
Chongqing (China) — As montanhas do sudoeste da China abrigam uma metrópole que busca no passado a chave para o futuro. Localizada a cerca de 1.450 km de Pequim, Chongqing tem diversos arranha-céus, infraestrutura moderna e até mesmo shows com mais de 5 mil drones. No entanto, outra face da região ganha o mesmo peso para a construção do amanhã: as águas milenares do Rio Yangtze, o terceiro maior do mundo, com mais de 6.300 km de extensão.
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Chongqing, a "filha do Yangtze", como é chamada a cidade, possui cerca de 31 milhões de habitantes e funciona como a principal barreira de proteção ecológica do alto curso do rio. Ali, estruturas milenares dividem espaço com a modernidade, ilustrando um princípio muito presente na sociedade chinesa: resgatar a história para buscar respostas aos desafios do futuro.
Chongqing recebeu, no meio de setembro, o Fórum Internacional sobre a Civilização do Rio Yangtze (Yangtze River Civilization), encontro dedicado à pesquisa, à preservação e à valorização de civilizações formadas às margens de rios de todo o mundo. O evento reuniu pesquisadores, especialistas e profissionais de diferentes áreas para discutir a história, a cultura e o patrimônio ligados às águas.
A memória das águas
Essa conexão secular com o rio foi um dos temas do evento que reuniu pesquisadores para debater patrimônio e conservação fluvial. Por muito tempo, a história apontou o Rio Amarelo — que nasce na província de Qinghai, a cerca de mil quilômetros de Chongqing — como o único berço cultural da civilização chinesa, mas descobertas recentes mudaram esse panorama.
Achados arqueológicos comprovaram que a bacia do Yangtze foi igualmente decisiva no surgimento do país, abrigando populações pré-históricas essenciais, como os Homens de Yuanmou e Nanquim, e sediando um dos primeiros focos da revolução agrícola mundial com a domesticação do arroz há 10 mil anos.
Segundo o professor Liu Litang, arqueólogo da Universidade de Wuhan, a civilização do Yangtze nasceu a partir do trabalho direto com a terra e a água. "O Yangtze não é um coadjuvante na história da China, mas sim um motor que, integrado ao Norte pelo Grande Canal Imperial, tornou-se o coração econômico e agrícola do império", acrescenta ao Correio.
Viver às margens do Yangtze, contudo, exigiu enorme capacidade de resiliência do povo chinês. Essa relação simbiótica e desafiadora é eternizada nos famosos versos do poeta e escritor Yang Shen (1488–1559): "As ondas do Yangtze correm para o leste, levando consigo os heróis...", uma metáfora sobre a impermanência das lutas humanas diante da força contínua da natureza.
Bússola histórica para a engenharia
Para conviver com essa força, foi preciso aprender com ela. As marcas encravadas no próprio leito rochoso do Yangtze servem de bússola histórica para a engenharia moderna, como explica o professor Li Yongxian, da Universidade do Sudoeste (Southwest University).
"As inscrições em pedra cobrem lacunas de dados que os instrumentos modernos não alcançam, fornecendo séries históricas de mais de mil anos que subsidiaram até a engenharia de grandes barragens", destaca o especialista.
Entre esses registros, marcações em formato de peixe funcionavam como o mais antigo hidrômetro da região. Quando a água baixava a ponto de os desenhos ficarem visíveis, a população sabia que a seca havia chegado a um nível crítico, mas também que a irrigação do solo garantiria uma safra farta na primavera seguinte.
Para o professor Li, os desafios climáticos atuais não são novidade: "Inscrições como Baiheliang e Lotus mostram que a seca não é um fenômeno novo no rio; elas documentam séculos de adaptação humana e os impactos climáticos históricos. A conservação desses registros submersos exige integrar gestão hídrica, arqueologia e turismo cultural entre diferentes províncias ao longo do Yangtze."
Para proteger esse patrimônio, que acabaria submerso com o enchimento do reservatório da Usina das Três Gargantas, a maior hidrelétrica do mundo em capacidade geradora, foi criado o Museu Subaquático de Baiheliang.
A estrutura, construída a dezenas de metros sob as águas do Yangtze, permite que pesquisadores e visitantes observem as gravações originais de peixes e os registros de secas milenares através de janelas de alta pressão, unindo o resgate histórico à preservação do futuro.
Pontes até o Nilo
Porém, as pontes feitas para atravessar o rio asiático já não eram suficientes; era preciso conectar o mundo na conversa sobre civilizações que surgiam à beira das águas. No continente africano, nas margens do Rio Nilo, a escassez de recursos moldou uma relação igualmente profunda entre a arquitetura e a medição hidráulica.
"O Egito é o rio e o deserto. Não temos florestas como a China, não conhecemos a madeira como material de construção. Em árabe, chamamos a madeira de 'azizi', que significa literalmente 'rara'. Nossa arquitetura nasceu da pedra e da argila", explica o arquiteto egípcio e professor Alaaeldin Elwin.
Ao contrário dos registros do Yangtze, expostos nas rochas ao ar livre, o Egito criou o Nilômetro, uma estrutura fechada e protegida no Cairo para transformar as oscilações do rio em dados governamentais desde o século IX. "Nossa cultura é filha do Sol: o nascer do Sol no Leste significa a vida; o pôr do Sol no Oeste é a morada da morte. O Nilômetro não era apenas medição hidráulica, mas uma infraestrutura social onde uma pequena variação na coluna de mármore definia os impostos, a fartura ou o alarme da fome", acrescenta Elwin.
A variação das colunas definia o calendário agrícola e a própria cobrança de impostos na época. Por exemplo, um nível baixo significava um alerta de seca, risco de fome e uma cobrança "menor" de tributos. Já quando o nível era excessivo, significava o risco de enchentes e de calamidade pública. A partir dessa medição, os egípcios conseguiam prever o nível ideal do Nilo para a garantia do solo fértil e da fartura.
Durante todo o evento, vários especialistas egípcios observaram como a preservação de artefatos arqueológicos, como as marcações em pedras, possuía uma certa similaridade. Em alguns momentos, era possível ouvir, com um certo tom de entusiasmo, que mesmo a quilômetros de distância de casa, as pessoas como um todo possuíam algo em comum: entender as águas para um planejamento melhor do futuro.
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Além da arquitetura, o Nilo introduz outra camada crucial ao debate hídrico global: a cooperação. Enquanto o Yangtze é um rio totalmente nacional, atravessando 11 províncias sob a governança de um único país, o Nilo é uma bacia internacional compartilhada por 11 nações africanas.
Essa gestão de múltiplos países e o desafio de enfrentar secas extremas exigem ações conjuntas, uma realidade que dialoga diretamente com a Bacia Amazônica, cujas águas conectam 9 países na América do Sul.
Rio Amazonas e uma nova chance
Talvez seja no Rio Amazonas, na América do Sul, que os pesquisadores enxerguem uma forma de fazer diferente. Isso porque, apesar da grandeza, o Yangtze perdeu algo crucial: a biodiversidade. Mesmo cercado de paisagens com vegetação ampla, o rio ainda não conseguiu recuperar o que perdeu.
A pesquisadora Vera Maria Ferreira da Silva revela que a principal diferença entre o gigante asiático e o gigante sul-americano está justamente no nível de preservação. "A maior diferença entre os dois rios é que a Amazônia ainda preserva sua conectividade e integridade ecológica livre de grandes barragens e canalizações. O desafio amazônico é permitir o desenvolvimento sem destruir esse fluxo natural."
E nada ilustra melhor esse desafio do que a história do boto de água doce que habitava o Yangtze, o Baiji. Por mais de 2 mil anos, o Baiji foi venerado pelo povo chinês como a "Deusa do Yangtze", visto no folclore e na poesia como um guardião dos navegadores.
Porém, já no século XXI, expedições internacionais voltaram às águas para tentar catalogar e encontrar a espécie no seu hábitat de tantos anos. Isso não foi possível e o Baiji foi então declarado funcionalmente extinto — tornando-se a primeira espécie de cetáceo (golfinho/baleia) a ser extinta em tempos modernos pela ação direta do ser humano. O último Baiji confirmado em cativeiro chamava-se Qi Qi e morreu no Instituto de Hidrobiologia de Wuhan em 2002, após 22 anos de observação científica.
A perda trágica do Baiji serviu como um profundo divisor de águas e impulsionou uma guinada histórica nas políticas públicas chinesas para tentar salvar o Yangtze. Em 2016, durante a primeira reunião sobre o Cinturão Econômico do Rio Yangtze realizada em Chongqing, foi estabelecida a diretriz nacional de priorizar a conservação ecológica e conter o desenvolvimento econômico excessivo e desordenado ("prioritize ecological conservation over excessive development").
Sob a orientação de quatro simpósios temáticos liderados pelo presidente Xi Jinping, o Cinturão Econômico do Rio Yangtze assumiu três papéis centrais: atuar como modelo pioneiro de civilização ecológica, vetor de crescimento impulsionado pela inovação e plataforma para o desenvolvimento coordenado.
Nesse novo cenário, reconfirmado em visita oficial em abril de 2024, Chongqing assumiu duas posições estratégicas cruciais: âncora fundamental para o Novo Desenvolvimento do Oeste da China e centro integrado (hub) para a abertura comercial do interior do país. Com isso, a metrópole cumpre três funções principais: suporte ao desenvolvimento do oeste chinês, força motriz na expansão da iniciativa da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) e modelo de desenvolvimento verde ao longo do Cinturão Econômico.
Na prática ecológica de restauração, foi implementada em 2021 a histórica moratória de 10 anos na pesca ao longo do leito principal e afluentes do Yangtze, acompanhada pela aprovação da primeira Lei de Proteção do Rio Yangtze e pelo monitoramento rigoroso da marsopa-sem-barbatana do Yangtze (Yangtze finless porpoise) em santuários ecológicos protegidos.
"Voltar à China 40 anos depois me faz olhar para o Yangtze e entender o que o Amazonas ainda pode evitar. A Amazônia tem uma história de 500 anos pós-europeus, enquanto o Yangtze carrega 5.000 anos de transformação", relata Vera, que integrou as expedições para tentar salvar o boto asiático.
Ela relembra que três enormes barcos com radares de ponta foram mobilizados para procurar qualquer sinal do animal, uma prova de que, uma vez atingido o ponto crítico, nem a tecnologia mais moderna consegue reverter uma extinção.
Para Vera, o desafio no Yangtze é restaurar a funcionalidade de um sistema profundamente alterado. Na Amazônia, ainda existe uma janela de oportunidade para tomar decisões de planejamento antes que ocorra uma transformação irreversível.
O Yangtze nos serve como um experimento histórico do que acontece quando o desenvolvimento e a infraestrutura atingem níveis extremos. A mensagem que fica é simples, mas vital: "Restaurar é infinitamente mais difícil e caro do que conservar."
Por fim, resta saber se repetiremos os erros da história ou se faremos do passado o farol para um novo caminho. Se me permitem uma reflexão pessoal como alguém que esteve lá, o passado e o futuro não podem se anular, precisam caminhar juntos. E as águas do Yangtze, do Nilo e do Amazonas vão permanecer para contar quais foram as nossas escolhas.
*Repórter viajou à China a convite do Departamento de Publicidade do Comitê Municipal de Chongqing
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