Educação

Fátima Freire: "A escola está deixando de ser espaço de humanização"

Fátima Freire, filha de Paulo Freire, defende em livro que a autoridade de quem ensina se apoia em um vínculo humanizado

João Pedro de Lara Resende
postado em 15/10/2026 03:25
Ser professor hoje, sobretudo para quem pisa
Ser professor hoje, sobretudo para quem pisa "o chão da sala de aula todos os dias", é, na avaliação dela, uma tarefa hercúlea. - (crédito: Shirley Stolze)

Aos 77 anos, Fátima Freire Dowbor chega ao Dia do Professor com um livro novo e um velho hábito de fala: encerra boa parte das frases com um "estás a perceber?". A construção vem do português europeu. Portugal foi um dos oito países em que ela viveu no exílio. Quando a pergunta aperta, escapam expressões do Recife, onde nasceu: "danou-se", "eita, Deus". Ao falar dos pais, diz "paizinho" e "mãezinha". O paizinho é Paulo Freire.

O livro Pedagogia da relação, lançado neste mês pela editora Cortez, trata do vínculo entre quem ensina e quem aprende, que ela considera o alicerce da autoridade docente. "Estou convencida de que a escola, de forma acelerada, está deixando de ser o espaço crucial de humanização para todos nós", afirma a educadora em entrevista ao Correio. "Nós não podemos permitir isso."

É o terceiro livro dela sobre educação, escrito após mais de cinco décadas de trabalho na área, entre salas de aula, cursos de formação e conversas com professores no Brasil e no exterior.

Aprender a escutar

Fátima tinha 14 anos quando o golpe militar de 1964 derrubou o presidente João Goulart. Meses antes, o governo federal havia adotado a proposta de alfabetização do pai no Programa Nacional de Alfabetização, extinto pelo novo regime. Paulo Freire foi preso, deixou o país e reuniu a família no Chile.

"Lembro. Foi terrível, foi apavorante", diz ela, sobre o dia em que soube da prisão. "Eu nunca imaginei que ia viver 17, 18 anos de exílio por algo que eu não fiz", conta.

Foram quase duas décadas fora do Brasil. Fátima concluiu o ensino médio em Santiago. Estudou filosofia em Coimbra, línguas românicas em Varsóvia e psicopedagogia em Genebra, no Instituto Jean-Jacques Rousseau. O primeiro filho nasceu na Polônia; o segundo, nos Estados Unidos. Perguntada se a formação itinerante foi uma escolha, responde: "Quisera eu. Se fosse escolha, eu teria feito no Brasil".

Do exílio, ficou a sensação de viver "constantemente em sala de espera". Ficou também o que ela chama de "um aprendizado de escuta fantástico". "Quem é estrangeiro, quem está marginalizado, não fala muito. Como é que eu vou falar se não é o meu país? Como vou me posicionar se não é a minha cultura? Então, você aprende a escutar", conta.

A escuta, segundo ela, ensina a ler o corpo. "Você aprende a perceber quando alguém está dizendo algo e o corpo está dizendo outro." Vem daí a importância que dá ao corpo e às emoções. "O exílio me deu o aprendizado de ter vivido e ter sentido na pele, no meu corpo, o que é ser uma marginal."

A primeira aula da vida dela também foi longe de casa: na Guiné-Bissau, ex-colônia portuguesa na África com a qual Paulo Freire colaborou nos anos 1970. "Eu aprendi a dar aula na África, e não no Brasil", relata Fátima Freire.

A volta ao Brasil, no início dos anos 1980, exigiu recomeçar do zero. Formou-se em pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) para ter um diploma brasileiro. Nunca havia obtido um emprego no país e não tinha sequer carteira de trabalho. "Na minha ignorância, eu pensava que, quanto mais eu mostrasse o meu currículo, mais as portas iriam se abrir. Foi justamente o contrário", lembra. "Passei nove meses procurando emprego e ninguém me queria."

Além do sobrenome, pesava a falta de experiência. "Eu estudei muito, mas não tinha ainda a prática, porque não me deixaram ter", observa.

Mais tarde, tornou-se sócia e diretora pedagógica da escola O Poço do Visconde, em São Paulo. "Eu era uma privilegiada porque era uma das donas. Então, pus em prática toda a minha metodologia", relata. Uma das ideias veio da maternidade em trânsito. A preocupação em garantir alguma estabilidade a duas crianças que mudavam de país com frequência virou princípio pedagógico: a importância do espaço na formação de cada pessoa.

O prefácio que faltou

Foi também no Poço do Visconde que Fátima teve o pai como parceiro. Paulo Freire topava acompanhá-la nas reuniões com as famílias dos alunos. "Nós dois, na frente do grupo de pais, a conversar sobre a educação. Era uma experiência fantástica", recorda. Ele, que vivia atarefado, brincava que só mesmo a filha o faria sair de casa à noite para trabalhar.

A relação entre os dois não era de reverência. "Eu questionava muito meu pai", conta. Com o tempo, ele passou a mandar a ela os livros que publicaria antes de seguirem para a gráfica. "E eu criticava. Era uma relação muito boa."

Quando Paulo Freire a convidou para escrever o prefácio de Pedagogia da autonomia, publicado em 1996, Fátima não conseguiu. "Só que eu não sabia que ia ser o último livro dele." O educador morreu em 2 de maio de 1997.

O primeiro livro dela, Quem educa marca o corpo do outro, de 2008, nasceu dessa dívida. "É como se fosse o prefácio que eu não fiz para a Pedagogia da autonomia." Vieram depois, em 2023, Uma vida marcada pela educação, sobre as experiências que a formaram como pessoa e educadora; e, este ano, Pedagogia da relação, que ela enxerga como o fecho de uma trilogia. O novo título traz a parte didática e metodológica, "sem querer ser impositiva, autoritária, porque eu não acredito nisso". Fátima começou a escrever um quarto livro sobre a coragem de viver o envelhecimento de forma positiva.

Ela credita ao pai ter seguido a mesma área profissional e, ainda assim, ter trilhado um caminho próprio. "É um privilégio que não tem tamanho. É uma honra ter nascido onde eu nasci", diz. Ao mesmo tempo, conta que trabalha em terapia e em análise para não se colocar "no lugar da expectativa do outro".

Ao fim das palestras, que prefere chamar de diálogos, forma-se uma fila de professores para abraçá-la. "Quem tem privilégio tem que dividir o privilégio que recebeu. É por isso que eu vou até a cova brigando para socializar o que eu aprendi com o meu pai, da forma como eles me educaram, e o que eu própria construí ao longo de todos esses anos de trabalho e de caminhada."

Da mãe, Elza Freire, morta em 1986, diz ter recebido "a parte estética". "Minha mãe era uma arte-educadora incrível. Acho que herdei dela essa capacidade de pôr em prática o sentir." Na memória da filha, o casal se completava. "A mãezinha tinha uma capacidade prática e o paizinho, uma capacidade reflexiva."

Dessa combinação, segundo Fátima, nasceu Angicos, a experiência de 1963 no sertão do Rio Grande do Norte em que cerca de 300 trabalhadores foram alfabetizados em 40 horas de aula, com o método que o pai "não gostava que chamassem de método". "Sem a mãezinha, nunca teria surgido Angicos." É ela também quem conta por que Paulo Freire abandonou a carreira de direito: um dos primeiros casos como advogado foi o de despejar uma família. "Ele não suportou. E aí, ele desistiu."

Os 105 anos do nascimento do educador, completados em setembro, não encerraram os ataques contra ele. "Isso ainda mexe, dói muito", admite. Em 2017, a Comissão de Direitos Humanos do Senado rejeitou uma sugestão popular para retirar dele o título de patrono da educação brasileira, concedido em 2012. A família decidiu não responder. "As pessoas nem sequer sabem qual é o pensamento real, nem sequer leram e não entendem", afirma. "O povo defende, como defendeu para não tirarem o nome dele. Não somos nós, da família, que vamos ter que brigar por isso."

Rastro e marca

Nas conversas com educadores pelo país, Fátima diz encontrar professores "apavorados" e "assustados", sobrecarregados e com problemas emocionais. O trabalho, que deveria trazer realização e prazer, virou um sacrifício. Ela empresta a voz a eles: "Eu, professor, hoje em sala de aula, morro de medo de ser processado pelas famílias".

Ensinar hoje, sobretudo para quem pisa "o chão da sala de aula todos os dias", é, na avaliação dela, uma tarefa hercúlea. Nos últimos anos, ela tem visto pais e professores com dificuldade de assumir a própria autoridade, e crianças cada vez menos expostas à frustração. "Pai e mãe, a única coisa que querem é que os filhos sejam felizes. Eu também quero que meus filhos sejam felizes. Mas a qual preço?"

Para ela, o professor que ocupa o lugar de autoridade, "não de autoritarismo", precisa saber qual opção política fez em relação ao aluno. "Não tem mistério. Ou eu sou a favor de que você tenha consciência, seja crítico, saiba pensar — e eu acredito que você é capaz de pensar; ou eu acredito que você não sabe nada, que eu sei tudo e que você não tem mais do que ficar calado", explica. "Não dá para educar sem se posicionar politicamente. E deixo claro: isso não é fazer politicagem."

Quando se apontam os problemas das escolas, lembra Fátima, a resposta costuma ser a mesma: "Isso é o sistema. Sempre foi assim". "E nós nos esquecemos de que quem faz o sistema somos nós." Ela critica a competição entre professores e o isolamento entre turnos, em que quem trabalha de manhã mal conhece quem dá aula à tarde. "Ninguém faz nada sozinho."

O que ela recusa é culpar a tela. "Por que é que eu vou interditar a tela? Por que é que eu, enquanto educador, não faço bom uso dela?", questiona. O risco, para ela, é outro. "Se eu não formo o meu aluno para ser capaz de aprender a discernir o que é violência humana e o que não é, eu estou com muito problema."

A tela, porém, não substitui o docente. "As telas e as informações não te dão a presença do professor." O vínculo, explica, começa a se formar no primeiro momento de vida, na família, e exige coragem. "Para eu construir um vínculo inteiro com o meu aluno, eu tenho realmente que ter coragem de estar com ele. E nós estamos com uma extrema dificuldade de simplesmente estar. Eu não sei onde diabo nós estamos, mas nós não estamos com o outro", lamenta a professora.

Convidada a revisitar a frase que dá título ao primeiro livro, Fátima separa duas palavras. "O professor só marca o corpo do outro na presença. Na tela, ele deixa rastro", diz. "O rastro vai embora, desaparece com o tempo. Amanhã, eu já não me lembro mais. A marca fica no seu corpo e lhe dá a possibilidade de ressignificar o que o professor deixou", compara.

Perguntada se o professor brasileiro de 2026 está perto do que Paulo Freire pensou para a educação, solta um "danou-se". Em seguida, pondera que ele "pode não estar muito próximo na ação, mas está muito próximo no desejo". O que o afasta, segundo ela, é a pressão nas escolas.

Para quem pensa em desistir, o recado sai direto: "Não desista, você é capaz. Se não se sente capaz nesse momento, procure ajuda, peça ajuda, se reveja". A educadora sugere que o professor se questione sobre o motivo de continuar, ainda que tenha ingressado na profissão sem plena consciência da escolha.

A última pergunta da entrevista a leva de volta ao Recife de 1964. O que diria à menina de 14 anos prestes a deixar o país? "Eita, Deus", reage. Depois, responde: "Tenha força quando estiver longe e fora, porque as raízes vão lhe trazer de volta".

E completa: "Foi o que me salvou".

 


  • Livro: Pedagogia da Relação
    Livro: Pedagogia da Relação Foto: Divulgação
  •  Artes de Fátima Freire
    Artes de Fátima Freire Foto: Fátima Freire
  •  Artes de Fátima Freire
    Artes de Fátima Freire Foto: Fátima Freire
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