O odor dos corpos em decomposiçãoé um lembrete da magnitude da tragédia que se abateu sobre o estado de La Guaira, a cerca de 40km da capital venezuelana, Caracas. Uma semana depois do duplo terremoto de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) que devastou parte do litoral da Venezuela, a falta de comida e a inexistência de abrigos para os sobreviventes, além do acondicionamento inadequadodos cadáveres, deixam a Venezuela à beira de um desastre humanitário. Dramas e resgates considerados milagrosos se espalham por La Guaira.
- Unicef envia 47 toneladas de ajuda humanitária à Venezuela
- O campo de golfe que era símbolo de opulência e virou refúgio da devastação provocada por terremotos na Venezuela
- Mais de 58 mil edifícios foram destruídos por terremotos na Venezuela
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) advertiu que "a escassez de alimentos é generalizada, os serviços básicos entraram em colapso e a conectividade foi amplamente interrompida". "As tensões na comunidade (de La Guaira) estão aumentando, uma vez que o acesso à assistência permanece limitado." A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para a "pressão extrema" sobre o sistema de saúde venezuelano e os risco de doenças como sarampo, coqueluche e difteria".
Nesta terça-feira (30/6), no sexto dia de buscas, Kleiber Morán, um menino de três anos, foi retirado dos escombros por socorristas da Jordânia. Nas imagens divulgadas pelas autoridades de Amã, a criança, aparentemente sem sinais de vida, é envolta em um cobertor e levada rapidamente a uma ambulância. A Defesa Civil da Jordânia divulgou uma nota segundo a qual Kleiber foi encaminhado ao hospital.
Até o fechamento desta edição, as autoridades venezuelanas confirmavam 1.943 mortos e 10.571 feridos. Presidente da Assembleia Nacional (de maioria chavista), Jorge Rodríguez anunciou que 6.461 pessoas tinham sido resgatadas até a tarde de ontem. "Se somarmos a isso as 13.400 ou 13.500 pessoas que conseguiram sair por conta própria ou foram ajudadas por amigos e familiares, podemos chegar a um total de 19.861 pessoas salvas em La Guaira", declarou o irmão da presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez.
Zona de guerra
Em Macuto, cidade situada entre La Guaira e Caraballeda, Alexis Brache, 56 anos, trabalhador do porto de La Guaira, desabafou ao Correio: "Precisamos de toda a ajuda possível; muitos edifícios caíram, e isso aqui parece uma zona de guerra ou o Iraque". "Necessitamos de socorristas voluntários, de maquinário pesado e de ferramentas para cortar vigas de aço, além de martelos hidráulicos. A ajuda não está chegando a Macuto", disse. Ele contou que os cadáveres estão amontoados em uma área específica do porto. "Na cidade de Caribe, os mortos foram colocados em uma espécie de fossa comum. As autoridades não estão tapando essa cova coletiva para que familiares possam fazer o reconhecimento", relatou.
Brache reclamou da falta de alimentos e de medicamentos para sobreviventes. "Não temos comida preparada nem mesmo para os socorristas. Também não há água nem máscaras e luvas", disse. Em Caraballeda, Mercedes Uzcategui, 64, teme o colapso da situação humanitária. "Há gente demais sepultada nesses edifícios ao longo da área costeira. Podemos sofrer uma epidemia", declarou à reportagem. Segundo ela, os próprios civis têm passado pelas quadras da cidade distribuindo água, comida e artigos de higiene pessoal. Mercedes salientou, entretanto, que tratam-se de atores independentes, que decidiram apoiar e colaborar. "Os centros de arrecadação estão sobrecarregados", comemorou.
Pesadelo
Mister Universo 2025, o médico pediatra Lenín Peña, 30, aguarda notícias de Yordi Paredes, 21, com quem é casado desde 2023. Morador de Tanaguarena, em Caraballeda, ele tem percorrido a ala de emergência de hospitais e acompanhado os trabalhos de resgate, em busca do marido. "Não me importa o apartamento, só quero que ele esteja vivo", disse ao Correio, sem conter o choro. "Meu apartamento fica no Conjunto Residencial Caribe, no sétimo andar, e caiu até o subsolo 2."
No dia do tremor, Lenín salvou-se porque saiu de casa para fazer compras. "Yordi estudava no apartamento. Eu desci até o subsolo e vi o que era parte da nossa moradia. Cavei, mas tudo estava sobre pedras. Por aqui, há socorristas franceses, mexicanos, americanos e venezuelanos. Mas estão buscando vítimas na parte de cima."
VOZES DE LA GUAIRA
"Por aqui, sentimos o odor fétido dos corpos. As autoridades não estão deixando a ajuda humanitária passar. Policiais e membros da Guarda Nacional estão roubando e entrando em apartamentos afetados. Nós, civis, junto a bombeiros e socorristas internacionais, temos ajudado a salvar muitas vidas e a retirar os corpos dos escombros."
Alexis Brache, 56 anos, trabalhador do porto de La Guaira
"Perdi muita gente conhecida. Amiga que eram como se fossem irmãs. Crianças que vi crescer. A cada dia, descubro que mais alguém de quem gosto entrou para as estatísticas desta tragédia natural, tornada tão devastadora graças a 27 anos de uma gestão governamental desastrosa."
Mercedes Uzcategui, 64, chef confeiteira, moradora de Caraballeda (La Guaira)
