Reino Unido

O novo inquilino de 10 Downing Street

Andy Burnham, líder trabalhista e ex-prefeito da Grande Manchester, assume hoje como o 59º primeiro-ministro britânico. Especialistas avaliam os desafios à frente do governo e veem um político capaz de se conectar com os anseios do povo

Andy Burnham sorri após ser confirmado líder do Partido Trabalhista, na sexta-feira: carisma e retórica  -  (crédito: Toby Shepheard/AFP)
Andy Burnham sorri após ser confirmado líder do Partido Trabalhista, na sexta-feira: carisma e retórica - (crédito: Toby Shepheard/AFP)

Assim que for recebido pelo rei Charles III, nesta segunda-feira, o trabalhista Andy Burnham se tornará o 59º primeiro-ministro do Reino Unido desde 1721. Ex-prefeito da Grande Manchester, metrópole de 3 milhões de habitantes, Burnham sucederá Keir Starmer no comando da nação. À sombra do vexame de seu partido nas eleições de maio — quando os trabalhistas perderam quase quatro vezes  mais eleitores para os Verdes do que o Reform UK (de Nigel Farage) —, ele ganhou a alcunha de político acessível e pragmático.

Também de alguém capaz de se simpatizar com os cidadãos nos desafios impostos pelo cotidiano e na busca por melhores condições de moradia e saúde. Na sexta-feira, ao tomar posse como líder do Partido Trabalhista, adotou um tom conciliador e agregador, uma marca que pretende levar durante o tempo que permanecer como inquilino do número 10 da Downing Street. 

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Professor de política da Queen Mary University of London, Tim Bale aposta que Burnham será um melhor comunicador da messagem do governo, em comparação com Starmer. "Vejo alguém que pode transmitir uma maior sensação de esperança e direção. Se isso será suficiente para tornar o governo bem-sucedido, é mais duvidoso: Burnham pode até ter uma 'lista de tarefas' diferente da de Starmer, mas a sua 'pilha de pendências' não será muito diferente", afirmou ao Correio. 

Bale aponta os principais desafios de Burnham no comando do Reino Unido. "Ele precisa fazer com que a economia cresça mais rapidamente; acelerar as melhorias no NHS (o sistema público de saúde britânico), especialmente no que diz respeito às listas de espera e aos tempos de espera nos serviços de urgência e emergência; e controlar a chegada dos imigrantes em pequenas embarcações e a situação dos 'hotéis para requerentes de asilo'."

No plano da retórica econômica, Bale acredita que Burnham é mais crítico do neoliberalismo e mais aberto ao controle estatal. "Ele também mostra-se defensor de uma relação mais próxima com a União Europeia e de uma reforma eleitoral. Mas, falar é fácil! Teremos que ver se ele conseguirá passar das palavras às ações!", concluiu o estudioso. 

Por sua vez, Anand Menon — diretor do think tank UK in Changing Europe ("O Reino Unido em uma Europa em mudança") e professor de política europeia e asuntos externos do King's College London — considera difícil prever os rumos da gestão de Burnham. Ele sustenta que o ex-prefeito de Manchester não tem um programa de governo. "Por isso, é muito difícil prever quão eficaz ele será. Eu não esperava que Keir Starmer fosse tão ruim. Nem que Ronald Reagan seria tão eficaz quanto acabou sendo!", disse, ao citar o ex-presidente dos Estados Unidos (1981-1989). 

De acordo com Menon, Burnham precisará lidar com um cenário internacional instável e imprevisível. "Nós somos, hoje, particularmente dependentes dos Estados Unidos. Burnham também herdará uma economia que, basicamente, não cresce em um ritmo satisfatório desde 2008", observou. Romper esse ciclo de 18 anos de estagnação será uma das principais tarefas do novo premiê. "Burnham é melhor comunicador do que Starmer e parece-me mais capaz de contar uma história convincente. No entanto, não temos ideia do que ele planeja fazer." 

Conexão

Para Anthony Glees, professor emérito da Universidade de Buckingham, a novidade será um primeiro-ministro capaz de se conectar melhor com o povo britânico. "Ele não repetirá a interminável lista de erros cometidos pelo antecessor (Starmer). Creio que Burnham tentará se apresentar ao próprio Partido Trabalhista como alguém mais à esquerda do que Starmer. No entanto, depois de 2024 e das guinadas de Starmer à esquerda, francamente, não haverá muita diferença nesse aspecto", disse ao Correio. O estudioso de Buckingham avalia que Burnham possui um carisma e um charme naturais que faltam a Starmer. Glees acrescentou que, na teoria, o novo premiê poderia usar esse trunfo para se aproximar de outros partidos: os conservadores, liderados pelo direitista Kemi Badenoch; os liberais-democratas, que aprecisam a antiga postura de Burnham a favor da União Europeia; e os Verdes, comandados por Zack Polanski. 

Ainda segundo Glees, a situação objetiva que Burnham terá que encarar em nada difere daquela enfrentada por Keir Starmer. Ela incluiu enormes problemas econômicos decorrentes do baixo crescimento e de gastos insustentáveis com o Estado de bem-estar social. "Também cito a necessidade de aumentar rapidamente o orçamento de defesa sem dispor de recursos para tal; e uma deterioração do cenário de segurança, com violência interna de motivação política, vista no atentado contra a política Anne Widdecombe, figura de destaque da direita, bem como em ataques orquestrados pelo Irã e pela Rússia — incluindo investidas contra propriedades do próprio Starmer (sua residência particular e um carro que ele havia vendido recentemente) e diversas ameaças de morte a parlamentares."

No cenário externo, Burnham precisará lidar com a ameaça representada pelo presidente russo, Vladimir Putin, e sua guerra nacionalista contra a Ucrânia. "Isso poderia levar a ataques de Moscou em países bálticos ou mesmo no Reino Unido e Noruega. Também mencionaria a relação com a União Europeia, nosso maior parceiro comercial. O Reino Unido precisa de um maior acordo de comércio com o bloco, mas enfrenta a oposição do UK Reform, o partido mais popular do país, liderado por Farage."

Entre a política e a paixão pelo futebol

Andy Burnham, o novo primeiro-ministro britânico e um dos políticos mais populares do Reino Unido, segundo as pesquisas, tem o futebol como sua maior paixão. Torcedor fanático do Everton desde criança, chegou a afirmar que o clube era uma de suas maiores prioridades, acima até mesmo do Partido Trabalhista, ao qual pertence. "Depois da minha família, as três coisas mais importantes da minha vida são o Everton Football Club, o Partido Trabalhista e a Igreja Católica", disse em uma entrevista ao The Guardian em 2009.

Formado em filologia inglesa pela Universidade de Cambridge, foi eleito deputado trabalhista em 2001 pelo distrito eleitoral de Leigh, no norte da Inglaterra, e deixou o Parlamento britânico em 2017, depois de vencer a eleição para prefeito da Grande Manchester. "Minha esposa é holandesa e vem de uma família apaixonada por futebol, o que ajudou bastante. Nos conhecemos na universidade e ela tinha uma carreira muito mais promissora que a minha, mas teve que sacrificar tudo quando obtive a candidatura parlamentar por Leigh", afirmou o político de 56 anos. 

Durante os governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown, ocupou vários cargos importantes, incluindo o de ministro da Saúde. Seu salto para a Prefeitura da Grande Manchester transformou sua carreira política. A partir dessa posição, promoveu políticas nas áreas de transporte, habitação e saúde pública. Sua popularidade disparou, especialmente em 2020 durante a pandemia de covid-19, quando entrou em conflito público com o governo conservador de Boris Johnson sobre o financiamento para regiões sob rígidas restrições sanitárias. Essa disputa o tornou, para muitos, um símbolo do norte da Inglaterra, que exigia mais atenção e recursos de Londres.

EU ACHO...

Tim Bale, professor de política da Queen Mary University of London
Tim Bale, professor de política da Queen Mary University of London (foto: Arquivo pessoal)

 "Andy Burnham não atriará muitos dos eleitores de direita para apoiarem o Partido Trabalhista, mas isso é muito menos importante do que reconduzir o partido à liderança do bloco progressista e de esquerda. O que poderia significar recuperar o apoio daqueles que votaram nos trabalhistas em 2024, mas que, desde então, migraram para o Partido Verde ou deixaram de votar. Se ele conseguir isso, o Partido Trabalhista terá chances de emergir como a maior força política após a próxima eleição, ainda que a conquista de uma maioria absoluta possa estar fora de alcance."

  • Andy Burnham sorri após ser confirmado líder do Partido Trabalhista, na sexta-feira: carisma e retórica
    Andy Burnham sorri após ser confirmado líder do Partido Trabalhista, na sexta-feira: carisma e retórica Foto: Toby Shepheard/AFP
  • O número 10 de Downing Street: endereço oficial do primeiro-ministro britânico
    O número 10 de Downing Street: endereço oficial do primeiro-ministro britânico Foto: Sergeant Tom Robinson RLC/Wikipedia
  • Tim Bale, professor de política da Queen Mary University of London
    Tim Bale, professor de política da Queen Mary University of London Foto: Arquivo pessoal
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postado em 20/07/2026 05:01
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