
A juventude francesa tem hoje reencontro marcado com as ruas e com uma rebelião em que seus avós estremeceram a República, há seis décadas. Depois de reencenar em Paris a tomada da Bastilha, marco da Revolução de 1789, eles preparam manifestações gigantescas contra a situação precária do ensino secundário. Os protestos de outubro evocam o levante juvenil de maio de 1968, pela amplitude e pelo impacto político.
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Na vizinha Espanha, foi a morte recente de uma idosa despejada da residência onde morou por 70 anos que serviu de estopim. A tragédia pessoal de Maricarmen Abascal, 87 anos, expôs a crise habitacional que empurra inquilinos para a periferia dos centros urbanos. Uma onda de protestos levou o primeiro-ministro Pedro Sánchez, socialista, a convocar eleições antecipadas, depois que a oposição de direita barrou seu projeto ara congelar ações de despejo até 2030.
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No pano de fundo de ambas as situações, cada qual com as própriaa dinâmicas, estudiosos ouvidos pelo Correio enxergam um fenômeno que permeia a Europa no século 21. Sintomas de fadiga extrema afloram no arcabouço de políticas e instituições sociais estabelecido no continente ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) - em boa parte, para contrapor o prestígio da União Soviética pelo protagonismo na vitória aliada sobre o Eixo nazifascista.
Desmanche
"Desde sua criação, no pós-guerra, o estado de bem-estar social passou por várias reformas, na França, Espanha e outros países europeus onde esse modelo foi adotado", observa Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. "Mas o fato é que, desde os anos 1990, ele está mais debilitado."
Demetrius Pereira, professor de relações internacionais da ESPM, destaca as "singularidades" em cada um dos processos. "Na França, há o endividamento do Estado, com corte de orçamento sucateando o sistema de educação pública" explica. Na Espanha, o aluguel de curto prazo, voltado para o turismo, puxa os custos para cima e pealliza, em especial, os aposentados.
O especialista do Irel/UnB lembra que sindicatos e movimentos sociais vêm protestando, de maneira recorrente, contra medidas de restrição ao estado de bem-estar, e aponta os sinais desse ingrediente na atual agitação estudantil que varre a França. Ressalta que um dos focos centrais, Saint-Denis, no entorno de Paris, tem forte presença de imigrantes e descendentes. "É nesse tipo de região que a gente assiste, de tempos em tempos, a levantes e enfrentamentos nas ruas."
Na onda de protestos da Espanha, Menezes aponta como fator a expansão, no setor habitacional, do aluguel por plataformas. "Isso encarece o custo da moradia e acaba expulsando as pessoas para mais longe do centro, ou mesmo para outras cidades".
Turbulência política
O professor da ESPM vê, no caso espanhol, uma conexão política da crise social, mais imediata que a da França. O movimento iniciado pelo Sindicato dos Inquilinos arrastou as centrais sindicais para uma greve geral - a primeira desde 2012 -, convocada para 11 de novembro. Os espanhóis irão às urnas 18 dias depois, nas eleições antecipadas pelo premiê socialista.
"A questão da moradia pode fazer com que os eleitores de Sánchez o apoiem, mas pode também dar à extrema-direita o argumento de que o modelo social está esgotado, e as soluções da esquerda são mais do mesmo", pondera Pereira. Para o titular do Irel/UnB, o chefe de governo optou por "um gesto de desespero". "Foi uma tentativa de aplacar os protestos, porque não consegue levar adiante medidas para garantir o acesso dos espanhóis à moradia", analisa. "Mas a extrema-direita procura canalizar para si a insatisfação, e pode sair fortalecida."
Na França, o horizonte político está na eleição presidencial de 2027, com Emmanuel Macron impedido de tentar mais um mandato. A seis meses da votação, ele vê sua base parlamentar de centro-direita acuada pelo avanço da ultradireita e da esquerda radical, já hoje entre as principais forças da Assembleia Nacional. As pesquisas de opinião apontam, no momento, para um segundo turno entre os dois polos extremos do espectro político.
"A contestação dos estudantes é realmente contra o governo Macron", observa o estudioso da ESPM, que correlaciona o cenário francês com o da vizinhança, como no resultado das recentes eleições regionais na Alemanha. "As forças de centro vêm sofrendo reveses em todo o continente, com a ascensão dos extremos."
Menezes, do Irel/UnB, pondera que, nas últimas três décadas, uma maioria de franceses tem barrado a chegada da ultradireita ao Palácio do Eliseu. Depois de Jean-Marie le Pen, esmagado por Jacques Chirac em 1995, há quatro anos a filha Marine repetiu o feito de chegar ao tira-teima, mas foi derrotada por Macron. Para 2027, é ela quem lidera as preferências. E, por ora, teria como adversário Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, ele próprio um exemplar da "geração 68", que os jovens invocarão amanhã nas ruas de Paris.
Para saber mais:
O ano que se recusa a terminar
O levante juvenil na França torna inevitável invocar o título da obra talvez mais conhecida de Zuenir Ventura, ícone do jornalismo brasilleiro, recém-falecido. Em '1968, o ano que não terminou', Zuenir recapitula o turbilhão dos acontecimentos que se precipitaram mundo afora, em múltiplas esferas da vida social, com marcas perenes na cultura, no comportamento e no cenário político.
Sua referência mais universal é o chamado "maio francês". Tudo começou na Universidade de Nanterre, invadida pela polícia durante um protesto contra o autoritarismo e o conservadorismo moral. O rastilho de pólvora incendiou a veneranda Sorbonne, em Paris, e as ruas do Quartier Latin floresceram em barricadas.
Na capital em convulsão, os jovens discutiam a Guerra do Vietnã e militavam pelo sexo livre. Dali nasceram lemas como "É proibido proibir" e "Sejamos realistas: peçamos o impossível". A primavera rebelde em Paris chegou ao ápice em 13 de maio, quando as principais centrais promoveram a maior greve geral da história do país.
Com sua V República abalada nos alicerces, o general Charles de Gaulle cedeu. Acordou com os sindicatos um aumento geral de salários e outras medidas. Sem os trabalhadores em cena, a juventude voltou paulatinamente para as salas de aula.
O Maio de 68 seguiu reverberando na contracultura e na esquerda armada que assombrou a Europa Ocidental nos anos 1970. Na década seguinte, egressos de ambos os matizes confluíram no movimento ecopacifista, cuja expressão mais forte são os Verdes alemães.
Na França, um adolescente do maio histórico é hoje o principal mentor da esquerda radical e seu candidato à Presidência em 2027. Iniciado nas barricadas como secundarista, ele encarna, aos 75 anos, o legado dos "soixante-huitards", como são chamados os remanescentes da "geração 68". (SQ)
Saiba Mais
O ano que se recusa a terminar
O levante juvenil na França torna inevitável invocar o título da obra talvez mais conhecida de Zuenir Ventura, ícone do jornalismo brasilleiro, recém-falecido. Em '1968, o ano que não terminou', Zuenir recapitula o turbilhão dos acontecimentos que se precipitaram mundo afora, em múltiplas esferas da vida social, com marcas perenes na cultura, no comportamento e no cenário político.
Sua referência mais universal é o chamado "maio francês". Tudo começou na Universidade de Nanterre, invadida pela polícua durante um protesto contra o autoritarismo e o conservadorismo moral. O rastilho de pólvora incendiou a veneraranda Sorbonne, em Paris, e as ruas do Quartier Latin floresceram em barricadas.
Na capital em convulsão, os jovens discutiam a Guerra do Vietnã e militavam pelo sexo livre. Dali nasceram lemas como "É proibido proibir" e "Sejamos realistas: peçamos o impossível". A primavera rebelde em Paris chegou ao ápice em 13 de maio, quando as principais centrais promoveram a maior greve geral da história do país.
Com sua V República abalada nos alicerces, o general Charles de Gaulle cedeu. Acordou com os sindicatos um aumento geral de salários e outras medidas. Sem os trabalhadores em cena, a juventude voltou paulatinamente para as salas de aula.
O Maio de 68 seguiu reverberando na contracultura e na esquerda armada que asombrou a Europa Ocidental nos anos 1970. Na década seguinte, egressos de ambos os matizes confluíram no movimento ecopacifista, cuja expressão mais forte são os Verdes alemães.
Na França, um adolescente do maio histórico é hoje o principal mentor da esquerda radical e seu candidato à presidência em 2027. Iniciado nas barricadas como secundarista, ele encarna, aos 75 anos, o legado dos "soixante-huitards", como são chamados os remanescentes da "geração 68". (SQ)
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