As constatações da Escuta Nacional de Professores e Professoras que Ensinam Matemática revela profunda conexão com a prática docente quando observamos o trabalho de profissionais referência na área. O Correio ouviu professores que atuam no ensino da disciplina em todas as fases da educação básica e em comum eles revelam a necessidade de se conectar com o cotidiano dos estudantes, independentemente da idade.
Na educação infantil, é o momento de se trabalhar o letramento matemática, que envolve noções básicas como alto e baixo, pequeno e grande e formas geométricas. Pode parecer simples, mas virá daí a base para sustentar as conexões necessárias no restante da caminhada na educação formal. No ensino fundamental, os conceitos avançam, mas o uso de materiais concretos ainda se mostra importante. Já no ensino médio o encantamento exige novas estratégias e o domínio de plataformas múltiplas, além de escuta atenta para se conectar o universo dos alunos.
Veja como esses professores, referências em suas comunidades, encararam este desafio com maestria:
Encanto à primeira vista
A matemática sempre encantou a professora Adriana Rocha, 53 anos, mesmo antes de ela decidir que queria seguir carreira na docência. A escolha aconteceu no segundo ano do ensino médio, justamente a primeira vez em que ela sentiu dificuldade na disciplina sempre tão amada. "Decidi que eu precisava ser a professora que eu queria encontrar", afirma.
Adriana sabia que se alguém tivesse explicado de uma maneira mais didática, ela teria aprendido com mais rapidez. E é isso que ela persegue até hoje. "Minha docência é baseada numa educação humanizada, na proximidade com os alunos", relata a professora, que se formou em 2002, pelo UniCeub, e foi aprovada no concurso da Secretaria de Educação dois anos mais tarde.
Seja em Sobradinho, onde começou a carreira, seja no Paranoá, onde leciona hoje, ela mantém os mesmos princípios, e revela que pouquíssimas vezes teve problemas de relacionamento com os estudantes. "É cultural os alunos terem dificuldade com matemática ou uma certa aversão à disciplina. Tento alcançá-los observando o cotidiano e que tipo de linguagem atrai os jovens hoje em dia", explica.
Um dos exemplos é a gincana planejada para incentivar os estudos com foco no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), porta de acesso para instituições de ensino superior federais. "Fazemos uma gincana com eles em sala de aula, chamada Senhores do Enem. A cada bimestre, temos três dias intensivos em que trabalhamos de forma dinâmica, com conteúdo da série, mas em formato de questões que caíram no Enem. Tudo de maneira muito lúdica", detalha a professora.
Adriana é diretora da Escola Classe Auto Interlagos, mas em 2022 sentiu falta da sala de aula e retomou a prática docente no CED Darcy Ribeiro, no período noturno. A paixão pelo ensino ecoa na família. As três irmãs de Adriana também se tornaram professoras. Para se formar, organizaram um revezamento familiar: enquanto uma estava, outra trabalhava, e assim sucessivamente.
O resultado do esforço reflete diariamente, em recompensas singelas que enchem Adriana de alegria. Tem aluno que diz que só vai para escola por conta da aula dela. "É um começo", diverte-se. Ela reforça a importância da formação continuada. "As coisas não são estanque", observa. Além do curso de licenciatura em ciências, biologia e matemática, Adriana fez especialização em matemática e estatística pela Universidade Federal de Lavras e para professor do ensino médio na Universidade de Brasília (UnB) e, quando teve uma aluna com altas habilidades, se inscreveu em um curso para estudar mais a respeito da condição. "O tempo que demorei para perceber isso me incomodou."
A missão é complexa, e os desafios da inteligência artificial e da violência extramuros, em uma comunidade ainda muito marcada por vulnerabilidades, frequentemente se impõem. "Temos demandas maiores do que o sistema suporta. A cultura da paz não é algo fácil de se implementar, e a luta contra o mau uso da inteligência artificial também não", avalia a profissional.
Ensino como missão
Com mais de 35 anos de experiência no ensino da matemática, o professor Fábio Tosta, 54, pode dizer com segurança que relacionar o ensino da disciplina ao cotidiano dos estudantes é a estratégia de maior sucesso. Nos jornais se trabalha porcentagens e numa exibição do filme Interestelar, as Leis de Newton, por exemplo.
Fábio dá aulas “desde que se entende por gente”, como se diz popularmente. É que ele começou a ensinar os vizinhos, ainda adolescente. Quando ingressou no curso de licenciatura na Universidade Católica de Brasília (UCB), também foi monitor de diversas disciplinas — física, química, ciências e matemática, é claro.
“Desde o início, eu queria fugir dos padrões tradicionais e envolver a matemática com situações do cotidiano, por meio de dinâmicas e brincadeiras. Usava o ginásio, quadras, ambientes com natureza, dava aulas no pátio”, elenca. Visitas à Água Mineral, ao Parque Nacional e a pontos históricos de Brasília também eram frequentemente incluídas nas aulas para estudantes da segunda fase do ensino fundamental. Afinal, como explicar geometria plana e espacial sem transitar por diferentes espaços tridimensionais?
Hoje, no Centro de Ensino Fundamental 3 de Taguatinga Sul, quem caminha pelos corredores se surpreende, por exemplo, com os desenhos nas paredes. O giz deixa a lousa para ganhar um novo canva, em qualquer parte da unidade de ensino onde estiverem os alunos do professor Fabão, como também é carinhosamente chamado.
E a liberdade de agir não significa bagunça: as aulas são cuidadosamente planejadas e distribuídas ao longo da semana. Duas a três aulas por semana são dedicadas à geometria, álgebra e aritmética. Os demais conteúdos se encaixam no restante do calendário semanal. “Os professores reclamam da disciplina dos estudantes — isso acontece muito, em todas as escolas e níveis.
O elemento fundamental para quebrar isso é o jeito didático das aulas, o tipo de experimentação que você vai levar praquela aula”, atesta Fábio, que além das especializações na área se interessou por estudar neurociência e neuroeducação com o objetivo de aprimorar as aulas para manter os estudantes mais motivados.
A experiência de mais de três décadas em 15 escolas e cursos preparatórios do Distrito Federal rendeu até livro com dicas para colegas de profissão: Matemática no cotidiano — 120 formas de ensinar matemática de forma lúdica. A segunda obra está prestes a ser lançada. “Tenho um grande amor pela matemática, e isso me traz uma grande satisfação”, emociona-se Fábio, que inclusive, nasceu no Dia Nacional da Matemática, celebrado em 6 de maio. A data homenageia Júlio César Mello de Souza, que escreveu, sob o pseudônimo Malba Tahan, o clássico O homem que calculava, e que é patrono da cadeira ocupada por Tosta na Academia Brasileira de Ciências, Arte, História e Licenciatura (Abrasci).
Em seu último ano como professor da rede pública, ele recebeu, na sexta-feira, o reconhecimento de Herói da Escola, concedido pelo projero Na Moral, do Ministério Público do DF e Territórios, título conquistado após a votação dos alunos.
Muito além do 1, 2, 3
A professora Suely da Silva Claudio, 40 anos, descobriu-se na matemática em 2018. À época ela já lecionava, mas foi quando se viu de volta à sala de aula como estudante e como formadora de professores que percebeu a necessidade de preencher lacunas e melhorar o próprio desempenho.
Suely atuava na Regional do Recanto das Emas quando foi convidada para formar professores no Alfaletrando. Na mesma época, procurou a especialização na área pelo Centro de Formação Continuada de Professores da Universidade de Brasília (Ceform/UnB), onde encontrou inspiração na professora Raimunda Oliveira para melhorar a prática pedagógica.
“Muitas vezes, até sabemos o que é preciso fazer, mas nos perdemos quando não há a teoria consolidada. Quando conseguimos fazer esse enlace com a teoria e a prática acabamos percebendo como alcançar as aprendizagens das crianças.”
Hoje, Suely trabalha no Centro de Educação Infantil de Ceilândia, onde é também supervisora pedagógica, e conta que descobriu na literatura a melhor forma de trabalhar o letramento matemático com os estudantes.
Uma das obras preferidas para este fim é Quem vai ficar com o pêssego, que inspira conversas sobre qual animal é mais baixo e qual é mais alto, por exemplo. Material concreto, como coleções de tampinhas, brinquedos e situações problemas do cotidiano, como a simulação de uma ida ao supermercado também fazem parte desse repertório.
“Percebo que, quando oportunizamos vivências significativas e respeitamos a forma como elas constroem seus conhecimentos, favorecemos o desenvolvimento do pensamento lógico, da autonomia, da criatividade e da confiança para resolver desafios."
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