
Os primeiros movimentos da campanha para o segundo turno da eleição presidencial, no domingo 21 de junho, parecem deixar claro que a Colômbia viverá três semanas de um confronto com pouca margem para cortesia e quase nenhuma convergência. O candidato da extrema-direita trumpista, Abelardo de la Espriella, que contratriou as pesquisas e venceu a primeira etapa, com 44% dos votos, deu a largada para o tira-teima tratando de empurrar para a defensiva o senador esquerdista Iván Cepeda, candidato do presidente Gustavo Petro, que liderava as sondagens, mas saiu das urnas com 41% e busca na limitada "sobra" dos votos dados a terceiros postulantes os que lhe faltam para virar o jogo.
- Trump indica novo embaixador dos EUA no Brasil; posto está vago desde 2025
- Quem é Daniel Perez, indicado por Trump para ser embaixador dos EUA no Brasil
Não por acaso, Cepeda, que se recusou a debater com os rivais no primeiro turno, tratou de propor ao adversário um confronto público. "Desafio o candidato Abelardo de la Espriella para um debate político e eleitoral", disse ontem Cepeda, de 63 anos, exigindo "condições para a realização" do encontro — sem especificar quais seriam. "Agora você vai debater, seu covarde? Você se escondeu enquanto seu chefe (Petro) fazia campanha para você, e vocês fracassaram", respondeu o candidato de extrema direita, um advogado milionário de 47 anos, estreante na política institucional. Na primeira etapa da disputa, o candidato governista recusou debates por conta de "ataques pessoais" e da "cultura de espetáculo".
"O resultado do primeiro turno, na Colômbia, confirma o contexto que já temos na América Latina, de alta polarização, com o segundo turno entre um candidato ultraconservador e um de esquerda, de viés mais socialista", disse ao Correio o professor de relações internacionais Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM. "Praticamente há meia década, esse tem sido o nosso perfil." Uebel avalia que De la Espriella, no papel de candidato "antissistema", agregou em torno de si o voto contrário ao governo Petro, que teria fragilizado a economia e se colocado em rota de confronto direto com os EUA. "Dificilmente a esquerda conseguirá reverter o quadro", arrisca.
É parecida a expectativa de Diego Vera, titular de relações internacionais na Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá. Em especial, com o anúncio formal da terceira colocada, Paloma Valencia, da direita alinhada ao ex-presidente Álvaro Uribe, de que apoiará De la Espriella na votação de 21 de junho. "Nesse caso, Cepeda deve ser derrotado" por um candidato que se apresenta como "um outsider populista de direita que emula figuras como Donald Trump ou Nayib Bukele" — uma referência ao presidente de El Salvador, que se impôs com uma agenda de linha dura extrema contra o crime.
Pêndulo ideológico
O professor colombiano vê a provável guinada não apenas no contexto da maré à direita que se espraia na América Latina, com epicentro na ascensão de Trump à Casa Branca, e lembra a dinâmica interna da gangorra política em seu país. "Com Álvaro Uribe (2002-2010), tivemos uma primeira experiência política de mão dura contra o terrorismo", explica, invocando a "guerra total" contra a guerrilha de esquerda, que produziu, em 2018, a desmobilização da maior parte dos seus contingentes. Depois dos últimos anos da "paz total" de Petro, empenhado em negociações com remanescentes da insurgência e cartéis do narcotráfico, "a Colômbia parece cair na armadilha do pêndulo entre os extremos político-ideológicos".
É por essa perspectiva que o estudioso da ESPM vê a reação inicial do presidente, que se recusou inicialmente a aceitar os resultados preliminares anunciados pela autoridade eleitoral e lançou a suspeita de fraudes, em especial em torno da baixa taxa de comparecimento dos eleitores. "Petro parece ter ido para o tudo ou nada, com declarações muito questionáveis", observa Uebel. "Acredito que ele tentará polarizar ao máximo para conseguir votos para Cepeda, mas ele próprio passa por uma crise de legitimidade."
Duas perguntas para
Diego Vera, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Javeriana (Bogotá)
Abelardo de la Espriella sai como favorito para o segundo turno?
Sim, e o surpreendente não é que tenha passado ao segundo turno, mas que tenha sido com três pontos percentuais acima de Iván Cepeda. Sai como favorito para o segundo turno não por ter uma base eleitoral sólida, mas porque muitos votam escolhendo o "menos pior" entre os dois extremos ideológicos. Podemos interpretar nisso um triplo voto de castigo ao governo Petro, pela radicalização, e a Cepeda, pela arrogância de não apresentar um programa formal de governo.
Há caminho para Cepeda virar o jogo?
Ele tem opções diretas e indiretas. Uma é aceitar que, agora, debater com o adversário é uma necessidade. Mas, diferentemente de Petro, Cepeda não tem o mesmo carisma e a capacidade de improvisação diante de públicos mais amplos. É seguro que sua campanha vai recorrer a ataques contra o passado de um advogado da direita, embora isso não deva render muitos votos. E é certo, também, que tentarão acionar todos os recursos de governo disponíveis. Pensando no eleitor médio, o que conviria mais a ele, além de apresentar um programa claro, é moderar o discurso revolucionário e apostar na conciliação nacional, para tentar atrair votos de candidatos mais ao centro. (Silvio Queiroz)
De quem é a camisa?
A 10 dias da abertura da Copa do Mundo, o candidato da esquerda, Iván Cepeda, acusou o adversário direitista no segundo turno — dentro de três semanas, com a Colômbia em campo — de "roubar" a camisa do time que representa o país na disputa mais importante do futebol. "O senhor De La Espriella tem como costume roubar as coisas. Agora, é a camisa da seleção", disse o senador governista, no dia seguinte à derrota na primeira etapa para o advogado milionário, representante da extrema-direita. "Desde quando a Seleção da Colômbia é patrimônio da campanha dele?" Assim como muitos apoiadores, o candidato da direita, a mulher e os filhos envergavam a camisa amarela, semelhante à do Brasil, no comício em que comemoraram o resultado das urnas. Cepeda chegou a cobrar um pronunciamento da Federação Colombiana de Futebol, que preferiu "manter-se à margem dos debates políticos e eleitorais".
Saiba Mais

Cidades DF
Tecnologia
Diversão e Arte