Administração que transforma o país

Estratégias projetam o Brasil com gestão de excelência que fortalece as regiões e agregam valor à sustentabilidade

Empresas que atuam com audiovisual descentralizado e com turismo consciente exemplificam como a administração pode fortalecer polos regionais e transformar a preservação cultural e ambiental em ativos econômicos

Patrick Selvatti
postado em 12/07/2026 06:00 / atualizado em 12/07/2026 06:00
TRA-1207-capa_trabalho_2.jpg -  (crédito: maurenilson)
TRA-1207-capa_trabalho_2.jpg - (crédito: maurenilson)

Se na primeira parte da série de reportagens — publicada em 28 de junho — a transformação se dá  por meio da valorização das pessoas — seja com o enriquecimento humano ou com a democratização da educação —, essa segunda tem por propósito revelar como a administração pode impulsionar o desenvolvimento econômico ao fortalecer setores estratégicos da economia criativa.

Um exemplo dessa visão está na Aicon Ações Cinematográficas, empresa brasiliense que nasceu para suprir uma deficiência histórica do mercado audiovisual fora do eixo Rio-São Paulo e que, hoje, atua como uma das principais fornecedoras de infraestrutura técnica para produções da região Centro-Oeste.

O recente reconhecimento internacional do cinema brasileiro, impulsionado por produções como os filmes Ainda estou aqui — que contou com atuação da Aicon nas cenas gravadas em Brasília — e O agente secreto, recolocou o país no centro das discussões sobre a força de sua produção cultural. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o setor audiovisual movimenta mais de R$ 25 bilhões por ano na economia brasileira e impacta diretamente uma cadeia que envolve centenas de milhares de trabalhadores em atividades que vão muito além das telas, alcançando áreas como serviços, turismo, transporte e tecnologia. 

Mais do que conquistas artísticas, essas obras evidenciam o potencial do audiovisual como ferramenta de desenvolvimento econômico, geração de empregos, fortalecimento da identidade nacional e projeção internacional do Brasil. Embora atue nos bastidores das produções, a Aicon Ações Cinematográficas defende uma visão de gestão que enxerga o audiovisual como uma indústria estratégica para o país e como um instrumento capaz de transformar realidades por meio da cultura. 

Histórias sendo contadas

A empresa existe desde 2018, mas o fundador, Messias Filho, é um profissional que trabalha em sets de filmagem desde a década de 1990 e, por isso, o filho e sócio Isaac Aicon cresceu acompanhando de perto o trabalho de centenas de profissionais responsáveis por transformar ideias em narrativas capazes de emocionar plateias. Essa vivência moldou uma visão de gestão baseada na valorização do capital humano e no entendimento de que nenhuma tecnologia substitui talento, criatividade e formação contínua. “Na Aicon, a gestão não é feita apenas olhando planilhas ou números. Ela é feita entendendo a realidade do set, ouvindo equipes, antecipando problemas e investindo em estrutura para que o criativo possa acontecer com segurança e eficiência. Empresas fortes são construídas por pessoas fortes”, resume Isaac. 
Essa preocupação ganha relevância especial em Brasília. Embora a capital federal possua uma tradição importante no cinema nacional, boa parte da estrutura do mercado audiovisual brasileiro ainda permanece concentrada entre Rio de Janeiro e São Paulo. Para Isaac, fortalecer polos regionais significa ampliar vozes, perspectivas e narrativas capazes de representar a diversidade do país. “O Brasil é extremamente criativo, mas ainda precisamos descentralizar mais o crescimento da indústria”, afirma.
 17/06/2026 Davi Pereira/CB/D.A Press. Evento: Aicon Cinematografico. Personagem principal: Issac Aicon, e Messias Filho
Liderada por Messias Filho e Issac Aicon, a Aicon Ações Cinematográficas trabalhou nas filmagens em Brasília do vencedor do Oscar Ainda estou aqui (foto: Davi Pereira/CB/D.A Press)
Para o mestre em economia Fábio Lúcio Costa, o empoderamento de produtoras e empresas de infraestrutura técnica locais representa um passo decisivo para que o audiovisual brasileiro deixe de ser visto apenas como manifestação cultural e passe a ocupar posição estratégica na economia. Segundo ele, que também é presidente do Conselho Regional de Administração (CRA) do Pará, quando o país amplia sua capacidade técnica, reduz a dependência de serviços estrangeiros, diminui custos de produção, gera empregos qualificados e cria condições para disputar espaço no mercado internacional em igualdade de condições. “Fortalecer a base técnica local significa transformar o audiovisual em um setor industrial competitivo, capaz de aliar a criatividade brasileira aos elevados padrões técnicos exigidos globalmente”, afirma. 
A ascensão do cinema brasileiro nos grandes festivais e premiações internacionais também reforçam, segundo Isaac, a necessidade de democratizar o acesso ao mercado audiovisual. Por isso, a Aicon passou a investir não apenas em produções consolidadas, mas também na formação de novos realizadores. Oficinas gratuitas, encontros técnicos, workshops e premiações destinadas a cineastas independentes fazem parte de uma estratégia que busca ampliar oportunidades para uma nova geração de profissionais. 
Com o lançamento do prêmio de R$ 20 mil em locação no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e de R$ 10 mil no Curta Brasília, a empresa acredita que  apoiar festivais e produtores independentes é fortalecer o futuro do audiovisual brasileiro. “Muitas vezes, grandes talentos surgem justamente em produções menores e independentes, mas encontram dificuldades de acesso à estrutura técnica necessária para transformar boas ideias em obras competitivas. Quando a Aicon cria prêmios de apoio, o objetivo vai muito além da entrega de equipamento. Estamos tentando criar oportunidades reais para que novos realizadores consigam elevar o nível técnico das suas produções”, acrescenta Isaac. 
A iniciativa parte da convicção de que talentos frequentemente surgem longe dos grandes centros e que a renovação do setor depende da criação de caminhos de acesso para esses criadores. “Acreditamos que esse é um papel importante dentro da nossa visão de ESG, principalmente no aspecto social. Não adianta falar sobre crescimento do audiovisual sem investir em formação de pessoas e democratização do acesso ao conhecimento técnico”, avalia o administrador. 
A democratização das ferramentas de produção audiovisual também é vista como uma oportunidade de transformação social. Se antes produzir imagens de qualidade era privilégio de poucos, hoje celulares e novas tecnologias permitem que estudantes, criadores independentes e pequenos produtores contem suas histórias para o mundo.  De acordo com  Isaac, esse movimento amplia o alcance da cultura brasileira e robustece a economia criativa. “Cada vez mais pessoas entram nesse universo com uma preocupação estética e narrativa maior. Isso expande o mercado e revela novos talentos”, observa. 
Em um cenário global em que a economia criativa representa cerca de 3% do PIB mundial, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o fortalecimento do audiovisual brasileiro se insere também como uma estratégia de posicionamento internacional. Nesse contexto, a atuação de empresas como a Aicon deixa de ser apenas operacional e passa a integrar um movimento mais amplo de construção cultural e econômica do país.  
Isaac aponta que o maior gargalo da indústria do audiovisual na capital federal ainda é a estrutura de mercado e a continuidade de investimento: “Brasília possui talentos muito fortes, profissionais qualificados e uma geração extremamente criativa surgindo no audiovisual, mas ainda faltam mais investimentos contínuos, fortalecimento da cadeia produtiva e maior integração entre formação, mercado e iniciativa privada”.
O administrador acredita que Brasília vive um momento muito importante porque começou a desenvolver uma mentalidade mais empresarial dentro do audiovisual. “Isso pode transformar completamente o futuro do setor na região”, reflete. “Acredito que, com visão estratégica, incentivo estrutural e investimento em pessoas, o setor do audiovisual pode se tornar uma das grandes forças econômicas e criativas do país nas próximas décadas”, conclui Isaac. 

A excelência na base do turismo

Priscila bentes, fundadora do Circuito Elegante
Priscila bentes, fundadora do Circuito Elegante (foto: Fábio Ortolan)

Assim como a economia criativa, o turismo é capaz de transformar territórios, distribuir renda e valorizar identidades locais.  Segundo dados da Organização Mundial do Turismo (OMT), o setor responde por cerca de 10% do PIB global e um em cada 10 empregos no mundo, o que reforça seu papel como uma das atividades econômicas mais transversais da economia contemporânea. Mas, para que esse potencial se concretize, é necessário que a administração vá além da promoção de destinos e passe a atuar como instrumento de desenvolvimento sustentável. Essa é a visão que orienta o trabalho de Priscila Bentes, fundadora e CEO do Circuito Elegante, selo que há mais de duas décadas certifica empreendimentos de hotelaria e gastronomia em todo o país e que, hoje, reúne 95 estabelecimentos distribuídos por 18 estados brasileiros. 
 
Ao longo de sua trajetória, Priscila construiu uma filosofia de gestão baseada na personalização da experiência e na valorização da hospitalidade como diferencial competitivo. Para ela, o turismo de excelência não está associado necessariamente ao luxo material, mas à capacidade de compreender as expectativas individuais de cada viajante. 
 
 
“Luxo está ligado ao ter; elegância está ligada ao ser. E a hospitalidade começa justamente no ser, na forma como acolhemos, recebemos e construímos experiências”, afirma a empresária. Essa visão levou o Circuito Elegante a investir, ainda nos anos 2000, em um sistema próprio de CRM voltado para a hotelaria, capaz de registrar preferências detalhadas dos hóspedes e transformar dados em experiências personalizadas, sem abrir mão do atendimento humano. 
 
A gestão criteriosa do selo também revela uma estratégia que prioriza qualidade em detrimento da expansão indiscriminada. Embora exista uma forte demanda de empreendimentos interessados em integrar a rede, a meta da organização é manter cerca de 100 hotéis certificados em todo o Brasil, selecionados a partir de critérios rigorosos que incluem arquitetura, atendimento, gastronomia, conforto e integração com o destino. A própria fundadora realiza visitas periódicas para avaliar pessoalmente cada empreendimento. “Nosso compromisso é garantir excelência ao viajante. Não basta o destino ser bonito. É preciso que a experiência de hospedagem esteja à altura”, explica Priscila. 
 
Nos últimos anos, no entanto, a atuação da empresária ultrapassou os limites da hotelaria e passou a incorporar de forma estruturada a agenda da sustentabilidade. Esse movimento dialoga com uma tendência global do setor: segundo o WTTC (World Travel & Tourism Council), destinos que adotam práticas sustentáveis consistentes tendem a crescer até 20% mais rápido em receita turística no médio prazo. Foi desse cenário que nasceu o Instituto XIS e o Selo XIS, uma certificação voltada para toda a cadeia do turismo, incluindo hotéis, restaurantes, eventos, agências de viagens e fornecedores. 
 
A proposta é avaliar não apenas desempenho ambiental, mas também impacto social e governança. Para Priscila, sustentabilidade não pode ser tratada como um diferencial de marketing, mas como uma condição de sobrevivência para os negócios do futuro. “Quem não se adequar ficará para trás. Mas o principal não é o ambiental. O principal são as pessoas. O problema não é o planeta; o problema é como nós vivemos nele”, afirma. 
Chapada dos Veadeiros.
Chapada dos Veadeiros. (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
A fala sintetiza uma visão de administração que coloca o desenvolvimento humano no centro das estratégias de sustentabilidade. Em vez de limitar as compensações ambientais à compra de créditos de carbono, o modelo adotado pelo Instituto XIS direciona recursos para projetos sociais localizados em um raio de até 50 quilômetros dos empreendimentos certificados. O objetivo é garantir que a atividade turística deixe benefícios concretos para as comunidades que recebem os visitantes. “Não existe sustentabilidade com fome. Enquanto tivermos miséria, não teremos sustentabilidade”, resume a empresária. 
 
O presidente do Conselho Regional de Administração (CRA) do Pará, Fábio Costa, observa que investimentos sociais e ambientais deixaram de representar apenas ações de responsabilidade corporativa e passaram a integrar estratégias de redução de riscos e geração de valor. “Quando empresas fortalecem comunidades, qualificam fornecedores locais e ampliam oportunidades econômicas, tornam-se mais resilientes, aumentam sua competitividade e criam condições para um crescimento sustentável de longo prazo”, afirma. 
 
A gestão do Circuito Elegante também aposta em modelos organizacionais inovadores. A estrutura da empresa é descentralizada e baseada em núcleos autônomos de atuação. Em muitos casos, colaboradores tornam-se associados do negócio, participando diretamente dos resultados. Segundo Priscila, essa filosofia praticamente eliminou a rotatividade e fortaleceu o comprometimento das equipes: “Priorizamos uma cultura em que todos possam ser donos do negócio. Quando a pessoa faz parte do processo e das conquistas, ela deixa de vender apenas seu tempo e passa a construir algo junto”.
 
Fábio Lúcio de S. Costa, presidente do Conselho Regional de Administração do Pará
Fábio Lúcio de S. Costa, presidente do Conselho Regional de Administração do Pará (foto: Apple Photos Clean Up)
 
Para Fábio Costa, modelos de partnership exigem uma governança igualmente robusta para produzir os resultados esperados. Segundo ele, critérios transparentes de ingresso, avaliação, participação nos resultados e definição de responsabilidades fortalecem a cultura organizacional e reduzem conflitos internos: “No turismo, em que a qualidade da experiência depende diretamente das pessoas, uma cultura baseada em ética, colaboração e propósito torna-se um diferencial competitivo tão importante quanto a infraestrutura”.
 
Ao defender uma administração capaz de transformar o país pelo turismo, Priscila argumenta que o setor precisa abandonar a visão de curto prazo baseada apenas na ocupação hoteleira ou no consumo dos visitantes. Para ela, o verdadeiro sucesso acontece quando o turismo consegue melhorar a realidade dos destinos, fortalecer as economias locais e preservar os patrimônios naturais e culturais que sustentam a própria atividade. Seu diagnóstico sobre a principal mudança de postura necessária no setor privado é direto e revela a dimensão humana que permeia toda sua trajetória empresarial: “Se queremos falar em transformação de verdade, precisamos começar pelo básico: acabar com a fome. Enquanto tivermos miséria, não teremos sustentabilidade”. 
 
Fábio Costa defende que o desafio comum, tanto na descentralização da indústria cinematográfica quanto na sustentabilidade do turismo é compreender que criatividade, inovação e propósito somente produzem impactos duradouros quando caminham ao lado de uma gestão profissional. “O verdadeiro diferencial competitivo continuará sendo as pessoas. A tecnologia amplia a eficiência, mas cabe ao administrador integrar inovação, estratégia e desenvolvimento humano para construir organizações mais competitivas e capazes de transformar a realidade”, finaliza o especialista. 

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