Oriente Médio

Gaza, uma terra (quase) esquecida: milhares de palestinos seguem à deriva

Sete meses depois da assinatura do acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, não existe sinal de paz ou de reconstrução no enclave palestino. Plano de 20 pontos do presidente Donald Trump esbarra em ceticismo e em obstáculos políticos

Menina palestina diante de edifícios destruídos em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza -  (crédito: Eyad Baba/AFP)
Menina palestina diante de edifícios destruídos em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza - (crédito: Eyad Baba/AFP)

Vez ou outra, explosões ecoam pelos quatro cantos da Faixa de Gaza. E as cenas se repetem: os corpos envoltos em bandeiras da Palestina, desespero, choro e dor. Uma lembrança de que a paz prometida por Donald Trump jamais veio. A Faixa de Gaza tornou-se uma terra (quase) esquecida e arrasada. Pelo menos 80% dos prédios foram reduzidos a escombros. Pilhas deles ainda são presença marcante no horizonte do enclave palestino. Pouco ou praticamente nada foi removido para dar lugar à reconstrução, outra promessa dos Estados Unidos. Em 12 de outubro passado, Trump anunciou, durante uma conferência no Egito com líderes de Egito, Catar e Turquia: "Juntos conseguimos o que todos diziam ser impossível; finalmente temos paz no Oriente Médio". Na prática, a assinatura do acordo de cessar-fogo ficou restrita aos holofotes e à esperança. Milhares de palestinos seguem desabrigados, obrigados a viver sob tendas, expostos a condições de vida insalubres e ao ataque de ratos, além de doenças transmitidas pelos roedores. 

Zaha Hassan, especialista do Programa Oriente Médio do instituto Carnegie Endowment for International Peace (CEIP, em Washington), explicou ao Correio que o plano de paz de 20 pontos de Trump não foi implementado por um motivo político. "Os Estados Unidos optaram por não usar a própria influência para levá-lo adiante", afirmou. Ela sublinhou que não existe um substituto para os EUA como mediador de paz com influência suficiente sobre Israel. O plano da Casa Branca prevê o desarmamento completo do movimento fundamentalista islâmico palestino Hamas e sua exclusão de Gaza e a criação de um Comitê de Paz governado pelo próprio Trump para supervisionar o estabelecimento de um governo tecnocrata no enclave — o Comitê Nacional para a Administração de Gaza. 

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Hassan lembrou que as partes jamais acordaram a Fase 2 do plano de Trump, a qual inclui a desmilitarização, a transferência de governo e a reconstrução em larga escala.  "Esta foi essencialmente adiada. O alto representante para o Comitê de Paz, Nickolay Mladenov, indicou em uma carta vazada que a Fase 2 ocorrerá mesmo sem a concordância do Hamas em se desarmar. Se isso for verdade, significa um retorno ao conflito violento e o fim do cessar-fogo. Sem a trégua nos ataques e a estabilização da situação no terreno, não haverá ajuda humanitária, recuperação e reconstrução. E, claro, a autodeterminação palestina não estará ao alcance", alertou a especialista.  

Contradições

Professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, Alon Ben-Meir avalia que o plano de Trump entrou em colapso por suas próprias contradições. "Ele tentou impor uma nova ordem sem consentimento palestino; adiou todos os temas centrais — soberania, governança e desmilitarização — a um futuro vago; e dependeu de poderes externos indispostos a garanti-lo", disse ao Correio. Estudioso em Oriente Médio, Ben-Meir explicou que, na ausência de confiança, legitimidade ou implementação, o acordo tornou-se mais um comunicado diplomático do que um processo vivo.

Ainda segundo Ben-Meir, o governo do premie israelense, Benjamin Netanyahu, rejeita qualquer processo que conduza a um Estado palestino viável, ao mesmo tempo que consolida o controle sobre territórios, fronteiras e segurança. "Nenhum cessar-fogo pode se transformar em paz quando um dos lados insiste na dominação permanente em vez da coexistência negociada", advertiu. Por outro lado, ele interpreta a política palestina como profundamente fragmentada entre o Hamas, em Gaza, e a Autoridade Palestina, na Cisjordânia. "Não há uma estratégia unificada nem em um parceiro plenamente capacitado para negociar e implementar um acordo abrangente."

"A guerra não acabou", assegurou ao Correio, por telefone, Ajith Sunghay, chefe do Escritório de Direitos Humanos da ONU nos Territórios Palestinos Ocupados, em Amã (Jordânia). "O que ocorreu foi o anúncio de um cessar-fogo. Mesmo em meio a esse cessar-fogo, 850 palestinos foram atingidos e assassinados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) dentro de Gaza", explicou. Segundo ele, o que mudou nos últimos sete meses foi a escala de bombardeios israelenses e de deslocamento populacional. "A situação humanitária permanece drástica. Há enormes problemas em distribuir ajuda em quantidades necessárias para o povo da Palestina. Atualmente, só duas passagens fronteiriças permitem acesso a Gaza", acrescentou Sunghay.

Burocracia

O representante das Nações Unidas também lamenta os entraves burocráticos. "Para nos movermos dentro de Gaza e fornecer ajuda, precisamos de veículos, de peças de reposição, de autorização para acesso. Tudo isso é muito difícil de obter, porque Israel vem com diferentes demandas e diferentes solicitações", explicou Sunghay. Ele lamenta que o povo palestino não possa contar com um suprimento previsível de comida ou outro bem humanitária. A situação é agravada pelo aumento dos preços de produtos e de alimentos. "Apesar das promessas de reconstruir Gaza, isso nem de perto começou. Temos visto uma infestação massiva de ratos e de insetos, o que leva à disseminação de doenças. Os palestinos lutam dia após dia", concluiu. 

Moradora em uma barraca do campo de refugiados Al-Bureij, no centro de Gaza, Shireen Al-Kurdi, 36 anos, classifica a vida no território como "extremamente difícil". "As operações militares israelenses continuam a avançar em algumas áreas. A linha amarela traçada por Israel se aproxima cada vez mais das áreas residenciais", disse ao Correio, ao mencionar a demarcação que separa a área sob controle israelense da região costeira, onde a maioria da população está abrigada sob as tendas. "Todos os dias há mortos e feridos nos bombardeios, e sofremos com a escassez de comida, água, eletricidade e medicamentos. Muita gente sente que a guerra não terminou realmente. O sofrimento e a insegurança continuam diariamente", admitiu Shireen. 

 

Duas perguntas para...

Zaha Hassan, especialista do Programa Oriente Médio do instituto Carnegie Endowment for International Peace (CEIP)

O que mudou na Faixa de Gaza desde a assinatura do acordo de cessar-fogo?

O acordo de cessar-fogo conseguiu libertar todos os reféns israelenses e reduzir a quantidade de ataques de grande intensidade de Israel aos civis palestinos. Não resultou na abertura da passagem fronteiriça de Rafah, nas retiradas israelenses, na ajuda em larga escala e na permissão para que a ONU e organizações humanitárias realizassem seu trabalhos em restrições. O que os palestinos enfrentam como futuro é violência episódica, privações profundas, traumas psicológicos contínuos e nenhuma esperança de alívio dessa situação. É difícil não acreditar que o objetivo seja forçá-los a sair de Gaza ou levá-los à sua lenta destruição.

Quais os principais obstáculos políticos para a implementação?

Os principais obstáculos serão como incentivar terceiros Estados — principalmente os Estados árabes do Golfo, mas também os europeus — a pressionar os EUA para que Israel cumpra a Fase 1 do plano de Trump. A Fase 2 dificilmente será possível, pois Israel não tem intenção de buscar uma solução política compatível com a autodeterminação palestina no restante do território palestino. Sem solução política, o Hamas e outros grupos armados não se desarmarão e não se engajarão mais no plano. É uma situação lamentável. O que a comunidade internacional ignora é que o Tribunal Internacional de Justiça determinou que a ocupação israelense é ilegal, que seu regime é de apartheid contra os palestinos e que terceiros Estados têm a obrigação de pôr fim à situação e apoiar os direitos palestinos. (RC)

  • Primeiro socorrista escolta mulher e criança entre escombros, em Rimal, bairro da Cidade de Gaza
    Primeiro socorrista escolta mulher e criança entre escombros, em Rimal, bairro da Cidade de Gaza Foto: Omar Al-Qattaa/AFP
  • Ajith Sunghay, chefe do Escritório de Direitos Humanos da ONU nos Territórios Palestinos Ocupados
    Ajith Sunghay, chefe do Escritório de Direitos Humanos da ONU nos Territórios Palestinos Ocupados Foto: Arquivo pessoal
  • Shireen Al-Kurdi, palestina, desabrigada, moradora no campo de refugiados de Al-Bureij (centro)
    Shireen Al-Kurdi, palestina, desabrigada, moradora no campo de refugiados de Al-Bureij (centro) Foto: Arquivo pessoal
  • Hassan Salem, 26 anos, repórter fotográfico, morador do campo de refugiados de Jabalia
    Hassan Salem, 26 anos, repórter fotográfico, morador do campo de refugiados de Jabalia Foto: Arquivo pessoal
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postado em 24/05/2026 06:00
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