GUERRA NO LESTE EUROPEU

Guerra completa dois anos com 14 milhões de ucranianos fora de casa

Após meses estagnado, o Exército russo comemora a conquista de novos territórios, ao mesmo tempo em que Kiev pede munições aos aliados

Retratos de vítimas de bombardeio russo durante cerimônia fúnebre em destroços de uma casa da família em Kramatorsk, em Donetsk  -  (crédito:  AFP)
Retratos de vítimas de bombardeio russo durante cerimônia fúnebre em destroços de uma casa da família em Kramatorsk, em Donetsk - (crédito: AFP)
postado em 23/02/2024 06:00

As vésperas dos dois anos de invasão à Ucrânia, ocorrida em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia anunciou, ontem, a conquista de novos territórios no leste do país vizinho. O avanço ocorre pouco tempo depois da tomada de Avdiivka, cidade que há meses era alvo de uma feroz ofensiva e, finalmente, foi capturada. O confronto pela localidade, a primeira vitória russa importante desde Bakhmut, em maio do ano passado, foi uma das mais sangrentas desde o início da ofensiva.

Ontem, o Ministério da Defesa da Rússia comemorou a tomada de Pobeda, a 5km de Donestk. "As unidades do Grupo de Forças do Sul libertaram a localidade de Pobeda", registrou, em comunicado, destacando que o Exército conseguiu melhorar suas posições na mesma região, nas proximidades de Novomijailivka e Krasnogorivka. O governo ucraniano não confirmou a perda da cidade e se limitou a afirmar que está "combatendo na região".

Na terça-feira, Moscou reivindicou a tomada de Krynky. Localizada no sul, a região foi ocupada pelas forças ucranianas na margem oriental do Rio Dnieper, onde os russos haviam estabelecido uma posição em outubro do ano passado. O Exército de Kiev declarou, por sua vez, que "matou ou feriu gravemente" em torno de 60 soldados russos em um ataque contra um campo de treinamento na parte ocupada da região de Kherson. A ofensiva foi confirmada no Telegram por especialistas militares da Rússia próximos às forças militares.

Armas

Segundo o governo de Volodymyr Zelensky, Moscou sofre grandes perdas, mas tem um número superior de soldados e armamentos, graças a um orçamento voltado basicamente aos esforços bélicos. O presidente ucraniano reconhece que seu país está em uma posição "extremamente difícil", visto que as tropas enfrentam múltiplos ataques no leste e no sul.

A escassez de munições também é um problema, após uma diminuição na ajuda de seus aliados ocidentais, sobretudo dos Estados Unidos, bloqueada por congressistas. Ontem, o chefe da diplomacia da Ucrânia, Dmitro Kuleba, viajou para Varsóvia, para garantir a passagem sem obstáculos da ajuda militar ocidental pela fronteira com a Polônia, bloqueada por manifestantes poloneses.

O Reino Unido, um dos principais aliados de Kiev, anunciou sanções contra mais de 50 personalidades e empresas russas, além de ter realizado o envio de novos mísseis à Ucrânia. O alvo são fabricantes de munições, mísseis e explosivos, empresas de eletrônica e comerciantes de diamantes e petróleo. O objetivo é reduzir o arsenal de armas do presidente russo, Vladimir Putin, informou a diplomacia britânica.

Washington também anunciou, ontem, um pacote de sanções, mas ao Irã, pelo apoio militar à Rússia. "Em resposta ao apoio contínuo do Irã à guerra brutal da Rússia iremos impor sanções adicionais  nos próximos dias e estamos preparados para ir além, se o país vender mísseis balísticos à Rússia", declarou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, aos jornalistas.

Refugiados

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em dois anos de guerra, mais de 14 milhões de ucranianos, quase um terço da população do país antes da invasão, foi forçada a deixar suas casas. Cerca de 6,5 milhões vivem em outras nações, como refugiados. "A destruição é generalizada. A perda de vidas e o sofrimento continuam", afirmou Amy Pope, diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações, vinculada à ONU, em comunicado.

Paralelamente, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, criticou o "horrível custo humano" causado pela invasão russa da Ucrânia. "O ataque armado em grande escala da Rússia à Ucrânia, que está prestes a entrar no seu terceiro ano, sem sinais de terminar, continua causando violações graves e generalizadas dos direitos humanos", destacou, em nota. 

"Cowboy de Hollywood"

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, classificou como "rude" o comentário do líder dos Estados Unidos, Joe Biden, que o chamou de "fdp louco". Mas, de forma irônica, disse que, na disputa com Donald Trump, prefere que o democrata permaneça na Casa Branca. "Estamos prontos para trabalhar com qualquer presidente. Mas acredito que, para nós, Biden é um presidente preferível para a Rússia e, a julgar pelo que ele acabou de dizer, estou absolutamente certo", declarou à televisão estatal, com um leve sorriso. Mais cedo, o porta-voz do Kremlin chamou de "imensa vergonha" as declarações do democrata. "Está claro que o sr. Biden, por interesses políticos internos, está demonstrando um comportamento ao estilo cowboy de Hollywood", opinou Dmitri Peskov. A fala de Biden foi na noite de quarta-feira, em um encontro com doadores de campanha em San Francisco, Califórnia. "Temos um fdp louco como esse Putin, e outros, e sempre temos que nos preocupar com o conflito nuclear, mas a ameaça existencial para a humanidade é o clima", disse o presidente de 81 anos. Ele usou a palavra "sob", abreviação que corresponde, em português, a "fdp".

Mãe de Alexei Navalny denuncia ameaças

Após seis dias, a mãe do ativista russo Alexei Navalny conseguiu, ontem, finalmente ver o corpo do filho, morto em uma prisão no Ártico. Liudmila Navalnaya, entretanto, denunciou ter sido pressionada para que o enterro do principal opositor do presidente Vladimir Putin ocorra em segredo. "Estão me chantageando. Querem que tudo seja feito às escondidas, sem cerimônia. Querem me levar para o fundo de um cemitério, perto de uma cova recém-cavada, e me dizer: 'aqui jaz seu filho'. Não concordo com isso", desabafou, em um vídeo publicado por pessoas próximas da família.

Navalnaya afirmou ter sido levada ao necrotério e ter visto o corpo do filho. Disse também que se encontra em Salekhard, capital do distrito de Iamalo Netatsia, região do Grande Norte, onde o filho morreu na última sexta-feira. Ela afirmou que os investigadores estabeleceram o motivo da morte — segundo a equipe do opositor, os médicos registraram "causas naturais" — e que todos os documentos legais estariam prontos.

"Legalmente, eles deveriam ter me devolvido o corpo imediatamente, mas não o fizeram. Em vez disso, estão me chantageando", criticou Navalnaya, assinalando: "Estou gravando esse vídeo porque começaram a me ameaçar. Olhando nos meus olhos, dizem que se eu não aceitar um funeral secreto, farão algo com o corpo dele. O investigador me disse abertamente: 'O tempo está contra você, o cadáver se decompõe'".

O governo dos Estados Unidos externou apoio à mãe de Navalny. "Os russos devem devolver o filho dela", disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, aos jornalistas em Washington. "Trata-se de permitir que a mãe possa "adequadamente prestar homenagem à coragem, bravura e serviço de seu filho", destacou.

Na Califórnia, o presidente Joe Biden se encontrou com a viúva de Navalny. Durante a conversa, Yulia Navalnaya e a filha, Dasha, ouviram do chefe da Casa Branca elogios à atuação do principal opositor de Vladimir Putin. "O presidente expressou sua admiração pela extraordinária coragem de Alexei Navalny e seu legado de luta contra a corrupção e por uma Rússia livre e democrática", destacou um comunicado.

Gostou da matéria? Escolha como acompanhar as principais notícias do Correio:
Ícone do whatsapp
Ícone do telegram

Dê a sua opinião! O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores pelo e-mail sredat.df@dabr.com.br

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação