Europa

Morte de idosa símbolo da crise habitacional gera comoção na Espanha

Falecimento de idosa de 87 anos despejada de apartamento onde vivia por sete décadas provoca comoção na Espanha e reacende manifestações. Maricarmen Abascal tornou-se um ícone da crise de moradia, que pressiona o governo de Pedro Sánchez

Maricarmen Abascal é carregada sobre maca depois de ser retirada de seu lar, no bairro de Ibiza, em Madri, em 23 de setembro passado  -  (crédito: Dani Duch/La Vanguardia/AFP)
Maricarmen Abascal é carregada sobre maca depois de ser retirada de seu lar, no bairro de Ibiza, em Madri, em 23 de setembro passado - (crédito: Dani Duch/La Vanguardia/AFP)

Do lado de fora do apartamento no bairro de Ibiza, em Madri, um cartaz foi afixado na porta. "Descanse em paz, Maricarmen", dizia a frase escrita em tinta preta, sobre um coração desenhado com a mesma cor. Maricarmen Abascal, 87 anos, a idosa que se tornou símbolo da crise de moradia na Espanha, depois de ser despejada do imóvel onde habitava havia mais de sete décadas, faleceu às 19h30 desta quarta-feira (14h30 pelo horário de Brasília), no Hospital Gregorio Marañón. Ela tinha acabado de assinar um contrato de aluguel com duração de oito anos e de recuperar o seu apartamento. 

Assim que a informação sobre a morte foi divulgada pela mídia do país, milhares de pessoas ocuparam a Praça Puerta del Sol, no centro da capital espanhola. No local do acampamento dos ativistas, foi montado um altar com velas e fotos em homenagem à anciã. Aos gritos de "assassinos" e "Maricarmen vive, a luta continua!", os manifestantes acenderam velas diante do prédio do Congresso, depois de uma marcha. 

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Manifestantes se reúnem em vigília na Praça Puerta del Sol, no coração de Madri, em memória da idosa
Manifestantes se reúnem em vigília na Praça Puerta del Sol, no coração de Madri, em memória da idosa (foto: Thomas Coex/AFP)

A comoção também ganhou as esferas do poder. Personalidades do governo e da oposição renderam tributo à idosa e lamentaram a morte. Depois de ser derrotado no Congresso, que rejeitou dois decretos sobre moradia, e de antecipar as eleições legislativas para 29 de novembro, o primeiro-ministro Pedro Sánchez se expressou por meio das redes sociais. "Todo o meu carinho à família e aos entes queridos de Maricarmen. Um abraço também a todos aqueles que sentem essa perda como se fosse própria. Descanse em paz", escreveu. O governista Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) advertiu que "o sofrimento de Maricarmen não pode se repetir". "Sua luta contra a injustiça e a especulação não será em vão. Descanse em paz", afirmou.

A ministra da Habitação e Agenda Urbana, Isabel Rodríguez, também se pronunciou em seu perfil no X. "Lamento profundamente a morte de Maricarmen. Minhas condolências e meu reconhecimento àqueles que a acompanharam e que lutaram com ela até o fim", declarou. "Há notícias que causam um nó no estômago. Todo o meu carinho aos familiares e amigos de Maricarmen. Descanse em paz", reagiu, por sua vez, o ministro da Economia e vice-premiê, Carlos Cuerpo. 

Líder do Partido Popular (PP), a principal força de oposição a Sánchez, Alberto Núñez Feijóo descartou o uso político da morte. "Quero expressar minhas condolências à família e aos entes queridos de Maricarmen. Não à campanha, a partidos ou à exploração interesseira. Não mais pedras no muro. Ante a morte de uma pessoa somente somente cabe o respeito", escreveu no X, ao qualificar o falecimento de Maricarmen como "desolador". "Não utilizarei isso politicamente, como o governo tem feito", avisou.  

"Assassinato"

O partido ultradireitista Vox denunciou um "assassinato" da idosa. "Mataram Maricarmen. Sem nenhum escrúpulo, utilizaram o sofrimento de uma idosa para montar uma campanha que ocultasse a responsabilidade do governo no desastre da moradia. A responsabilidade é de Pedro Sánchez, como disse Maricarmen", pontuou o Vox no comunicado publicado nas redes sociais. A esquerda adotou a mesma estratégia de acusar um crime. "Não é uma morte, mas um assassinato. Que raiva maldita. Obrigado por lutar, Maricarmen", afirmou Irene Montero, candidata às primárias ao cargo de premiê pelo partido Podemos. 

Em entrevista ao Correio, Beatriz Duro, advogada de Maricarmen, disse que idosa tornou-se símbolo da luta pelo direito à moradia. "Ela fez mais pela habitação, com o Sindicato das Inquilinas de Madri, do que os distintos governos das diferentes legislaturas. É um exemplo de luta, de resistência, de que, juntos, podemos", destacou. "Maricarmen conseguiu o que sempre tinha sido impensável: poder voltar para casa depois de ser desalojada, ainda que infelizmente isso não possa ter sido materializado."

Beatriz Duro anseia que o falecimento de sua cliente leve a uma mudança política. "Espero um pacto de Estado que permita a reforma profunda e estrutural que o sistema necessita para proteger e garantir o direito à moradia", declarou.

Beatriz Duro, advogada de Maricarmen Abascal
Beatriz Duro, advogada de Maricarmen Abascal (foto: Arquivo pessoal )
 

Coube ao Sindicato das Inquilinas de Madri o anúncio da morte de Maricarmen. "Lamentamos informar que, no dia de hoje, faleceu Maricarmen. Em 23 de setembro, como todos sabem, ocorreu seu despejo e, desde então, ela permanecia hospitalizada. Embora se tenha alcançado um acordo histórico que lhe teria permitido voltar à sua moradia, essa solução chegou tarde demais. Uma situação absolutamente evitável após um processo torturante", comentou. "Os acontecimentos desencadeados pela injustiça de seu despejo representam, sem dúvida, um divisor de águas na história deste país: manifestações multitudinárias, acampamentos em praças, antecipação das eleições e convocação de uma greve geral. O debate sobre a habitação está no centro, mas o custo para chegar até aqui foi alto demais."

O sindicato acrescentou que Maricarmen deixa um exemplo de luta e de legado. "Cumpriremos com o que ela sempre nos pedia: 'lutem, sigam lutando pelo que é seu!'", exortou, ao prometer defender o direito à moradia e seguir a luta contra especuladores. 

PARA SABER MAIS

Vítima da especulação

Em 23 de setembro passado, Maricarmen Abscal foi obrigada a deixar o apartamento onde morou por 70 anos após uma imobiliária comprar o imóvel e aumentar o aluguel em 275%. Para continuar vivendo no local, ela teria que pagar 2.650 euros por mês (cerca de R$ 14,9 mil). Os valores dos aluguéis dispararam devido ao aumento da demanda, incluindo a do turismo e a do crescimento populacional ligado à imigração, segundo analistas. A imagem da idosa saindo de maca do apartamento, em meio aos gritos de indignação dos manifestantes que foram apoiá-la, gerou uma indignação que acabaria resultando em uma onda de mobilizações que se espalhou por várias cidades espanholas.

Nove dias depois do despejo, o Congresso da Espanha rejeitou dois decretos sobre moradia propostos pelo governo de Pedro Sánchez, impondo uma dura derrota ao Executivo. Os textos incluíam a renovação automática dos contratos de aluguel no vencimento e medidas para restringir os despejos de inquilinos vulneráveis. Também miravam os chamados "fundos abutres", que compram imóveis a preços baixos para maximizar sua rentabilidade. Pressionado pelos sindicatos e por ativistas que acamparam na Praça Puerta del Sol, em Madri, o primeiro-ministro Sánchez viu-se obrigado a antecipar as eleições gerais, que ocorreriam em agosto de 2027, para 29 de novembro.  

  • Manifestantes se reúnem em vigília na Praça Puerta del Sol, no coração de Madri, em memória da idosa
    Manifestantes se reúnem em vigília na Praça Puerta del Sol, no coração de Madri, em memória da idosa Foto: Thomas Coex/AFP
  • Cartazes com a frase: "Maricarmen, assassinada pelo rentismo e por seus políticos a soldo"
    Cartazes com a frase: "Maricarmen, assassinada pelo rentismo e por seus políticos a soldo" Foto: Thomas Coex/AFP
  • Beatriz Duro, advogada de Maricarmen Abascal
    Beatriz Duro, advogada de Maricarmen Abascal Foto: Arquivo pessoal
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postado em 08/10/2026 05:00
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