
Com 2,14 milhões de habitantes, a Saxônia-Anhalt, localizada na antiga Alemanha Oriental, pode estar perto de ser governada por um partido de extrema-direita. A legenda Alternativa para a Alemanha (AfD), de inclinação anti-imigração e pró-Rússia, obteve quase 44% dos votos, contra 17% para a conservadora União Democrata-Cristã (CDU), atualmente no controle do oitavo maior estado do país. Para governar a região pós-comunista e consolidar o retorno dos ultraconservadores ao poder na Alemanha desde 1945, o líder regional da AfD, Ulrich Siegmund, de 35 anos, começou as tratativas com a CDU e outras legendas. São necessárias apenas três cadeiras para obter a maioria absoluta no Parlamento regional. O chanceler alemão, Friedrich Merz, 70, se disse "profundamente chocado" com a derrota de sua CDU para a AfD e descartou uma renúncia. O triunfo dos ultradireitistas, que apresentam uma agenda xenófoba, alarma a Europa ante as próximas eleições. Em 2027, França e Finlândia (abril), Itália (até dezembro) e Espanha (agosto) escolherão seus representantes.
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Constanze Stelzenmüller, diretora do Centro sobre Estados Unidos e Europa no instituto Brookings (em Washington), afirmou ao Correio não ter dúvidas de que aliados da AfD interpretarão a vitória como um incentivo para galgar posição na política de outros países. "Mas, se isso realmente se concretizar dessa forma, dependerá do desempenho da AfD caso tenha que governar", observou. De acordo com a especialista, ainda não está claro se a AfD será capaz de formar um governo na Saxônia-Anhalt. "Há dois modos de fazê-lo: com a tolerância do partido Aliança Sahra Wagenknecht — Razão e Justiça (BSW) ou convencendo os legisladores da CDU a deixarem a legenda e se juntarem a eles", explicou. "Acredito que a AfD preferiria a segunda opção, pois isso seria mais prejudicial ao governo do chanceler Merz em Berlim."
Autor de A ideologia da extrema-direita e professor de relações internacionais da Universidade da Geórgia (EUA), Cas Mudde disse à reportagem que as eleições são sempre, antes, de tudo, nacionais. "As pessoas na França ou na Espanha não votam para a direita porque as da Alemanha o fizeram", comentou. Ele avaliou que, na maioria dos casos em que a extrema-direita ainda não obteve sucesso eleitoral, isso se explica mais pela oferta do que pela demanda. "Ainda não existe um partido de extrema-direita competente e/ou o debate político não está centrado em questões socioculturais. No entanto, o Reino Unido é um caso evidente de onde a extrema-direita deve ganhar força", advertiu. Os britânicos escolherão o próximo primeiro-ministro em 2029.
Para Günther Auth, cientista político da Universidade Luís Maximiliano de Munique, o risco de uma onda europeia da extrema-direita inspirada na AfD deve ser compreendido no contexto das políticas econômicas perseguidas pelos partidos governistas ao longo do último meio século. "As políticas neoliberais têm sido caracterizadas pela austeridade, pela desregulamentação, pela privatização e pela redistribuição de riqueza em favor do capital, com bancos, instituições financeiras e investidores beneficiando-se desproporcionalmente desse processo. Ao mesmo tempo, grandes porções da população têm experimentado insegurança econômica crescente, proteção social em declínio e aumento da desigualdade", explicou ao Correio.
Auth destacou que a ascensão da ultradireita não se restringe à Alemanha. O especialista de Munique lembrou que a França tem testemunhado a ascensão contínua do Reagrupamento Nacional; a Itália tem visto o Fratelli d'Italia e a Lega tornarem-se grandes forças políticas. "Nos Países Baixos, o PVV tornou-se uma força política de destaque; na Bélgica, o Vlaams Belang consolidou-se como uma força importante; e, na Áustria, o FPÖ tornou-se um dos partidos mais fortes do país. Tendências semelhantes podem ser observadas com os Democratas Suecos, o Vox na Espanha, o Chega em Portugal e outros partidos nacionalistas por toda a Europa. Há, aqui, pelo menos um paralelo histórico com a Alemanha do começo da década de 1930", concluiu.
Radical
Dierk Borstel, cientista político da Universidade de Dortmund, admitiu ao Correio que, nos últimos anos, a Europa tem convivido com partidos nacionalistas e de extrema-direita, ao citar Polônia e Hungria. "A AfD da Alemanha é particularmente radical e representa uma ameaça genuína à democracia alemã e ao Estado de Direito liberal." Segundo ele, a AfD defende a deportação em massa de refugiados e estrangeiros. "A questão é: queremos viver em uma sociedade liberal e aberta, caracterizada por parcerias estreitas e solidárias com outras democracias? Ou queremos um mundo em que cada nação cuida apenas de si mesma e governantes autoritários restringem a liberdade de todos para se enriquecerem e manipularem os demais?"
Por sua vez, Henk De Berg — especialista em populismo e autoritarismo pela Universidade de Sheffield (Reino Unido) — questiona se o sucesso da AfD motivará os alemães de estados como Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a votarem no partido em 20 de setembro. "Na Saxônia-Anhalt, a legenda dobrou o número de votos recebidos, sendo que cerca de 40% desses eleitores não eram pessoas que costumavam votar em outros partidos, mas indivíduos que nunca haviam votado antes por não verem sentido. A AfD é um partido fortemente antissistema, e seus eleitores buscavam exatamente isso: algo radicalmente diferente."
EU ACHO...
"A essência da extrema-direita é o nativismo — uma forma xenofóbica de nacionalismo na qual tudo e todos que não são considerados 'nativos' são vistos como uma ameaça. Embora a extrema-direita tenha como alvo principal minorias étnicas e imigrantes, ela também pode visar comunidades LGBTQIA+ e os chamados 'esquerdistas'. O que os neonazistas acrescentam a isso é uma rejeição explícita da democracia, bem como a crença na violência."
CAS MUDDE, autor de A ideologia da extrema-direita e professor de relações internacionais da Universidade da Geórgia (EUA)
"Creio ser bem possível uma onda ultraconservadora: em parte porque o sucesso da extrema-direita em um país dá às pessoas de outras nações a ideia de que o voto na direita não precisa ser voto perdido, e em parte porque os fatores que impulsionam o populismo de direita existem em escala global. Esses fatores dizem menos respeito à economia (as pessoas votam com base em valores ou na identidade) e, sobretudo, à sensação de que o 'establishment' não as ouve."
HENK DE BERG, especialista em populismo e autoritarismo pela Universidade de Sheffield (Reino Unido)
O MANIFESTO DA AfD
Conheça as principais propostas do partido ultraconservador para a Alemanha
"Remigração"
A AfD defende a deportação imediata de migrantes ilegais, a expansão das instalações para detenção em massa e a "remigração" — a devolução de cidadãos não pertences à etnia alemã a seus países de origem.
Salas de aula separadas
Protesto de robôs contra IA na Polônia
Uma marcha composta por robôs humanoides e quadrúpedes segurando bandeiras, caminhando em círculos e entoando slogans. A manifestação, organizada pela iniciativa "Democratism", chamou a atenção de Varsóvia e cobriu a regulamentação da inteligência artificial (IA) pela Polônia. Os alto-falantes dos robôs emitiam palavras de ordem, como "Defendam os empregos"; "Não esperem, regulamentem" e "Chegou a hora das regras".
Idealizador da manifestação, o empresário, investidor e especialista em novas tecnologuas Grzegorz Kulis explicou à agência France-Presse o propósito do evento. "Em particular, queremos destacar o problema da potencial substituição de pessoas por robôs humanoides e inteligência artificial em trabalhos cognitivos", declarou. Kulis advertiu que, se a humanidade não reagir imediatamente, terá problemas "em breve". Ele defendeu "regras e regulamentos que sirvam de escudo protetor para os trabalhadores".
Robôs humanoides e quadrúpedes se concentraram em frente à sede do Ministério de Assuntos Digitais. O titular da pasta, Krzysztof Gawkowski, saiu do prédio, conversou com Kulis e reconheceu a gravidade do assunto. "Modelos de IA sem controle, implementados em humanoides que continuarão evoluindo com o avanço da robotização, representam um problema grave", avisou o ministro.
Ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2024, o britânico Simon Johnson — professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) — disse ao Correio que a "IA está avançando rapidamente em nossa direção". "Há uma grande promessa, mas também muitos riscos potenciais. Trata-se da implementação mais rápida de uma nova tecnologia importante já vista. Não sabemos o que vai acontecer", alertou. Johnson recomenda a busca de uma IA que favoreça os trabalhadores no processo de adoção. "Algo que procure complementar os seres humanos e ampliar suas capacidades. Algo que não busque principalmente automatizar o trabalho,substituindo pessoas por máquinas. O caminho da automação pode levar a uma grande desestabilização social e a sentimentos de revolta."

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