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México reage à ameaça de Trump

Presidente mexicana, porém, evita aprofundar mal-estar com norte-americano, que declarou textualmente preparar ataque por terra contra cartéis de drogas no país vizinho

A presidente Claudia Sheinbaum aposta na contenção para responder às ameaças de Donald Trump — mas rejeita firmemente qualquer ação militar dos EUA -  (crédito: Julio Cesar AGUILAR / AFP)
A presidente Claudia Sheinbaum aposta na contenção para responder às ameaças de Donald Trump — mas rejeita firmemente qualquer ação militar dos EUA - (crédito: Julio Cesar AGUILAR / AFP)

Depois de o presidente norte-americano Donald Trump ameaçar "atacar por terra" cartéis de drogas no território mexicano, a presidente Claudia Sheinbaum disse que pretende "fortalecer a coordenação" do acordo bilateral de segurança entre os países vizinhos, com foco nos narcotraficantes. "Pedi ao chanceler Juan Ramón de la Fuente que entrasse em contato direto com o secretário do Departamento de Estado e, se necessário, conversasse com o presidente Trump para fortalecer a coordenação", declarou a presidente mexicana ontem, em sua coletiva de imprensa matinal.

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Na quinta-feira à noite, Trump afirmou em uma entrevista à emissora Fox News que "os cartéis dominam o México", o que justificaria um ataque terrestre das tropas norte-americanas. Sem detalhar datas ou locais específicos, o norte-americano disse que a investida ocorreria após operações marítimas no Pacífico e no Mar do Caribe. Antes de capturar o presidente venezuelano e a primeira-dama, há uma semana, os Estados Unidos também realizaram incursões na costa da Venezuela visando, segundo o Departamento de Estado, narcotraficantes que enviam cocaína para o território norte-americano.

Segundo as regras do direito internacional, um país só pode invadir o outro em resposta a um ataque ou com a autorização do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). No caso venezuelano, ainda que o órgão não tenha sido consultado, a administração Trump justificou a missão militar afirmando que, no país latino, há grupos terroristas que colocam a segurança dos Estados Unidos em risco.

Embora o narcotráfico com fins financeiros não seja considerado terrorismo, em fevereiro do ano passado o governo norte-americano reclassificou diversos cartéis como "organização terrorista estrangeira", incluindo grupos da Venezuela e do México. Na ocasião, o governo mexicano protestou, afirmando que a redesignação ameaçava sua soberania, já que poderia justificar uma intervenção norte-americana. 

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Extradição 

Ontem, Claudia Sheinbaum ressaltou aos jornalistas que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, teria afirmado numa conversa entre os dois que a coordenação de segurança que há entre os vizinhos é "boa". A presidente disse que reforçou as ações de combate ao narcotráfico na fronteira com os Estados Unidos e que extraditou dezenas de comandantes de cartéis para o país vizinho no ano passado. Sheinbaum tem reiterado ao longo da semana que não aceitará intervenções militares no México. 

Na avaliação do analista político Luis Rubio, diretor do centro de avaliações políticas México Evalúa, a situação do México é diferente da venezuelana. "O governo dos EUA sabe que deve proceder com cautela em relação ao México, pois qualquer erro de cálculo teria repercussões diretas em território americano", diz. Segundo Rubio, até agora as autoridades de segurança norte-americanas têm sido cautelosas com o país vizinho, que, por sua vez, tem cooperado com questões do narcotráfico. "No entanto, a discussão sobre operações unilaterais americanas no México ganhou um novo fôlego após a Venezuela."

Um dia depois da invasão militar na Venezuela, Trump afirmou que "pressionou" Claudia Sheinbaum para permitir o envio de tropas norte-americanas ao México, oferta que a presidente já havia rejeitado anteriormente. Na entrevista de quinta-feira, o mandatário não especificou se buscará autorização do Congresso para uma possível ação terrestre no país vizinho. Segundo a Constituição norte-americana, cabe ao parlamento permitir operações militares em outros países. No caso venezuelano, porém, Trump dispensou a consulta.

 

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Ao justificar uma possível missão por terra no México para combater cartéis, Trump repete o roteiro do que aconteceu na Venezuela? 

Quando a gente olha com um pouco mais de distância, dá para identificar um padrão no comportamento recente de Donald Trump. O que está acontecendo agora não começou com a Venezuela. Há uma linha de continuidade desde 2025, quando o governo passou a tratar o narcotráfico e grupos transnacionais como ameaças diretas à segurança dos Estados Unidos, ampliando operações navais e adotando uma retórica cada vez mais dura no hemisfério ocidental. A ação na Venezuela aparece como mais uma etapa desse movimento, sempre justificada pela ideia de combater o chamado narcoterrorismo e proteger a segurança interna americana. É dentro dessa lógica que surgem agora as falas sobre possíveis ataques em terra contra cartéis no México.

Há chances reais de o México ser atacado?

Trump chegou a mencionar explicitamente essa hipótese, associando o tráfico de drogas às mortes por overdose nos Estados Unidos. Ainda assim, as análises mais sérias têm tratado essas declarações como parte de uma estratégia retórica, e não como um plano operacional pronto. Até o momento, não há detalhes técnicos, autorização do Congresso ou qualquer acordo com o país afetado, que são pré-requisitos básicos para uma ação militar externa de fato acontecer. Entre esse tipo de retórica e uma intervenção militar real existe uma distância grande, marcada por custos políticos, jurídicos e diplomáticos que dificilmente seriam ignorados. O cenário mais plausível, ao menos por hora, é o de pressão e barganha, não o de um ataque iminente.

Como o senhor avalia a reação do México? 

Do lado mexicano, a reação foi imediata e firme. O governo deixou claro que não aceita, sob nenhuma hipótese, intervenção militar estrangeira em seu território. A presidente Claudia Sheinbaum reforçou princípios históricos da política externa do país, como soberania e não interferência, e destacou que a cooperação em segurança existe, mas não passa por militarização unilateral. É importante lembrar que o nível de integração econômica e diplomática entre México e Estados Unidos torna esse tipo de invasão direta algo extremamente complexo e com riscos políticos exponenciais. (PO)

 

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postado em 10/01/2026 05:03
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