GOVERNOS LATINO-AMERICANOS

Eleição na Colômbia redesenha mapa político sul-americano; veja

Mudança de governo em Bogotá reduz aliados de Lula e fortalece bloco conservador no continente

De empresário precoce a advogado controverso, a entrada de Abelardo de la Espriella na política sacudiu a Colômbia -  (crédito: JOAQUIN SARMIENTO / AFP via Getty Images)
De empresário precoce a advogado controverso, a entrada de Abelardo de la Espriella na política sacudiu a Colômbia - (crédito: JOAQUIN SARMIENTO / AFP via Getty Images)

Por Letícia Passos e Amanda S. Feitoza — A eleição de Abelardo de la Espriella para a Presidência da Colômbia representa uma mudança importante no cenário político sul-americano. Com a vitória do líder do partido Defensores de la Patria, o campo conservador amplia sua presença na região e encerra o ciclo do presidente Gustavo Petro, um dos principais aliados do governo brasileiro no continente. A posse do novo mandatário está prevista para 7 de agosto.

Com a mudança em Bogotá, 6 dos 12 países da América do Sul passam a ser governados por líderes identificados com a direita (e seus espectros, como extrema-direita e centro-direita). São eles:

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  • Argentina;
  • Bolívia;
  • Chile;
  • Colômbia;
  • Equador;
  • Paraguai.

O cenário pode se alterar novamente nos próximos meses, a depender do resultado das eleições no Peru, onde a disputa entre candidatos de campos ideológicos opostos segue em aberto.

Para Jhonathan Mattos, Mestre e doutorando em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a vitória de De la Espriella não deve ser interpretada como um episódio isolado nem como uma mudança abrupta no rumo político da região.

"Eu vejo a eleição na Colômbia como uma consequência de um ciclo de direita que vem se consolidando muito a partir da figura do outsider, aquele que diz que não é político, aquele que nega essa trajetória", afirmou ao Correio. Segundo ele, lideranças como Javier Milei, na Argentina, e outros nomes da direita latino-americana ajudam a explicar esse movimento de ascensão conservadora.

A configuração atual contrasta com a observada há pouco mais de uma década. Em meados dos anos 2010, a maior parte dos governos sul-americanos era ocupada por partidos de esquerda ou centro-esquerda, fenômeno que ficou conhecido como "onda rosa". Nos últimos anos, no entanto, a região passou por sucessivas alternâncias de poder, impulsionadas por crises econômicas, mudanças no comportamento do eleitorado e debates sobre segurança pública, inflação e desigualdade social.

Mattos avalia que a Colômbia ocupava uma posição singular nesse contexto.

"O mapa ideológico da América Latina hoje é muito periclitante. A gente tem aqui a maior parte dos governos dominados pela direita e pela extrema-direita. A Colômbia era uma exceção", diz. Para ele, a derrota do grupo político de Gustavo Petro enfraquece a presença de governos progressistas na região e altera o equilíbrio político sul-americano.

Durante a campanha, o presidente eleito colombiano manifestou proximidade com lideranças conservadoras de outros países e chegou a se declarar admirador do ex-presidente Jair Bolsonaro. A relação com integrantes da família Bolsonaro foi explorada por aliados e adversários ao longo do processo eleitoral, evidenciando a crescente articulação entre grupos de direita na América Latina.

A mudança de governo também pode trazer impactos para a política externa brasileira. Sob Gustavo Petro, Colômbia e Brasil mantiveram diálogo frequente em temas como a crise política na Venezuela e iniciativas de integração regional. A expectativa agora é que o novo governo colombiano adote posições distintas em algumas dessas agendas, especialmente em questões relacionadas à segurança e à cooperação com os Estados Unidos.

Na avaliação do pesquisador, a mudança em Bogotá amplia a pressão geopolítica sobre o Brasil. "Se você olhar para todos os nossos vizinhos, diferentemente do que aconteceu nos anos 2000, que foi a chamada onda rosa, a gente hoje vive uma onda conservadora", afirma. Mattos acrescenta que esse movimento também é influenciado pela política externa norte-americana e pela atuação do presidente Donald Trump na região.

Na avaliação do professor Roberto Goulart Menezes, decano e vice-diretor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o resultado da eleição na Colômbia pode provocar um distanciamento do país em relação aos projetos de integração regional defendidos pelo Brasil e por outros governos sul-americanos.

Segundo o especialista, a tendência é que o futuro governo colombiano se aproxime mais dos Estados Unidos, especialmente da agenda política associada ao presidente Donald Trump. Apesar disso, ele ressalta que o republicano tem adotado uma postura pragmática e nem sempre corresponde às expectativas de governos da região que buscam maior alinhamento com Washington.

Menezes destaca que a mudança de cenário pode dificultar ainda mais as iniciativas de integração regional lideradas pelo Brasil. Nos últimos anos, a Colômbia ganhou importância estratégica para a economia brasileira, sobretudo após a redução das exportações para a Argentina em razão da crise econômica enfrentada pelo país vizinho. “O Brasil vinha num processo acelerado de estreitamento das relações com a Colômbia e buscando ampliar a pauta exportadora para o país”, afirma.

O professor também lembra que Brasil e Colômbia vinham compartilhando posições semelhantes em temas como preservação ambiental e defesa da democracia na região. Com a nova configuração política, esse alinhamento tende a perder força.

Para ele, a mudança reforça um cenário de predominância de governos de direita e direita radical na América do Sul, alterando o equilíbrio político regional. “Essa mudança significa que o equilíbrio político regional fica muito favorável à direita e à direita radical”, avalia.

Na análise do especialista, a região atravessa um momento de forte divisão política, o que reduz as possibilidades de construção de mecanismos de governança regional. Países como Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Peru e agora a Colômbia passam a compor um quadro que dificulta avanços em agendas comuns de cooperação.

Nos últimos anos, governos conservadores da América do Sul têm buscado estreitar relações com Washington, sobretudo em áreas ligadas à defesa, combate ao crime organizado e comércio exterior. De la Espriella já indicou que pretende ampliar a cooperação militar com os Estados Unidos e priorizar políticas de enfrentamento ao narcotráfico e à corrupção, temas que estiveram no centro de sua campanha.

Enquanto o Peru ainda aguarda a definição de seu cenário eleitoral, a América do Sul acompanha uma nova reorganização política. Brasil, Venezuela e Uruguai seguem sob governos de esquerda ou centro-esquerda, mas convivem com uma vizinhança cada vez mais diversa do ponto de vista ideológico, em um contexto marcado por alternâncias frequentes de poder e disputas sobre os rumos políticos e econômicos da região.

Menezes observa ainda que a eleição anterior de Gustavo Petro representou uma exceção na trajetória política colombiana, marcada historicamente pelo predomínio de forças conservadoras. Para ele, o desempenho do campo progressista nesta disputa demonstra que o país continua polarizado, mas sem uma mudança estrutural em sua dinâmica política.

Ao comentar o comportamento do eleitorado sul-americano, o especialista afirma que a alternância de poder faz parte do processo democrático, mas ressalta a influência do cenário internacional. Segundo ele, o governo Trump tem manifestado apoio a candidatos alinhados aos interesses dos Estados Unidos na região. “Não é um movimento tão espontâneo assim”, reforça.

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postado em 22/06/2026 19:11 / atualizado em 22/06/2026 19:12
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