
Desde que a paz e a tranquilidade foram rompidas em Tumbler Ridge, localizada aos pés das Montanhas Rochosas do centro-oeste do Canadá, os 2 mil moradores tentam se unir para lidar com uma tragédia pouco comum no país: assassinatos em massa. Visivelmente emocionado, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou: "A nação está de luto". "Nesta manhã, pais, avós, irmãs e irmãos em Tumbler Ridge acordarão sem alguém que eles amam. O Canadá está com vocês", acrescentou, ao dirigir-se à população da pequena cidade. O chefe de governo cancelou parte de sua agenda de quarta-feira (11/2), além de uma viagem à Europa, e ordenou que todas as bandeiras do país fossem hasteadas a meio-mastro pelos próximos sete dias, em sinal de respeito pelas vítimas de um dos maiores tiroteios da história do Canadá.
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Às 14h20 de terça-feira (10/2) no horário local (18h20 em Brasília), a Polícia Real Montada Canadense recebeu um alerta sobre um atirador dentro da Escola Secundária de Tumbler Ridge, que abriga 175 estudantes. O atentado deixou seis mortos na escola (uma professora de 39 anos; três alunas, todas com 12; e dois alunos, de 12 e 13). Pelo menos 25 estudantes e funcionários ficaram feridos, dois deles em estado crítico. Outros dois corpos foram encontrados em uma casa próxima.
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No fim da tarde desta quarta-feira, a polícia confirmou que o atirador é uma mulher transgênero de 18 anos identificada como Jesse van Rootselaar. Ela matou a mãe e o irmão, antes de atacar a escola. "O que posso dizer é que a suspeita nasceu com o sexo masculino e, seis anos depois, começou a transição para o gênero feminino", explicou o vice-chefe de polícia Dwayne McDonald. Mais cedo, as autoridades tinham alertado que a suspeita seria "uma mulher de cabelo castanho usando um vestido". Depois de cometer o assassinato em massa, Jesse se matou.
Duas armas foram encontradas na escola — uma longa e uma pistola modificada. McDonald disse que os policiais estiveram na casa de Jesse em várias ocasiões, ao longo dos últimos anos, em ocorrências associadas a preocupações com a saúde mental da suspeita. Jesse foi detida algumas vezes para avaliação e acompanhamento no âmbito da Lei de Saúde Mental.
Natural de Monteiro Lobato (SP), o professor brasileiro Jarbas Noronha, 58 anos, lecionava mecânica automotiva para um grupo de 15 alunos no momento do atentado. "Comecei a aula às 13h40. Passei uns slides sobre como checar a bateria dos carros e, depois, praticamentos com o multímetro. Uns 40 minutos depois, quando fomos para a parte prática, que era troca de óleo, tudo comecou. Um de meus estudantes foi buscar o carro dele no estacionamento para trabalharmos nele. Quando ele regressou, mencionou que tinha escutado tiros", contou ao Correio. "A oficina de mecânica é a última, no final do corredor. Então, por conta do barulho da ventilação e do equipamento da oficina, era difícil ouvir algo. O alarme disparou e a diretora avisou um aluno que era um lockdown", acrescentou.
Naquele momento, Noronha contou os alunos e tomou as providências para se protegerem. "Juntos, adicionamos algumas bancadas de metal contra a porta, como se fossem barricadas, para ganhar tempo e preparamos um plano de fuga, caso alguám tentasse invadir a oficina", relatou. A ideia do brasileiro era correr através das portas de garagem da oficina, que dão acesso ao pátio, e utilizar o estacionamento como um ponto de encontro do grupo. O professor vive em Tumbler Ridge desde 2022 e trabalha na escola secundária há um ano e meio.
Pai de aluno
"Minha esposa falou ao telefone com nosso filho, Darian, o tempo todo, enquanto ele estava confinado com colegas. Ela descobriu que algo acontecia pois trabalha no hospital da cidade. Uma colega mencionou algo para ela. Logo depois, o alerta disparou em nossos telefones informando que havia um atirador ativo na escola", contou ao Correio Shane Quist, pai de Darian Quist, 17 anos, estudante da Escola Secundária de Tumbler Ridge. "Darian não ouviu nem viu muita coisa, pois a sala de aula onde ele se trancou era do lado oposto da escola. Ele nem mesmo ficou sabendo o que era o alarme que disparou. Não creio que ele tenha processado de verdade o que ocorreu, durante um tempo, e não tenha acreditado que aquilo fosse real."
Shane e a família mudaram-se para Tumbler Ridge há pouco mais de um ano. "Sei que a cidade se unirá e se ajudará mutuamente. Vimos isso antes, no verão passado, quando um prédio de apartamentos sofreu um incêndio. Então, não tenho dúvidas de que superaremos isso como uma comunidade", observou o pai de Darian.
Sobrevivente de um massacre na Escola Politécnica de Montreal, em 6 de dezembro de 1989, quando 14 mulheres foram assassinadas, a deputada canadense Nathalie Provost ofereceu condolências às vítimas de Tumbler Ridge. "Eu reflito com profunda tristeza sobre o sofrimento, a dor e o trauma que tais eventos deixam para trás — para as vítimas, seus familiares e toda a comunidade. Essa tragédia destrói brutalmente o senso de segurança que deveria envolver os locais de aprendizado e de crescimento, e marca a perda da inocência para muitos jovens", declarou.
TRÊS PERGUNTAS PARA...
JARBAS NORONHA, 58 anos, paulista, professor de mecânica automotiva e de ciências aplicadas na Escola Secundária de Tumbler Ridge
Algumas pessoas o consideram um herói. Como o senhor reage a essa comparação?
Sou um professor. Meus alunos são minha responsabilidade dursnte minha aula. Só isso. Sinto por eles. Não merecem esse tipo de trauma em um lugar que deveria ser um porto seguro para eles.

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