ASTRONOMIA

Obra mapeia sistema astronômico indígena e exalta legado de professor

Mapas do povo guarani incluem tanto os agrupamentos estelares quanto as nuvens de poeira, manchas claras e regiões escuras da Via Láctea

Aline Gouveia
postado em 02/06/2026 09:44
A constelação do Cervo do Pantanal surge no leste na segunda quinzena de março e indica a chegada do equinócio de outono. Para os guarani, esse evento marca o início do Tempo velho, período que se estende do começo do outono ao começo da primavera -  (crédito: E-book O céu dos povos originários: o legado de Germano Afonso)
A constelação do Cervo do Pantanal surge no leste na segunda quinzena de março e indica a chegada do equinócio de outono. Para os guarani, esse evento marca o início do Tempo velho, período que se estende do começo do outono ao começo da primavera - (crédito: E-book O céu dos povos originários: o legado de Germano Afonso)

O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP) publicou o livro digital gratuito O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso. A obra atende a uma antiga demanda de educadores e editoras por ilustrações em alta resolução sobre a etnoastronomia brasileira, e é também um registro do trabalho do professor Germano Bruno Afonso, pesquisador guarani e um dos pioneiros nos estudos das interpretações celestes indígenas. Afonso foi professor de Física da Universidade Federal do Paraná. Ele morreu em 2021 aos 71 anos, vítima de covid-19.

Os mapas do povo guarani incluem tanto os agrupamentos estelares quanto as nuvens de poeira, manchas claras e regiões escuras da Via Láctea. A publicação apresenta cinco grandes constelações sazonais, com imagens que sobrepõem os traçados indígenas às regiões do céu conhecidas pela astronomia ocidental. Cada imagem funciona como um marcador preciso no calendário do ano. O livro é da graduanda em astronomia Gabriela Silva Salustiano e dos professores Laerte Sodré Jr. e Vera Jatenco Silva Pereira.

“As constelações fazem parte dos ciclos da natureza e, no passado, entender os ciclos da natureza era extremamente necessário para a sobrevivência. Hoje, se a gente quer um milho, a gente vai no mercado e compra. Só que antigamente eles precisavam saber quando era a época certa de plantar, porque a sobrevivência deles dependia disso”, afirmou Gabriela ao Jornal da USP.

A estudante utilizou o software Aladin Sky Atlas e as coordenadas do Stellarium para desenhar manualmente os traçados indígenas sobre as estrelas correspondentes conhecidas pela ciência ocidental, com base nos trabalhos do professor Germano Afonso. “Ele já tinha feito isso, deixou escrito: ‘Tal estrela representa o bico da Ema’. E aí eu fui pegando cada estrelinha, fui arrumando para conseguir pegar todas dentro da imagem”, conta.

O livro cumpre um papel pedagógico alinhado às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que exige a inclusão e valorização da cultura e dos saberes dos povos originários nas escolas brasileiras, e também apoia a implementação da Lei 11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena na educação básica brasileira.

É possível baixar gratuitamente o livro O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso em PDF no site do IAG.

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