
Há 36 anos, os Estados Unidos realizava a última intervenção militar em um país latino-americano, antes da captura, ontem, do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Em 16 de dezembro de 1989, também alegando associação do governo com o narcotráfico, o país, então governado por George W. Bush, invadiu o Panamá e capturou o general Manuel Noriega.
Em quatro dias, a chamada Operação Causa Justa derrubou o regime e instalou um novo governo em meio a denúncias de mortes de civis — ao menos 500, segundo organizações não governamentais (ONGs). “Estávamos olhando pela janela e podíamos ver o bombardeio”, relatou Olmedo Beluche, professor da Universidade do Panamá e autor de um livro sobre a invasão. Segundo Beluche, 20 mil pessoas perderam suas moradias. “As casas de madeira do lado do quartel pegaram fogo e vimos várias pessoas inocentes morrerem ali.”
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Noriega, um antigo aliado da agência de inteligência CIA, foi preso e levado para Miami, onde enfrentou um julgamento. Condenado por narcotráfico, o general cumpriu pena nos Estados Unidos, na França e, por último, em seu próprio país.
Porém, enquanto havia provas irrefutáveis, incluindo registros financeiros e testemunhos, sobre o envolvimento de Noriega com Cartel de Medellín, do colombiano Pablo Escobar, não há evidências concretas de que Maduro tenha vínculo com o Cartel de los Soles, um suposto grupo narcotraficante que, segundo Trump, apoia o presidente capturado. O governo de Maduro sempre negou a existência do Soles. “Jamais conseguiram comprovar, porque o cartel não existe, é uma invenção imperialista”, disse, no mês passado, o ministro do Interior, Diosdado Cabello.
Sem conivência
Desde a década de 1950, o governo norte-americano promove intervenções em países da América Latina, sem a conivência de organismos internacionais. A primeira delas foi em junho de 1954 na Guatemala, quando o coronel Jacobo Arbenz Guzmán foi derrubado por mercenários treinados e financiados por Washington.
O incentivo ao golpe, reconhecido pelos Estados Unidos em 2003, teve como justificativa a “luta contra o comunismo”. Porém, a deposição de Guzmán ocorreu logo após o anúncio de uma reforma agrária que ameaçava os interesses da United Fruit Corporation, a futura Chiquita Brands.
Nos anos 1960, o governo norte-americano treinou e financiou anticastristas para tentar, sem sucesso, derrubar o regime comunista de Fidel Castro em Cuba. Também mandou fuzileiros navais e paraquedistas à República Dominicana para sufocar um levante em favor do presidente de esquerda Juan Bosch, derrubado por generais.
Ditaduras
No Cone Sul, as décadas de 1960 e 1970 foram marcadas pelo apoio de Washington a ditadura militares, incluindo a brasileira, implantada com o golpe de 1964. Em 1973, os Estados Unidos ajudaram o ditador chileno Augusto Pinochet durante a destituição do presidente de esquerda Salvador Allende do poder. Três anos depois, o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger também apoiou a junta argentina em 1976. Pelo menos 10 mil opositores desapareceram.
Com o apoio tácito norte-americano, as ditaduras de Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai se aliaram para eliminar opositores de esquerda. Era a chamada Operação Condor, que deixou dezenas de milhares de mortos e desaparecidos entre 1970 e 1980.
Na América Central, os Estados Unidos apoiaram guerras civis na década de 1980. Em 1979, com a deposição do ditador da Nicarágua Anastasio Somoza pela revolução sandinista, o então presidente Ronald Reagan forneceu US$ 20 milhões de ajuda aos contrarrevolucionários, em uma operação secreta.
Em El Salvador, Reagan enviou assessores militares para sufocar a rebelião da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN). Com a operação Urgent Fury, em 25 de outubro de 1983, Washington interveio na Ilha de Granada, com fuzileiros navais e rangers, após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop por um grupo da extrema-esquerda.
Embora a última intervenção antes da captura de Nicolás Maduro tenha ocorrido há mais de três décadas e meia na América Latina, um levantamento da organização não governamental (ONG) norte-americana Armed Conflict Location & Event Data (Acled) mostra que, somente em 2025, houve diversas ações militares ou diplomáticas na região promovidas pelos Estados Unidos (veja quadro). A analista sênior para a América Latina e o Caribe Sandra Pellegrini também cita o ataque das tarifas ao Brasil, em resposta ao processo contra o ex-presidente condenado Jair Bolsonaro em seu relatório.
Saiba Mais
Um ano, muitos conflitos
2 de fevereiro de 2025: Donald Trump ameaça “retomar” o Canal do Panamá, em represália ao comércio com a China na região.
20 de fevereiro: os EUA designa cartéis de drogas estrangeiros como organizações terroristas.
25 de julho: os EUA consideram o Cartel de los Soles, da Venezuela, uma organização terrorista global.
7 de agosto: o governo norte-americano anuncia recompensa de US$ 50 milhões para quem fornecer informações que leve à prisão de Nicolás Maduro, associando o presidente venezuelano capturado ao Cartel de los Soles.
2 de setembro: lançamento do primeiro ataque nas águas internacionais do Mar do Caribe contra a Venezuela. Onze pessoas morreram.
13 de setembro: cinco caças F-35 dos EUA aterrissam em Porto Rico.
15 de setembro: os EUA decertificam a Colômbia como país que colabora com os esforços contra o narcotráfico.
2 de outubro: os EUA declaram que entraram em um “conflito internacional não-armado” contra cartéis de drogas.
16 de outubro: mais um ataque ao Mar do Caribe contra uma embarcação que supostamente carregava drogas. No mesmo dia, Trump autoriza a CIA a conduzir operações no território venezuelano.
21 de outubro: a campanha norte-americana é estendida ao Pacífico, com um ataque nas águas internacionais próximas à costa da Colômbia.
24 de outubro: o Pentágono anuncia a partida, para o Caribe, do maior porta-avião militar do país, o USS Gerald R. Ford
27 de outubro: uma operação coordenada pelos EUA tendo como alvo quatro embarcações na costa do México mata 14 pessoas.
26 de novembro: o presidente dominicano Luis Abinader autoriza os EUA a usar a Base Aérea San Isidro e o Aeroporto Internacional Las Américas em operações contra o narcotráfico.
Fonte: ACLEAD

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