Oriente Médio em convulsão

Mojtaba Khamenei, o novo aiatolá jurado de morte pelos EUA e por Israel

Filho de Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei é escolhido pela Assembleia dos Experts como novo líder supremo do Irã. Trump alerta que eleito "não vai durar muito", se não tiver a aprovação dos EUA. Israel promete perseguir "qualquer sucessor"

Mojtaba Khamenei terá a missão de seguir o legado do pai e manter a unidade, em tempos de guerra  -  (crédito: Khamenei.ir/AFP)
Mojtaba Khamenei terá a missão de seguir o legado do pai e manter a unidade, em tempos de guerra - (crédito: Khamenei.ir/AFP)

Mojtaba Hosseini Khamenei, 56 anos, terá a missão de comandar uma nação mergulhada em uma guerra existencial. O segundo filho mais velho do aiatolá Khamenei foi confirmado, na noite de domingo (8/3) pelo horário de Brasília (madrugada desta segunda-feira em Teerã), como o novo líder supremo do Irã. Por meio de um comunicado, a Assembleia de Experts — o órgão composto por 88 clérigos islâmicos que tem a atribuição da escolha da máxima autoridade política e religiosa do país persa — anunciou: "Em conformidade com seu dever religioso e com a crença na presença de Deus Todo-Poderoso, na sessão extraordinária de hoje, o Aiatolá Seyyed Mojtaba Hosseini Khamenei (que Deus o preserve) é nomeado e empossado com o terceiro líder do sagrado sistema da República Islâmica do Irã, com base no voto decisivo dos honrados representantes da Assembleia de Experts da Liderança". "Convida-se todo o povo do Irã, especialmente as elites e intelectuais dos seminários e universidades, a jurar lealdade à liderança e a manter a unidade em torno do eixo dos Guardiões", acrescenta o texto. 

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Horas antes do anúncio oficial, um dos 88 membros da Assembleia de Experts tinha praticamente antecipado a decisão do colegiado. "O novo líder foi eleito por uma esmagadora maioria dos votos. O nome de Khamenei permanecerá como líder", disse o aiatolá Hosseinali Eshkevari, em vídeo divulgado pela mídia estatal iraniana. Mojtaba chega ao poder sob a ameaça de ter o mesmo destino do pai, morto em um bombardeio israelense, em 28 de fevereiro, primeiro dia da guerra.

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O novo aiatolá foi jurado de morte por Israel e pelos Estados Unidos. Depois de indicar que o nome de Mojtaba era "inaceitável", o presidente americano, Donald Trump, declarou ontem que o próximo líder supremo "não vai durar muito". "Ele vai ter que obter nossa aprovação. Se ele não obtiver nossa aprovação, não vai durar muito", disse ao canal ABC News, antes de o mundo conhecer o nome do líder supremo. O perfil em farsi das Forças de Defesa de Israel (IDF) na rede social X prometeu que o Exército judeu "perseguirá qualquer sucessor de Ali Khamenei". 

Kai Enno Lehmann, professor associado de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), disse ao Correio que a escolha por Mojtaba não parece uma grande surpresa. "Do ponto de vista do Irã, representa continuidade, o que é importante para o regime. Também permitiu que fosse uma escolha rápida", afirmou. "Trump e Netanyahu avisaram que o próximo líder do Irã tem que ser alguém 'amigável' com esses dois países, o que me parece muito improvável diante das atuais circunstâncias", comentou. "Não sei se ele vai ser um pouco mais pragmático do que o pai, mas duvido que seja 'amigável'."

De acordo com Lehmann, Mojtaba terá uma prioridade: a sobrevivência do regime teocrático islâmico. "É difícil avaliar como estão as coisas. Evidentemente, para a população civil, a situação é péssima. Diante dos ataques israelo-americanos, reforço que a prioridade será a sobrevivência do regime", explicou. Ele não vê sinais evidentes de uma fratura interna no governo iraniano ou discordâncias."

Historiador da Universidade de Yale, Arash Azizi admitiu ao Correio que Mojtaba Khamenei tem sido um desconhecido. "Ele praticamente não aparecia em público e pouco se sabe se suas abordagens. Mas, sabemos que ele tem laços profundos com as forças de segurança do Irã e tem estado por trás do aparato repressivo do regime, em coordenação com o escritório do pai", observou. O estudioso iraniano acrescentou que, nos últimos dias, ficou claro que Mojtaba seria apoiado pelos elementos linha-dura do regime contra clérigos com inclinação mais pragmática. "Trump também se opôs publicamente a ele. Então, vejo sua escolha como um sinal de desafio ao Ocidente. O regime quer continuar lutando", avaliou. 

"Por aqui, escutamos que Ali Khamenei sempre se opôs à ascensão de Mojtaba como líder, ainda que eu não saiba se isso era mentira ou verdade. Esse governo nunca foi honesto com o povo", desabafou ao Correio a iraniana Minoo (nome fictício), moradora de Teerã. "Antes, algumas pessoas diziam que se, depois de Khamenei, Mojtaba se tornasse o líder, ele seria como Mohammed bin Salman na Arábia Saudita e, certamente, traria reformas ao Irã. Não acredito nisso. Sou contra clérigos e contra um governo religioso."

Em pronunciamento de vídeo com legendas em farsi e em inglês, o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, dirigiu-se à população do Irã, antes da escolha do novo aiatolá. "Tenho falado a vocês e por vocês há décadas. O momento da verdade se aproxima. Não buscamos dividir o Irã. Buscamos liberar o Irã", afirmou. "Mas, ao fim do dia, a libertação do jugo da tirania dependerá de vocês, corajoso e sofrido povo do Irã. Acredito que, se vocês se levantarem, nessa hora da verdade, não estará muito longe o dia em que Israel e Irã retornarão a ser amigos corajosos. 

Guerra

Nas horas que antecederam a escolha do líder supremo, Teerã mergulhou na escuridão. Quatro depósitos e um centro logístico de produtos petrolíferos, na capital e nos arredores, foram alvos de mísseis, que mataram seis pessoas e deixaram 20 feridos. Uma nuvem espessa e escura provocou uma chuva de detritos. Pela primeira vez, desde o início da guerra, a infraestrutura crítica foi atacada. O Irã bombardeou, também de forma inédita, uma usina de dessalinização do Bahrein. Na Arábia Saudita, a queda de um projétil deixou dois mortos e feriu 12 pessoas, em uma área residencial de Al-Jarj, sede de uma base americana. Ali Mohammad Naini, porta-voz da Guarda Revolucionária Iraniana, garantiu que o país está preparado para "pelo menos seis meses de guerra". O Comando Central dos EUA anunciou a sétima baixa entre soldados norte-americanos. 

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

Influência e discrição

Eleito para assumir o comando do Irã e suceder o seu pai na função de líder supremo, Mojtaba Khamenei é uma das personalidades mais influentes do país persa. Nascido em 8 de setembro de 1969, na cidade sagrada de Mashhad (leste), é um dos seis filhos do falecido líder supremo, e o único com uma posição pública, embora não ocupasse cargo oficial. Devido à sua discrição em cerimônias oficiais e nos meios de comunicação, sua verdadeira influência deu origem a especulações intensas, tanto entre a população iraniana quanto em círculos diplomáticos.

De barba grisalha e com o turbanye negro dos "seyyed" (descendentes do Profeta Maomé), o clérigo foi apresentado por alguns como o verdadeiro dirigente, que atuaria nos bastidores no escritório do líder supremo, núcleo do poder no Irã. Próximo dos conservadores, mantém vínculas estreitos coma Guarda Revolucionária — o exército ideológico da República Islâmica — e com a milícia Basij. 

Quando lhe impôs sanções em 2019, o Tesouro americano indicou que Mojtaba Khamenei "representava oficialmente o líder supremo, embora nunca tenha sido eleito nem nomeado para um cargo governamental além de suas funções no escritório do pai". Opositores o responsabilizam por desempenhar um papel na violenta repressão após a reeleição do presidente ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad em 2009, que provocou um amplo movimento de protesto. Uma investigação da Bloomberg descobriu que Mojtaba enriqueceu ao tecer uma extensa rede de empresas de fachada no exterior. No campo religioso, estudou teologia na cidade santa de Qom, ao sul de Teerã, onde também deu aulas.

OS ANTECESSORES 

Ruhollah Khomeini (1979-1989)

Pai da Revolução Iraniana de 1979, o clérigo xiita liderou o movimento que derrubou a ditadura do xá Reza Pahlavi e impôs um regime teocrático islâmico, amparado por uma Guarda Revolucionária, por milícias e pela Polícia da Moralidade. Entre as primeiras decisões no poder, executou centenas de aliados de Pahlavi, impôs um código estrito de vestimenta para as mulheres (hijab) e proibiu álcool e música ocidental, além de determinar punições com base na sharia (lei islâmica). Morreu em 3 de junho de 1989, em Teerã. 

Ali Khamenei (1989-2026)

O segundo líder supremo nasceu em Mashhad, em 19 de abril de 1939, e começou a estudar o Corão aos quatro anos. Aos 18 anos, peregrinou por mesquitas no Iraque e prosseguiu os estudos avançados sobre o islã na cidade iraniana de Qom. Antes do triunfo da Revolução Iraniana, foi escolhido membro do Conselho Revolucionário Islâmico. Ascendeu ao cargo de líder máximo em 1989, após a morte de Ruhollah Khomeini. Manteve-se fiel ao "Eixo da Resistência" e foi guardião da revolução. Morreu em 28 de fevereiro, em um bombardeio israelense a Teerã. 

DEPOIMENTO

"Com a chuva, o chão de Teerã ficou preto"

"Na madrugada deste domingo, os bombardeios foram muito assustadores. De repente, o céu tornou-se avermelhado. O ar está extremamente poluído e enovoado — uma névoa escura, com nuvens espessas e muita fomaça. Também choveu, neste domingo, em Teerã. A chuva trouxe consigo todas as partículas em suspensão no ar que haviam vindo do depósito de petróleo em chamas. Então, o chão ficou preto, assim como as solas dos nossos sapatos. Disseram-nos para usarmos máscaras, para não sairmos de casa e evitarmos que essa chuva tocasse nossos corpos.

Tudo aqui é muito complicado. Por um lado, tentamos, de todas as maneiras possíveis, lidar com este regime, e tudo só piorou. Por outro, ele começou uma guerra que não queríamos — foi escolha do regime — e que está destruindo o nosso belo Irã. Quando olhamos para trás, vemos luto, tristeza e mortos, e sabemos que não podemos mais viver com este governo. Quando olhamos para frente, vemos uma guerra que ninguém sabe quando terminará ou quanta destruição causará.

Carros se movem por rodovia, ao lado de outdoor com a foto da Ali Khamenei, em Teerã
Carros passam ao lado de cartaz da Ali Khamenei, em Teerã: fumaça do petróleo (foto: AFP)

Muitas pessoas se alegram com a morte dos líderes do regime, pois os consideram a raiz da miséria e das mortes de iranianos desde a Revolução Islâmica de 1979. Sabemos que reformas, protestos e oposição civil não funcionam, e chegamos a um beco sem saída. Estamos enfrentando um governo que possui armas, ameaça pessoas na televisão nacional e mata. Nós, o povo, de mãos vazias e sozinhos, não tínhamos nada além de nossos slogans. Nossa luta não surtia efeito algum. A ajuda teve que vir de fora."

Minoo (nome fictício), moradora de Teerã, em depoimento ao Correio

 

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postado em 09/03/2026 05:50
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