
A maior operação militar norte-americana na América Latina desde 1989, quando os Estados Unidos invadiram o Panamá, foi recebida por líderes mundiais com uma mistura de indignação, preocupação e cautela. À exceção do presidente argentino Javier Milei, que aprovou a captura de Nicolás Maduro, governantes da América do Sul, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva condenaram a ação.
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"O governo da Colômbia rejeita a agressão contra a soberania da Venezuela e da América Latina", escreveu no X o presidente colombiano, Gustavo Petro. "Conflitos internos entre povos são resolvidos por esses mesmos povos em paz. Esse é o princípio da autodeterminação dos povos, que constitui a base do sistema das Nações Unidas."
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, também citou a ONU. "Os membros da Organização, em suas relações internacionais, abster-se-ão da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de qualquer outra maneira incompatível com os propósitos das Nações Unidas", afirmou, citando um trecho da Carta das Nações Unidas.
Reunião
A ONU se manifestou em um comunicado, dizendo estar "profundamente alarmada". "Essas ações constituem um precedente perigoso", escreveu Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral, Antonio Gutérres. "Ele está muito preocupado de que as regras do direito internacional não tenham sido respeitadas." A pedido das delegações da Venezuela e da Colômbia, o Conselho de Segurança da ONU se reunirá amanhã. Porém, não há perspectiva de que seja aprovada uma resolução condenando a ação, uma vez que Washington tem poder de veto.
Prestes a deixar o Palácio de La Moneda, o chileno Gabriel Boric condenou as ações militares e pediu uma "saída pacífica" para a Venezuela. Citando princípios básicos do direito internacional, Boric disse, no X, que a crise venezuelana não se resolve "por meio da violência, nem da ingerência estrangeira".
Sucessor de Boric, o presidente eleito José Antonio Kast falou de "respeito ao direito internacional" em sua declaração na rede social, mas acusou Maduro de não ser "o presidente legítimo da Venezuela" e destacou que "estruturas criminosas e terroristas operam a partir desse país".
"Fechar fileiras"
Enquanto dissidentes cubanos nos Estados Unidos comemoraram a captura de Maduro, em Havana, o presidente Miguel Díaz-Canel, conclamou a América Latina a "fechar fileiras" diante do ataque militar. "Não deixemos passar o gigante das sete léguas!", discursou em uma concentração na capital. Segundo Díaz-Canel, Maduro foi "sequestrado" no que classificou como "um ato de terrorismo de Estado (...) que representa uma expressão inequívoca do neofascismo que se pretende impor à humanidade".
Na Europa, governantes foram mais cautelosos. Em um comunicado às emissoras britânicas, o primeiro-ministro Keir Starmer disse que preferia conversar com Trump antes de comentar. "Eu sempre disse e acredito que devemos respeitar o direito internacional, mas vamos apurar os fatos", disse ele em um comunicado a emissoras britânicas.
O presidente da França, Emmanuel Macron, exigiu uma transição "respeitosa", preferencialmente "liderada o mais rapidamente possível" pelo candidato opositor nas eleições presidenciais de 2024, Edmundo González Urrutia, exilado na Espanha. Sem condenar a ação militar, Macron disse que o povo venezuelano "só pode se alegrar com o fim da ditadura Maduro".
Soberania
As declarações de Macron foram bem mais tímidas do que a da líder da extrema-direita do país, Marine Le Pen. No X, ela destacou que "havia mil razões para condenar o regime de Nicolás Maduro", mas declarou que se opõe à ação norte-americana porque "a soberania dos Estados nunca é negociável, seja qual for seu tamanho, seja qual for seu poder, seja qual for seu continente. Ela é inviolável e sagrada".
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, disse que conversou com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e com o embaixador do bloco em Caracas. "Em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e a Carta da ONU devem ser respeitados. Apelamos à moderação." O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez, falou em "responsabilidade" e destacou que "o direito internacional e os princípios da Carta das Nações Unidas devem ser respeitados".
Aliados comerciais da Venezuela, Rússia e China condenaram a ação militar norte-americana. Em seu canal do Telegram, o chanceler russo disse estar "extremamente alarmado". "Os pretextos usados para justificar essas ações são insustentáveis. A Rússia reafirma sua solidariedade ao povo venezuelano", escreveu Sergei Lavrov. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que ficou "profundamente chocado" com o que descreveu como um "uso flagrante da força contra um Estado soberano e uma ação contra seu presidente".
Adversários
Nos Estados Unidos, adversários políticos de Donald Trump atacaram a intervenção. "O ataque militar não autorizado do presidente Trump à Venezuela para prender Maduro — por mais terrível que ele seja — é um retorno repugnante a uma época em que os Estados Unidos reivindicavam o direito de dominar os assuntos políticos internos de todas as nações do Hemisfério Ocidental", disse o senador Tim Kaine, democrata da Virgínia.
Em Nova York, onde Nicolás Maduro e a mulher dele, Cília Flores, deverão ficar presos, manifestantes foram às ruas para criticar a captura de Maduro. O prefeito recém-empossado Zohan Mamdani afirmou que a ação de Trump "é um ato de guerra e uma violação do direito federal e internacional". Ao jornal The New York Times, o democrata afirmou ter falado com o presidente por telefone, ocasião na qual repudiou a intervenção.
O que disseram os governos
Argentina
A operação dos Estados Unidos "significa a queda do regime de um ditador que vinha fraudando as eleições (...) E isso não é bom apenas para a Venezuela, mas também para a região", disse o presidente argentino Javier Milei.
Alemanha
O chanceler Friedrich Merz escreveu nas redes sociais que "Maduro levou seu país à ruína" e que a intervenção dos EUA é "complexa e requer consideração cuidadosa".
Equador
O presidente equatoriano, Daniel Noboa, escreveu no X: "A todos os criminosos narcochavistas chega a sua hora. A sua estrutura vai terminar de cair em todo o continente".
Guatemala
"Fazemos um chamado para cessar qualquer ação militar unilateral e respeitar os princípios da Carta da Organização das Nações Unidas", escreveu o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, no X.
Irã
O país, que mantém estreitos vínculos com a nação sul-americana rica em petróleo e bombardeada por Trump no ano passado, condenou "firmemente o ataque militar americano".
Itália
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, considerou "legítima a intervenção defensiva" dos Estados Unidos na Venezuela. Porém, disse que "a ação militar externa não é a via para pôr fim aos regimes totalitários".
Panamá
O presidente José Raúl Mulino manifestou seu desejo por "um processo de transição ordenado e legítimo" na Venezuela.
Ucrânia
No X, o ministro das relações exteriores, Andrii Sybiha, disse que "a Ucrânia sempre defendeu o direito das nações de viverem livremente, livres de ditaduras, opressão e violações dos direitos humanos. O regime de Maduro violou todos esses princípios em todos os aspectos".
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