Metade da juventude brasileira concilia simultaneamente estudos, trabalho e atividades de cuidado, enquanto cerca de 90% dos jovens entre 15 e 29 anos acumulam pelo menos duas dessas responsabilidades. Os dados são do estudo Juventudes e a política de cuidados: anotações sobre a condição juvenil, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), elaborado com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Anual de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento também desmonta a ideia de que há uma grande parcela de jovens "nem-nem" — que não estudam nem trabalham — ao mostrar que muitos estão dedicados ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado.
Mulheres sobrecarregadas desde cedo
A pesquisa revela que o peso dessas atividades não é distribuído igualmente. Mulheres, especialmente as negras, concentram a maior carga de trabalho doméstico e de cuidados, o que afeta diretamente a permanência na escola e a inserção no mercado de trabalho.
Entre as jovens, cerca de 11%, o equivalente a mais de 2,6 milhões de brasileiras, vivem uma jornada tripla: estudam, exercem um trabalho remunerado e ainda são responsáveis pelos afazeres domésticos e pelo cuidado de outras pessoas.
O estudo mostra que homens jovens dedicam entre 8,9 e 13,7 horas semanais às tarefas domésticas e de cuidado. Já entre as mulheres de 25 a 29 anos, essa média chega a 21,2 horas por semana. O cenário é ainda mais desigual para as mulheres negras, que, nessa mesma faixa etária, dedicam 109,4% mais tempo ao cuidado do que homens brancos da mesma idade.
Essa sobrecarga também tem reflexos na educação e no emprego. Segundo a pesquisa, o trabalho de cuidado é o principal motivo para que 56% das jovens estejam fora do mercado de trabalho e para que 31% deixem de frequentar a escola.
Os dados mostram que as responsabilidades aumentam conforme a idade. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, 93% frequentam a escola, mas 78,4% já conciliam os estudos com atividades domésticas ou de cuidado. Na faixa de 18 a 24 anos, 42,3% das mulheres precisam equilibrar um emprego remunerado com o trabalho de cuidado em casa. Já entre 25 e 29 anos, 57,4% vivem a chamada dupla jornada, dividindo o tempo entre o trabalho e os cuidados com a casa ou a família.
O levantamento também traça um retrato da juventude brasileira. Em 2022, o país tinha cerca de 45 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, o equivalente a 22,3% da população. Desse total, 8,6 milhões tinham entre 15 e 17 anos, 21,2 milhões estavam na faixa de 18 a 24 anos e 15,4 milhões tinham entre 25 e 29 anos.
Na educação, 73,4% dos jovens de 19 anos haviam concluído a educação básica. Já no mercado de trabalho, sete em cada dez pessoas entre 18 e 24 anos estavam empregadas ou procurando uma ocupação.
Os impactos da sobrecarga
Além de revelar a rotina intensa dessa parcela da população, a pesquisa destaca os impactos dessa sobrecarga. Segundo a Fiocruz, conciliar estudo, trabalho e cuidados pode provocar esgotamento físico e mental, reduzir o tempo destinado ao descanso, ao lazer e à convivência social e, em muitos casos, obrigar os jovens a abandonar uma dessas atividades.
O estudo conclui ainda que o conceito de jovens "nem-nem" não reflete a realidade da maioria dessa população. Grande parte dos jovens que não estuda nem possui emprego formal dedica boa parte do tempo ao cuidado de filhos, irmãos, idosos ou à manutenção da casa, atividades que não são remuneradas e, muitas vezes, permanecem invisíveis nas estatísticas.
O estudo defende que políticas públicas voltadas ao cuidado, além de medidas que reduzam a sobrecarga de trabalho, são fundamentais para garantir que esses jovens tenham acesso à educação, ao lazer e ao desenvolvimento pessoal.
A pesquisa foi realizada em parceria entre o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Ministério da Saúde e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
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