteses?", “qual era o plano inicial?", “por que fez essa pergunta?", “por que não aceitou essa resposta?".
  • Para o professor, a IA pedagógica, como a Teachy, ajuda a ganhar tempo porque é alinhada à BNCC, ou seja, ao currículo nacional. Assim, fazer planos de aula, montar atividades, listas de prova, que antes demorava horas, passa a ser muito mais rápido, porque o professor refina para seus critérios e métodos de ensino.

Na sua avaliação, como se pode equilibrar o uso de telas e de IA em geral e outras plataformas mais tradicionais de apredizado?

IA não precisa significar tempo de tela. O professor Gerson, da Venezuela, usou IA pedagógica para criar atividades offline para alunos, como escape room de matemática. O professor Moisés, do Brasil, usou IA pedagógica nos bastidores de uma escola judaica avessa à tecnologia e usou os recursos para engajar os alunos. O professor Danilo pediu aos alunos para fazerem histórias em quadrinhos de química, à mão. A professora Itzel, do México, fez um zoológico no parquinho de areia usando pictogramas para alunos com TEA (transtorno do espectro autista). Todos usaram a Teachy para isso. Seja para planejar, criar ideias, criar imagens, avaliar.