Europa

França à espera de novas manifestações massivas e de greve geral

Líder da Confederação Geral do Trabalho anuncia "subida de nível" das manifestações e convoca paralisação geral para 5 de novembro. País se prepara para novos atos de rua no sábado. Especialistas avaliam panorama político e social

Funcionário da Prefeitura de Paris remove pichações da Praça da República, no coração da capital, depois das manifestações de sábado -  (crédito: Kenzo Tribouillard/AFP)
Funcionário da Prefeitura de Paris remove pichações da Praça da República, no coração da capital, depois das manifestações de sábado - (crédito: Kenzo Tribouillard/AFP)

Enquanto se recupera dos distúrbios de 17 de outubro e avalia os prejuízos, a França se prepara para uma nova rodada de protestos, marcada para sábado (24/10), e para uma greve geral. Sophie Binet, líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), convocou os franceses a "subirem o nível" das manifestações, com a paralisação agendada para 5 de novembro. Uma reunião entre Binet e o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, terminou sem resposta às reivindicações do sindicato. "Chegou o momento de subir o nível da mobilização; a greve deve assumir o protagonismo", anunciou a sindicalista. Pela terceira noite consecutiva, as autoridades decretaram toque de recolher em alguns bairros de Paris, entre 23h e 6h (das 18h à 1h, pelo horário de Brasília). Dessa vez, dois setores da capital terão a circulação restrita: a Praça da República e Les Halles, uma tradicional área comercial. 

Lecornu anunciou o destacamento massivo de policiais para evitar novos tumultos durante os protestos de sábado. Nas manifestações do último fim de semana, ao menos 2.500 pessoas foram detidas, das quais 174 ainda estão na prisão aguardando julgamento ou condenadas. O movimento de contestação social começou com estudantes insatisfeitos, que exigiam melhorias na educação, e ganhou a adesão dos chamados "coletes amarelos", movimento que busca denunciar o alto custo de vida no país e se pauta por outras insatisfações populares. Édouard Geffray, ministro da Educação, anunciou que, na segunda-feira, apresentará suas "primeiras decisões" às organizações estudantis. 

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Professor de ciência política da Universidade Paris 8, Yves Sintomer disse ao Correio que é muito difícil prever o que ocorrerá no sábado. "Há uma revolta contra a violência policial, a desigualdade social e a falta de democacia, que faz com que a juventude não seja escutada pela classe política. A repressão foi muito forte. Isso pode estimular com que muitas pessoas não saiam às ruas. Há muita incerteza sobre quem protestará neste sábado: estudantes, universitários e coletes amarelos", advertiu. Para Sintomer, o governo tem provocado a tensão social dos últimos dias. "A sociedade francesa é marcada por uma grande desigualdade. Os serviços públicos estão precarizados, e existe um sentimento de injustiça social. Além disso, o sistema político não tem sido capaz de responder às demandas da população e, principalmente, da juventude, cujo voto não é obrigatório. A França também enfrenta forte polarização política."

O estudioso da Universidade Paris 8 lembrou que a CGT e outras federações sindicais fizeram um chamado para uma greve geral em exatamente duas semanas. "É bem possível que vejamos uma confluência de sindicatos, dos coletes amarelos e dos estudantes para adesão ao movimento. A paralisação de 5 de novembro pode dar início a um período de agitação social ainda mais intenso. As próximas semanas serão decisivas para o futuro do movimento", disse Sintomar. "A raiva da população é muito grande, assim como o medo da repressão policial."  

Sylvain Boulouque, professor da Universidade de Reims e especialista em história do comunismo e do anarquismo, explicou ao Correio que existe uma questão política importante em jogo. "O governo basicamente culpa o líder da extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon pelos distúrbios e pelos saques, enquanto Mélenchon responsabiliza o governo por uso excessivo da força", afirmou. "Isso se enquadra no campo das manobras políticas tradicionais. Os manifestantes que protagonizam os distúrbios pertencem a uma vertente política diferente dentro do espectro de esquerda — a 'ultraesquerda' (ativistas autônomos, comunistas sindicais, ex-maoístas e anarquistas), que se recusa a participar das eleições e detesta o líder da França Insubmissa. Embora parte dos distúrbios contra as forças de segurança e os símbolos do capitalismo venha, de fato, da ultraesquerda, é preciso, além disso, distingui-la dos saqueadores, que estão próximos ao banditismo."

"Estúpidos"

Ante comentários de líderes estrangeiros, Donald Trump, que condenaram os protestos do último sábado, o presidente francês, Emmanuel Macron, qualificou as declarações como "estúpidas". Em visita a Doha, capital do Catar, ele considerou inaceitáveis os comentários, alguns deles baseados em imagens criadas por inteligência artificial (IA) e lamentou que dirigentes façam "campanha às custas" da França. Um claro recado a Trump, que deposita todas as suas fichas na eleição de meio de mandato de 3 de novembro — cruciais para a retomada do controle da Câmara dos Representantes e do Senado pelo Partido Democrata (oposição). "Quando vejo líderes que estão em campanha, seja na região ou do outro lado do Atlântico, que às vezes, com credulidade, repetem o que aparece na inteligência artificial (...), percebo que fazem campanha às nossas custas", lamentou Macron.  

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Yves Sintomer, professor de ciência política da Universidade Paris 8
Yves Sintomer, professor de ciência política da Universidade Paris 8 (foto: Arquivo pessoal )

"O governo foi totalmente incapaz de entender as raízes dos protestos e a força dos manifestantes. Existe uma dificuldade das autoridades para saírem  à crise. Há elementos da extrema-esquerda que confrontaram a polícia. Mas eles não são causa a principal. O governo diz que a esqueda radical e seu líder, Jean-Luc Mélenchon, têm culpa enorme pela violência. Isso é uma instrumentalização política. São poucos os elementos para provar isso. O próprio Mélenchon repudiou a violência, por entender que ela enfraquece os movimentos de massa."

YVES SINTOMER, professor de ciência política da Universidade Paris 8

Na Espanha, Milei chama premiê de "ditador"

A pouco mais de um mês das eleições gerais da Espanha, o presidente da Argentina, Javier Milei, ofendeu o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, durante visita a Madri, que teve o objetivo de demonstrar apoio à direita. "A Espanha soube acolher centenas de milhares de argentinos que fugiram da miséria e da falta de futuro, fruto do sinistro socialismo do século 21 e de sua filial argentina, o 'kirchnerismo', e vocês sofrem regularmente com o inaceitável ditador Pedro Sánchez", disparou Milei, ao discursar durante um fórum econômico. Os insultos não pararam por aí: o líder ultraliberal sul-americano, de 55 anos, chamou Sánchez de "ladrão" e de "corrupto". Também pediu aos espanhóis que expulsem os socialistas "a pontapés" — uma referência ao próprio premiê, que comanda o Partido Socialista (PS). 

Javier Milei concede entrevista após fórum econômico, em Madri: argentino chamou Sánchez de "ladrão" e "corrupto"
Javier Milei concede entrevista após fórum econômico, em Madri: argentino chamou Sánchez de "ladrão" e "corrupto" (foto: Thomas Coex/AFP)

A resposta do governo da Espanha veio por uma declaração do Ministério das Relações Exteriores e uma publicação do premiê em seu perfil no Instagram. A chancelaria de Madri expressou sua "mais enérgica condenação" aos "insultos e calúnias" de Milei. "A Espanha não aceita ingerências externas, nem ataques e injúrias ao seu presidente", advertiu. Sánchez usou a rede social para divulgar uma imagem, em seu story, do álbum da cantora argentina Lali Espósito, acompanhada de sua música intitulada Fanático. 

Em ato de campanha em Burgos, o primeiro-ministro também enviou um recado a Milei, que tem levado adiante a "política da motosserra", baseada em cortes orçamentários radicais. "O que se demonstra, no fim das contas, é que as motosserras e os cortes drásticos que a direita e a extrema-direita sempre promovem quando governam não constroem nada; pelo contrário, destroem", declarou Sánchez.

Professor de ciência política da Universidade de Buenos Aires (UBA), Miguel De Luca explicou ao Correio que a estratégia usada por Milei, ao atacar adversários, inclusive em seus países, busca a polarização. "Também é uma forma de buscar identificação com a linguagem popular", observou. "O presidente Milei costuma ter falas e comportamentos inadequados para líderes ou governantes de outros países. Ele também se comporta dessa maneira com autoridades, jornalistas ou acadêmicos da Argentina. Não é algo novo. E, até o momento, isso não trouxe consequências políticas para o seu governo." (RC) 

  • Yves Sintomer, professor de ciência política da Universidade Paris 8
    Yves Sintomer, professor de ciência política da Universidade Paris 8 Foto: Arquivo pessoal
  • Javier Milei chamou Pedro Sánchez de
    Javier Milei concede entrevista após fórum econômico, em Madri: argentino chamou Sánchez de "ladrão" e "corrupto" Foto: Thomas Coex/AFP
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postado em 22/10/2026 05:00
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