Oriente Médio em convulsão

Cessar-fogo incerto entre Israel e Líbano começa a vigorar

Anúncio do cessar-fogo de 10 dias foi feito pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que convidou os líderes dos dois países a visitar a Casa Branca. Hezbollah promete suspender ataques se israelenses cessarem hostilidades

Simpatizantes do Hezbollah celebram com fotos do xeque Hassan Nasrallah, líder  assassinado em 2024: festa no sul de Beirute  -  (crédito: Ibrahim Amro/AFP)
Simpatizantes do Hezbollah celebram com fotos do xeque Hassan Nasrallah, líder assassinado em 2024: festa no sul de Beirute - (crédito: Ibrahim Amro/AFP)

Depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar que os líderes de Israel e do Líbano acordaram uma trégua, o cessar-fogo entrou efetivamente em vigor à zero hora desta sexta-feira (17/4) pelo horário local (18h de quinta-feira, 16/4, no horário de Brasília). A pausa nos combates está prevista para durar 10 dias. "O governo libanês se comprometeu a adotar medidas significativas para impedir que o Hezbollah realize ataques, operações ou atividades hostis de qualquer tipo contra alvos israelenses", segundo comunicado do Departamento de Estado americano. O Hezbollah, movimento fundamentalista xiita libanês aliado ao Irã, e as Forças de Defesa de Israel (IDF) têm travado uma guerra desde 1º de março, dia seguinte ao assassinato do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano. Trump também disse que convidará o primeiro-ministro israelense. Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Joseph Aoun à Casa Branca "nos próximos quatro ou cinco dias". "Esses dois líderes concordaram que, para alcançar a paz entre seus países, iniciarão formalmente um cessar-fogo de 10 dias", escreveu o titular da Casa Branca em sua plataforma Truth Social. 

Em vídeo divulgado por seu gabinete, Netanyahu saudou o cessar-fogo como uma "oportunidade para uma paz sustentável" e "um acordo de paz histórico". Ele prometeu que as IDF "permanecerão" em uma faixa de 10km no sul do Líbano, a partir da fronteira. Em entrevista à agência de notícias France-Presse, Ibrahim Al-Musawi, um parlamentar libanês do Hezbollah, acenou com o respeito à trégua. "Nós, do Hezbollah, aderiremos ao cessar-fogo com cautela, desde que haja uma cessação completa das hostilidades contra nós e que Israel não o utilize como oportunidade para realizar assassinatos", afirmou, horas antes do início da pausa na guerra. "Agradecemos ao Irã por pressionar o Líbano a nosso favor."

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O Ministério das Relações Exteriores do Irã reagiu positivamente ao início da trégua entre Israel e Líbano. "Acolhemos com satisfação o anúncio do cessar-fogo no Líbano e assinalou que o fim da guerra no Líbano fazia parte do entendimento sobre o cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, mediado pelo Paquistão", declarou o porta-voz da pasta, Esmail Baghaei. Por sua vez, Esmail Qaani, comandante da Força Quds, uma unidade especial do Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC, pela sigla em inglês), disparou: "O vencedor da batalha decisiva é o Hezbollah". Moradores de Beirute, capital do Líbano, comemoraram a notícia da trégua disparando para o alto, enquanto muitos retornavam às suas casas na região sul da cidade. 

Sul isolado

Pela manhã, a aviação israelense bombardeou uma ponte considerada estratégica no sul do Líbano, praticamente isolando o restante do país. "Aviões inimigos lançaram dois ataques consecutivos contra a ponte de Qasmiyeh, a última ponte entre as regiões de Tiro e Sidon, que foi completamente destruída", informou a Agência Nacional de Notícias (ANI), do Líbano. O ataque sucedeu a uma ordem das IDF para que os civis abandonassem toda a região sul do Líbano até o Rio Zahrani, quase 40km ao norte da fronteira.  Minutos antes do início da trégua, o Hezbollah lançou foguetes contra o norte de Israel, ferindo gravemente um motociclista de 25 anos e uma garota de 17, na região de Karmiel, segundo o jornal The Times of Israel. Em Nahariya, um homem de 40 anos foi atingido por um dos artefatos e está em condição moderada de saúde. 

Ponte Qasmieh,uma das principais vias de ligação do sul do Líbano com o resto do país, transformada em destroços, após bombardeio
Ponte Qasmieh,uma das principais vias de ligação do sul do Líbano com o resto do país, transformada em destroços, após bombardeio (foto: Kawnat Haju/AFP)

"Este cessar-fogo está ligado tanto a uma dinâmica propriamente libanesa (israelense), quanto à dinâmica das potenciais negociações entre os Estados Unidos e o Irã. Nesse sentido, é uma trégua frágil, com certeza", afirmou ao Correio Joseph Bahout, diretor do Instituto de Políticas Públicas e de Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute. "O que torna a relação frágil no âmbito libanês-israelense é que as expectativas de ambas as partes são muito diferentes, e as suas agendas, quase que opostas." 

De acordo com Bahout, o Líbano deseja a rápida retirada israelense de seu território; o retorno da população deslocada pela guerra para o sul; e garantias de que ataques não se repetirão esporadicamente. "Essas exigências são condições para um avanço nas negociações de paz", disse o libanês. "Israel, por sua vez, quer o desarmamento do Hezbollah e um compromisso de buscar a paz antes de qualquer medida ou concessão em território libanês." Tecnicamente, Israel e Líbano estão em guerra há décadas.

EU ACHO...

Joseph Bahout, diretor do Instituto de Políticas Públicas e de Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute
Joseph Bahout, diretor do Instituto de Políticas Públicas e de Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute (foto: Arquivo pessoal )

"O otimismo é muito cauteloso; e muitos problemas provavelmente surgirão nos próximos dias. Vários passos intermediários ainda serão necessários antes de a região — incluindo o Líbano — alcançar um conjunto de condições que tornem possível uma paz 'verdadeira' e duradoura."

JOSEPH BAHOUT, diretor do Instituto de Políticas Públicas e de Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute

Papa Leão XIV no ataque

Em mais um lance de sua polêmica pública com o presidente Donald Trump, o papa Leão XIV, o primeiro nascido nos Estados Unidos, atacou duramente os "tiranos" que "devastam o mundo" em guerras nas quais investem bilhões de dólares. A declaração foi feita em Bamenda, foco de anos de violência étnico-religiosa nos Camarões, escala da visita iniciada nesta semana pela África.

"Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para o próprio benefício militar, econômico e político", disse o pontífice. Aparentemente, ele respondia ao vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, um católico, que o criticara e pedira que tivesse "cuidado" ao abordar questões de teologia. "Fecham os olhos para os bilhões de dólares gastos em matanças e destruição, enquanto não se encontram recursos para saúde, educação e reconstrução."

O papa celebra missa nos Camarões: críticas aos gastos com guerras
O papa celebra missa nos Camarões: críticas aos gastos com guerras (foto: Alberto Pizzoli/AFP)

Em meio às críticas duras que dirigiu aos governantes, o papa reservou palavras de conforto e estímulo aos que lutam pela paz e "praticam a fraternidade. "O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas é mantido unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários", discursou o papa diante dos fiéis.

Aparentemente em resposta ao pontífice, Trump voltou a invocar a repressão a uma onda de protestos contra o regime islâmico, citando uma cifra de vítimas apresentada por organizações pró-direitos humanos baseadas nos EUA e na Europa, mas contestados por Teerã. "O papa precisa entender que o Irã matou mais de 42 mil pessoas nos últimos meses", disse. "Eram manifestantes totalmente desarmados, e o papa tem que entender isso" reforçou. "Esse é o mundo real, é um mundo desagradável."

Bate-boca

O pontífice vem mantendo nos últimos dias uma polêmica pública com o presidente dos EUA, fundamentalmente em torno da guerra iniciada por Trump contra o Irã, no último dia de fevereiro. Antes mesmo de partir do Vaticano para uma visita de 11 dias à África, o papa questionou em público a opção da Casa Branca por uma solução militar para seus contenciosos com o Irã. Incomodado, Trump criticou o compatriota como "fraco contra o crime e terrível em política externa". Em resposta, Leão XIV afirmou que "não tem medo" do presidente norte-americano e seguirá "difundindo em alto e bom som a mensagem do Evangelho".

A controvérsia foi marcada por publicações de Trump em sua rede social, a Truth Social, nas quais não apenas atacou diretamente o chefe da Igreja Católica. Em uma delas, Trump usou uma imagem gerada por inteligência artificial na qual se retratava em uma cena inspirada nos Evangelhos. Vestido com túnica branca e um manto vermelho, ele tocava a fronte de um doente e irradiava luz. Sob críticas generalizadas, inclusive de sua base cristã ultraconservadora, o presidente retirou a postagem.

Saque colonial

Na missa que celebrou em Camarões, para cerca de 20 mil fiéis, Leão XIV abordou as mazelas do país, imerso em uma persistente guerra civil. Denunciou "o mal causado a partir do exterior por aqueles que, em nome do lucro, continuam apoderando-se do continente africano para explorá-lo e saqueá-lo". Camarões possui abundantes recursos, como petróleo, madeiras preciosas, cacau, café e algodão, mas também vastas jazidas minerais que há décadas atraem grupos estrangeiros e elites locais.

Bamenda é o epicentro do conflito que, desde 2016, opõe os independentistas da minoria anglófona do país ao governo de Iaundé. Tanto separatistas como forças de segurança foram acusados de cometer atrocidades contra a população. Os civis se tornaram alvo de extorsão, violência, sequestros e assassinatos. E pelo menos 6 mil pessoas morreram desde o início dos confrontos, segundo a ONU.

Entrega de urânio enriquecido

O Irã aceitou entregar suas reservas de urânio enriquecido. O anúncio, ainda não corroborado por Teerã, foi feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo o qual americanos e iranianos estão "perto" de um acordo de paz. "Eles aceitaram nos devolver o 'pó' nuclear", declarou o republicano a jornalistas na Casa Branca, ao citar o urânio enriquecido que, segundo Washington, poderia ser utilizado na fabricação de armas nucleares. 
O regime iraniano considera o programa nuclear um orgulho nacional e sublinha que o mesmo tem fins civis. Na quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que ninguém pode tirar do país o direito à utilização da energia nuclear. Ao mesmo tempo, admitiu que o índice de enriquecimento de urânio é uma questão "negociável". 
"O presidente Trump diz um monte de coisas que não são, necessariamente, verdadeiras", disse ao Correio Daryl G. Kimball, diretor da Arms Control Association (Associação de Controle de Armas). "Se o Irã concordou em se desfazer de seu estoque de 440kg de urânio enriquecido a 60% de U-235 (urânio 235), como parte de um acordo mais amplo para encerrar a guerra e evitar novos ataques israelo-americanos, isso deve ser feito sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Isso para garantir que seja realizado com segurança e para garantir a contabilização adequada dos materiais",  explicou. 
Segundo Kimball, o Irã detém conhecimento necessário para produzir material nuclear usado em bombas e para construir um dispositivo atômico simples. "No entanto, as instalações de enriquecimento de urânio em escala industrial foram severamente danificadas pelos bombardeios dos Estados Unidos em junho de 2025, e o materla enriquecido não está imediatamente acessível", lembrou. "Se a liderança tomasse a decisão de tentar construir uma arma nuclear, isso significaria que o Irã levaria muitos meses para enriquecer seu material, atualmente composto por 60% de urânio, até o grau necessário para bombas (90% de urânio-235) e provavelmente mais de um ano para construir um dispositivo nuclear." O estudioso garantiu que não havia ameaça iminente de o Irã fabricar armas nucleares antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. (RC)

  • Ponte Qasmieh,uma das principais vias de ligação do sul do Líbano com o resto do país, transformada em destroços, após bombardeio
    Ponte Qasmieh,uma das principais vias de ligação do sul do Líbano com o resto do país, transformada em destroços, após bombardeio Foto: Kawnat Haju/AFP
  • Joseph Bahout, diretor do Instituto de Políticas Públicas e de Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute
    Joseph Bahout, diretor do Instituto de Políticas Públicas e de Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute Foto: Arquivo pessoal
  • O pontífice celebra missa nos Camarões: críticas aos gastos com guerras
    O papa celebra missa nos Camarões: críticas aos gastos com guerras Foto: Alberto Pizzoli/AFP
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postado em 17/04/2026 05:50
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